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5.1 PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

5.1.4 O professor Francisco

5.1.4.2 A crença de autoeficácia docente de Francisco

Dos professores da escola pública estudados, Francisco foi quem apresentou um resultado mais alto na escala de autoeficácia docente (4,67), o que significaria dizer que Francisco é o professor que se percebe mais capaz de dar aula. Esta constatação se confirmou no decorrer de seu discurso, reforçando o resultado da escala.

Primeiramente, foi perguntado a Francisco a que ele atribui esse resultado, ele respondeu:

À minha seriedade. Tudo o que eu faço na vida eu levo a sério. Por simples que seja, eu levo a sério. Seja... eu participo de um grupo voluntário, um coral, há 30 anos, eu levo a sério, enquanto eu estou lá eu levo a sério. São ensaios semanais, duas horas por semana, nesse momento eu levo a sério. Então é a seriedade que eu levo em tudo. [...]

Esta afirmação remete-se à compreensão de que, para Francisco, a principal fonte de desenvolvimento do seu senso de autoeficácia é a preparação prévia. A sua fala sobre os ensaios que faz para o coral revela a sua compreensão do que considera ser essa seriedade.

Nesse sentido, esse investimento e dedicação anterior a uma atividade, inclusive a de professor, é considerado por Francisco como influente em sua crença de autoeficácia docente. Francisco relata como foi o início de sua trajetória profissional como professor:

Difícil. Difícil, como eu acredito que seja pra todos. A falta de experiência, conhecimento, a gente fica meio... depois você vai pegando o ritmo, vai aprendendo, como se diz, vai aprendendo na prática, a prática te ensina muito, a prática nos ensina muito. A teoria nos dá o direito de praticar, teoria é pra isso, teoria não me deixa preparado. Ela é a porta de entrada, eu sempre digo que a faculdade é a porta de entrada para a sala de aula, que a faculdade não te diz como é o dia a dia

Essa fala aponta outras fonte de desenvolvimento de sua crença de autoeficácia: a experiência direta. Francisco demonstra claramente que acredita que suas experiências anteriores, que provavelmente foram interpretadas como experiência de sucesso, contribuem para que se perceba capaz de dar uma boa aula. A experiência direta diz respeito à interpretação de resultados obtidos a partir da realização de uma tarefa como bem-sucedidos. (PAJARES; OLAZ, 2008).

Francisco contou que acredita que observar outros professores contribui para como percebe sua capacidade em dar aula:

Ah... isso é muito bom. Ter outros como experiência, porque cada um tem um método, um estilo. [...] Contribuiu sim, bastante. Inclusive os professores da universidade que a gente observava. Isso, pô tu sabes que têm aqueles que são mais... vamos dizer assim, aqueles que levam a coisa mais “deixa pra lá” e aquele que leva mais a sério. Isso a gente vai contabilizando, ao longo do curso. Isso contribui pra gente, “não quero ser igual fulano”.

Pajares e Olaz (2008) e Nunes (2008) reforçam que a experiência direta é uma fonte de informações mais forte do que a experiência vicária no que se refere à criação de crenças de autoeficácia, no entanto em atividades que a pessoa tem pouca experiência ou não está certa de suas próprias capacidades, a experiência vicária se torna uma fonte mais poderosa para criar crenças de autoeficácia. Esta afirmação relaciona-se diretamente ao caso de Francisco, que considerou importante a observação de seus professores, na época em que estava na faculdade. Para Francisco, a observação de professores, até mesmo quando não os considera bons professores, interfere em sua crença de autoeficácia.

5.1.4.3 A relação entre a crença de autoeficácia docente e a identidade profissional de Francisco

No decorrer da entrevista, Francisco demonstrou o que considera ser a função e papel principal do professor: ter um conhecimento e transmiti-lo para quem não possui. Para isso, segundo ele, o professor assume uma posição de coordenação, de controle. A partir de sua fala, Francisco considera que possui essas características e que executa bem esse papel de coordenador, como relatou em outras situações profissionais e pessoais (ter um comércio próprio; coordenação de grupos). Nesse sentido, é possível refletir sobre a relação entre sua crença de autoeficácia e sua identidade profissional.

Pode-se pensar que Francisco se identifica com a profissão docente por se perceber capaz de exercê-la com eficácia. Demonstrou que gosta de ser professor, se identifica com esse trabalho, pois se percebe como um bom professor. O contexto da identidade profissional é constituído pelas respostas às perguntas: O que faz? Quando faz? Onde faz? Com quem faz? Para quem faz? e Como faz?, sendo que a última se subdivide em como faz descritivo e avaliativo. O como faz descritivo refere-se à descrição da atividade profissional, por exemplo: “eu ensino a matéria para os meus alunos pedindo que eles pesquisem o conteúdo na internet”, trata-se do método que o professor utiliza. Enquanto que o como faz avaliativo diz respeito à avaliação do professor acerca de sua atividade profissional, por exemplo: “faço bem”. Sendo assim, relaciona-se o “como faz avaliativo” à crença de autoeficácia. Desta forma, o senso de autoeficácia pode ser entendido como um dos elementos constituintes da identidade profissional.

Cabe apontar ainda, uma possível relação entre a idade em que Francisco escolheu ser professor, com sua alta crença de autoeficácia e sua identidade profissional. Entende-se que uma mudança de carreira aos 47 anos trata-se de uma escolha madura e aliada à crença de que pode exercer com eficácia essa nova atividade profissional. Essa compreensão está de acordo com o estudo realizado por Chester e Beaudin (1995 apud BZUNECK, 2000, p. 7), no qual descobriu-se que “aqueles que abraçavam a profissão do ensino com mais idade, após terem exercido outras profissões, acusavam mais senso de compromisso, mais interesse intrínseco pelo seu trabalho e mais altas crenças de eficácia quando comparados com os mais jovens nas mesmas condições.”

Compreende-se, nesse sentido, que a crença de autoeficácia de Francisco contribui para que ele se identifique mais com sua profissão. Essa identificação pode ser demonstrada através de seu envolvimento e compromisso com sua carreira.