ORGANIZAÇÃO 127 5.1 ANÁLISE TEXTUAL DAS FALAS DOS DIRIGENTES
VI. Governo Dilma (2011 a 2014)
3.2. O PROGRAMA CULTURA VIVA
3.2.1. A Criação do Programa
A criação do Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania (Cultura Viva), em 2004, está profundamente relacionada ao momento de redirecionamento e reformulações conceituais e administrativas que reestruturaram o Ministério da Cultura a partir de 2003. Foi criado em um momento em que as políticas públicas culturais brasileiras estavam sendo articuladas a outros contextos: como as rodas de negociação com a UNESCO, a OMC e outros organismos multilaterais (NUNES, 2015).
O espaço de experimentações que possibilitou a criação do programa, segundo Célio Turino (2013), abriu-se com a eleição de Lula, pela carga simbólica representada no deslocamento de classes no exercício de governo.
Uma política pública como o Cultura Viva e os Pontos de Cultura só pôde surgir em um momento político muito determinado. Simbolismo da eleição do presidente Lula, em 2002, que abriu um novo ambiente para o protagonismo popular. Foi esse caldo de cultura que arou um terreno fértil para a experimentação de políticas públicas participativas e inovadoras (TURINO, 2013).
Célio Turino (2010) descreve o início do processo de formulação do PCV. Segundo o idealizador do programa, o caminho, inicialmente adotado para descentralizar e democratizar o acesso aos bens culturais, previa a construção de espaços físicos, as BACs – Base de Apoio à Cultura, pequenos centros culturais pré-moldados, que seriam instalados em bairros de periferia em pequenos municípios. Era um caminho que privilegiava a “estrutura” em detrimento do “fluxo”. A ideia não foi adiante por cisões no Ministério. Após seis meses, em que a secretaria responsável permaneceu sem titular, Célio Turino foi nomeado, mas
negou-se a dar continuidade ao projeto por desacreditar de sua primeira concepção. Em suas palavras: “Um programa com foco apenas na construção física não daria certo” (TURINO, 2013). O desenho do PCV surge, assim, numa proposta de alterações do projeto original das BACs, sendo a principal delas a mudança de foco na destinação dos recursos da estrutura física do espaço para as instituições culturais já existentes nas comunidades pobres, no intuito de potencializar suas ações culturais.
“Tudo a partir de uma ideia simples: potenciar o que já existe, valorizando a criatividade e inventividade de nosso povo” (TURINO, 2013). São Tribos indígenas, grafiteiros, grupos ciganos, povos de terreiro, comunidades quilombolas, cooperativas de assentamentos rurais, comunidades de ritmos e danças tradicionais (escolas de samba, maracatus, cirandas, quadrilhas) grupos de capoeira e manifestações de caráter cultural/religioso, contadores de história, grupos de cibercultura, harckers, etc.
Segundo Botelho (2001), ao abarcar os fazeres e saberes populares o PCV incorpora a dimensão antropológica da cultura, que valoriza de seus modos de viver, pensar e fruir, de suas manifestações simbólicas e materiais, e que busca, ao mesmo tempo, ampliar seu repertório de informação cultural, enriquecendo e alargando sua capacidade de agir sobre o mundo.
O Cultura Viva surge, assim, com o objetivo de “implementar uma política cultural que atenda à diversidade e à abrangência que compõem a sociedade brasileira” (Minc, 2013). Tendo como princípios norteadores autonomia, protagonismo e empoderamento, o PCV estimula as produções culturais já existentes no cotidiano de suas comunidades, dando visibilidade a expressões que, até então, não eram objeto de política governamental e não compunham reconhecidamente o campo cultural (LACERDA; MARQUES; ROCHA, 2010; OLIVEIRA; BEZERRA, 2015; MEDEIROS; ALVES; FARAH, 2015).
