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4 PROVAS NO PROCESSO PENAL

4.5 O ESTADO VIOLENTADOR

4.5.1 A criança como autora da prova

Primeiramente cabe destacar quem é entendido como criança para a legislação atual. O artigo 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe que “considera-se criança,

para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos” (BRASIL, ECA, 2018).

O entendimento supracitado vigora apenas neste âmbito nacional. Isso porque, para o artigo 1º da Convenção Internacional dos Direitos da Criança datada de 1989 e ratificada no ano seguinte pelo Brasil, considera-se criança “todo ser humano com menos de dezoito anos de idade, a não ser que, em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes” (BRASIL, Convenção Sobre os Direitos da Criança, 2018).

Contudo, para Bitencourt (2009, p. 18),

ambas são pessoas em desenvolvimento físico e mental, definidos como um ser em condições de receber cuidados especiais e que passam a ser considerados cidadãos, com direitos pessoais e sociais garantidos pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Ocorre que crianças e adolescentes representam uma grande parte da população brasileira e são o segmento mais exposto à violência, em especial à violência sexual, pois encontram-se em uma fase da vida que, devido à sua fragilidade, dependência e falta biológica de maturação nos níveis emocional, social e cognitivo, estão mais suscetíveis de abusos.

É importante ressaltar, que os crimes praticados contra a dignidade sexual de crianças, observam o procedimento ordinário, disciplinado no Código de Processo Penal, tramitando em varas criminais, e não em varas específicas, dedicadas a crianças e adolescentes. Assim, como são varas diferentes, possuem magistrados com dedicação e conhecimentos diversos, que não acolhem da mesma forma uma criança, em uma vara criminal, como em uma especializada.

Geralmente, este é o cenário para o qual a criança terá de se dirigir, para prestar depoimentos e se submeter a esclarecimentos: Delegacia de Polícia, Assistência Social, Instituto Geral de Perícia, Ministério Público e o Fórum. Considerando que esses ambientes não são adaptados para esse público, a fim de que sejam recebidos de forma acolhedora e tampouco possuem operadores do direito preparados para essa demanda que é, cada vez mais crescente, a situação fica ainda pior, gerando um processo de revitimização estatal contra a criança.

Nesse viés, Bitencourt (2009, p. 90), assim se manifesta:

As inadequadas intervenções do aparato estatal acabam produzindo nova (re) vitimização, e até a destruição de eventuais provas dos fatos imputados ao acusado. Desafortunadamente, o Estado não está equipado com recursos materiais e humanos capazes de proteger e preservar a vítima em sua integridade moral, psicológica e socioafetiva. Trata-se de um sistema dirigido a adultos, sem pessoal especializado a intervir com crianças e adolescentes frágeis e vulneráveis, sem estrutura adequada a

possibilitar que essas vítimas sejam preservadas de novos abusos e corretamente informadas dos procedimentos adotados. Referimo-nos a falta de delegacias especializadas, do despreparo do pessoal encarregado do atendimento a vítima infanto-juvenis, ausência de estrutura para exames físicos periciais necessários, carência de médicos peritos especializados em crimes sexuais que envolvam vítimas infanto-juvenis, e, por fim, inabilidade dos operadores do direito em geral para lidar com vítimas especiais e falta de estrutura física para recepcionar e ouvir tais vítimas em processo judicial. O percurso da vítima de crime sexual traduz-se num sistema estatal de violência.

Sabe-se que a inquirição da vítima tem por objetivo o esclarecimento do crime, e também o combate à impunidade do autor quando não existem outras provas para corroborar com os relatos.

A própria sociedade espera a sua palavra e clama por justiça para as autoridades. Contudo, o sistema penal que a recebe atribui uma responsabilidade de condenação – quase que exclusivamente – a ela. Se existir somente sua palavra, essa será a prova que conduzirá o destino do processo, e, consequentemente decidirá o destino de indivíduos.

Isso gera uma pressão psicológica na criança, o que é prejudicial para sua formação psíquica.

4.5.1.1 A obrigatoriedade da inquirição da vítima

O artigo 201 do Código de Processo Penal dispõe que “sempre que possível, o ofendido será qualificado e perguntado sobre as circunstâncias da infração, quem seja ou presuma ser o seu autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as suas declarações” (BRASIL, CPP, 2018).