Nas palavras de Célio Turino (2010): “O Brasil silenciado, que era convidado apenas para assistir ao país inventado pelas elites brancas do Sul e que agora vai forjando os espaços e os tempos da sua emancipação”. O programa vinha, segundo Medeiros, Alves e Farah (2015), com o intuito de reverter a concentração regional e redirecionar recursos, ao incentivar organizações que, embora realizassem ações culturais, eram excluídas do campo moldado pelo mecenato. Instituições que, anteriormente, se quer eram reconhecidas como organizações culturais no Brasil, passaram a se relacionar diretamente com o poder público (OLIVEIRA; BEZERRA, 2015). Ao reconhecer e apoiar grupos sociais
e culturais historicamente alijados, “foi retirado o véu da invisibilidade” (TURINO, 2013).
Estes grupos passam a ser incluídos ao campo cultural por seleções públicas, e tornam-se “Pontos de Cultura”, ganhando não apenas o reconhecimento público, mas acessando recursos materiais e financeiros para desenvolverem suas ações (MEDEIROS; ALVES; FARAH, 2015). Para se tornar um Ponto de Cultura, segundo o MinC (2015), os responsáveis por iniciativas culturais já existentes nas comunidades, há no mínimo três anos, participam do edital de divulgação da Rede de Pontos de Cultura do seu estado ou município, enviando projeto para análise da comissão de avaliação, composta por autoridades governamentais e personalidades culturais. Havendo a inclusão por seleção, será celebrado convênio plurianual para execução do projeto aprovado.
É central na concepção do programa, a ideia de rede (de ações culturais), integrada por “pontos” que se comunicam e se articulam: os chamados pontos de cultura. O intuito é promover o fluxo de informação, conhecimento e experiência (BARBALHO, 2007. p.16). A rede de pontos funciona como instrumento de pulsão e articulação entre Pontos de Cultura.
Art. 4o A Política Nacional de Cultura Viva compreende os seguintes instrumentos: I - pontos de cultura: entidades jurídicas de direito privado sem fins lucrativos, grupos ou coletivos sem constituição jurídica, de natureza ou finalidade cultural; II - pontões de cultura: entidades com constituição jurídica, de natureza/finalidade cultural e/ou educativa, que desenvolvam, acompanhem e articulem atividades culturais, em parceria com as redes regionais, identitárias e temáticas de pontos de cultura e outras redes temáticas, que se destinam à mobilização, à troca de experiências, ao desenvolvimento de ações conjuntas com governos locais e à articulação entre os diferentes pontos de cultura que poderão se agrupar em nível estadual e/ou regional ou por áreas temáticas de interesse comum, visando à capacitação, ao mapeamento e a ações conjuntas; III - Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura: integrado pelos grupos, coletivos e pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos que desenvolvam ações culturais e que
possuam certificação simplificada concedida pelo Ministério da Cultura.
Segundo o MinC (2015), grupos de cultura podem, por meio de documento oficial, solicitar a criação de uma rede ao Ministério da Cultura. Uma rede é constituída por, no mínimo, quatro Pontos. É necessário ainda dispor de contrapartida financeira mínima de um terço do valor total do convênio a ser firmado (MINC, 2015). Podem participar destes editais de seleção pública:
[...] pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos, que sejam de natureza cultural como associações, sindicatos, cooperativas, fundações privadas, escolas caracterizadas como comunitárias e suas associações de pais e mestres, ou organizações tituladas como organizações da sociedade civil de interesse público (Oscips) e Organizações Sociais (OS), sediadas e com atuação comprovada na área cultural de, no mínimo, três anos em seu respectivo estado e/ou município (MINC, 2015).
O apoio do MinC aos projetos culturais promovidos pela sociedade civil ocorre sob forma de repasse de recursos financeiros e técnicos, suporte institucional e facilitação das ações de trocas de informações e intercâmbios entre as diferentes comunidades e suas manifestações (LACERDA, 2010). Os projetos selecionados recebem um recurso de 185 mil reais para uso no período de dois anos e meio, posteriormente ampliado para três anos, nas atividades e ações apresentadas no projeto submetido ao edital (BARBALHO, 2007; LACERDA, 2010).
O Ponto de Cultura constitui a ação estratégica prioritária do Programa Cultura Viva (MINC, 2015), é o projeto de maior alcance territorial do Ministério da Cultura, propiciando, uma base social e política de apoio à atuação do governo (LACERDA, 2010).