Para alguns doutrinadores, essa previsão é uma exigência, e não uma possibilidade. Isso é o que demonstra Capez (2017, p. 456), quando diz que “o ofendido não precisa ser arrolado pelas partes para ser ouvido, devendo o juiz determinar, de ofício, a sua oitiva (dever jurídico)”. Pelo contrário, se o juiz não o fizer, caracteriza-se como uma nulidade relativa, podendo a parte que se sentiu prejudicada, arguir essa matéria para anular o feito.

No momento da oitiva da criança, conforme prevê o artigo, o juiz deverá perguntar sobre as circunstâncias da infração. Logo, faz-se com que a vítima relembre – o que não deseja mais –, o modo que ocorreu a violência, o lugar, a postura do agressor, entre outros elementos.

Mesmo que o parágrafo 5º do artigo 201 faça previsão de que o juiz poderá encaminhar a vítima para tratamentos, principalmente em áreas psicossociais, assistência jurídica, etc. (BRASIL, CPP, 2018), a regra, em conformidade com o Código de Processo Penal é que as perguntas devem ser realizadas por ele. Todavia, como já observamos, inúmeras são as consequências negativas para as crianças-vítimas, que são inquiridas por profissionais que não possuem conhecimento técnico e específico, como se espera que tenham os assistentes sociais e psicólogos.

Não obstante já ter sido vítima de um crime, a criança sofre a revitimização dentro do processo, por meio dos constrangimentos pelos quais passa nos locais onde terá de narrar os fatos e pelo despreparo dos profissionais, etc.

Sabe-se que durante a atuação do juiz em um processo, rege o princípio da imparcialidade. Existe a obrigatoriedade do afastamento daquele julgador com as partes (vítima e autor). Porém, para uma inquirição infantil, o ideal é uma aproximação daquela criança, tornando o ambiente acolhedor. Inicia-se, assim, uma discussão em torno do assunto, se tal situação poderia caracterizar uma parcialidade do julgador, passível de uma nulidade processual.

Isso porque, se o julgador aproxima-se da criança, de modo a deixá-la mais confortável, ele poderá ser observado pela defesa do réu como um confidente. Portanto, poderá ser considerado como suspeito na condução do processo, justamente pelo princípio da imparcialidade.

Contudo, tal situação pode fragilizar a confiabilidade da declaração daquela vítima. Aliado a isso, o decurso do tempo entre uma oitiva e outra, tendem a enfraquecer os seus relatos e diga-se, não só o de crianças, mas o de todas as pessoas que presenciaram ou foram vítimas de um delito. Importante salientar, que tantas intervenções produzem e/ou podem produzir diversos danos, como vimos anteriormente, o da vitimização secundária.

Há um prejuízo maior, uma vez que diante desse enfraquecimento de memória pelo lapso temporal, algumas contaminações podem ocorrer implantando situações na memória que, de fato, não ocorreram. Sobre isso, Gesu (2014, p. 180), assim se manifesta:

O tempo, além de contribuir para o esquecimento, oportuniza a contaminação daquilo que a testemunha ou vítima efetivamente viu e ouviu, na medida em que passa a ter contato com outras pessoas, com outros entrevistadores, havendo uma confusão entre aquilo que sabe e o que lhe foi dito posteriormente. De outra banda,

uma entrevista neutra tem o potencial de reforçar a memória. Sabemos que dificilmente as entrevistas são neutras.

Diante da obrigatoriedade da inquirição da vítima, como dispõe o Código de Processo Penal, o ideal é que todos os profissionais possuam conhecimento técnico para lidar com a situação de vulnerabilidade infantil. Principalmente os policiais, visto que, na maior parte das vezes, a denúncia formal é realizada, primeiramente no âmbito policial, onde haverá uma maior probabilidade de produção de prova robusta com declaração neutra, sem sugestões.

Ainda que haja discussões de aproximação dos profissionais (como o magistrado com uma das partes) e, neste caso, com a vítima, que para alguns poderia estar “relativizando” o princípio da imparcialidade, tal atuação é plenamente entendida. Aquele servidor estará agindo com compromisso com a efetividade da função estatal, principalmente a jurisdicional.

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