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CAPÍTULO 1: ENQUADRAMENTO CONCEPTUAL

6. Rumo a uma Perspectiva Integradora no Estudo do Desenvolvimento Vocacional na

6.2 A criança como modeladora do seu desenvolvimento e contexto

A abordagem desenvolvimental-contextualista do desenvolvimento humano incorpora a noção de que o contexto influencia o desenvolvimento do indivíduo, sendo também, por sua vez, influenciado e constrangido pelas características individuais, devido à interacção dinâmica observada entre ambos (Vondracek et al., 1986). De acordo com Bronfenbrenner e Morris (1998), as características individuais agem como modeladoras do desenvolvimento, uma vez que afectam a emergência e operacionalização dos processos de desenvolvimento, que são vistos, assim, como produto derivado de determinadas formas de interacção entre o organismo e o meio. Mais ainda, os mesmos autores apontaram a importância das características “desenvolvimentalmente generativas”, vistas aqui enquanto disposições comportamentais que encetam formas duradouras de interacção com o contexto imediato. Estas características envolvem orientações activas, tais como a curiosidade, a tendência para iniciar e envolver-se em actividades, a responsividade às iniciativas de outros, e a prontidão para diferir a gratificação imediata, de modo a perseguir objectivos de longo prazo. Com efeito, a curiosidade tem sido apresentada enquanto um factor importante na exploração vocacional da criança (Patton & Porfeli, 2007), sendo igualmente vista enquanto precursora da mesma (Super, 1990). Do mesmo modo, os interesses, as crenças acerca da competência individual e as expectativas (Arbona, 2000; Fouad & Smith, 1996; Tracey & Ward, 1998; Trice, 1991) podem ser vistas enquanto disposições activas que modelam as trajectórias de desenvolvimento individual, bem como os contextos de desenvolvimento. A investigação no domínio tem fornecido evidências de que elementos como o sexo e as influências dos papéis sexuais, a idade, o nível sócio-económico, as experiências em contexto familiar, as atitudes parentais, a auto-estima, o nível intelectual, e a raça e etnia contribuem para resultados diferenciais nestas disposições, bem como para a forma como os indivíduos se envolvem no seu meio e, consequentemente, para o tipo de experiências que constituem, no seu conjunto, a

trajectória vocacional do indivíduo (e.g., Araújo, 2002; Hartung et al., 2005; Watson & McMahon, 2005, 2007).

Tomado como exemplo desta discussão, o estudo prospectivo conduzido por Bandura e colaboradores (2001) mostra como as crenças de auto-eficácia das crianças constituem um mecanismo de agência humana, na escolha vocacional e desenvolvimento de carreira. O referido estudo observou que as crenças de eficácia académica, social e de auto-regulação do comportamento, de crianças em idade escolar, influenciam o tipo de actividades ocupacionais para as quais estas se sentem competentes, quer directamente, quer através do seu impacto nas aspirações académicas. Assim, os mesmos autores notaram que as crenças de auto-eficácia, enquanto disposições activas da criança, estão relacionadas com o tipo de objectivos e resultados esperados para o seu futuro no mundo do trabalho. Mais ainda, Bandura e colaboradores (2001) notaram que as crenças de auto-eficácia académica, mais do que o rendimento académico, constituem a variável que mais influencia a auto-eficácia vocacional, bem como as preferências vocacionais reveladas pelas crianças.

Ao longo da sua evolução, o indivíduo, enquanto agente activo do seu desenvolvimento, efectua numerosas escolhas, conscientes e inconscientes, que têm uma ascendência nos contextos em que se envolve, bem como no seu futuro desenvolvimento (Crockett & Crouter, 1995). Gottfredson (1981, 1996) referiu-se ao desenvolvimento da carreira como uma sequência cumulativa de decisões, que progressivamente constrangem o conjunto de opções e prováveis resultados desenvolvimentais. Assim, o processo de circunscrição revela-se influente na determinação nas diferenças individuais e de grupo nos resultados de desenvolvimento vocacional, nomeadamente no que respeita as preferências vocacionais. As crianças constroem activamente um mapa social do mundo das profissões, identificando aquelas que mais preferem, resultado do julgamento da compatibilidade destas com a imagem de que dispõem de si próprias. Nesta avaliação, as apresentações públicas de masculinidade e feminilidade são avaliadas pela criança, seguindo-se o exame da apresentação social em termos de estatuto e prestígio, passando finalmente para a análise dos seus próprios interesses e características de personalidade. No entanto, este processo não deverá ser visto como uma via fechada, com um só fim: uma vez que alguns eventos de vida são imprevisíveis e resultam em oportunidades inesperadas e, por vezes, fruto do acaso, torna-se impossível prever os resultados de detorna-senvolvimento vocacional, apesar da acumulação de decisões tomadas pelo indivíduo aumentar progressivamente a probabilidade ou improbabilidade da ocorrência de determinados resultados, quer em termos de aspirações,

Seguindo esta concepção da criança como um agente activo do seu próprio desenvolvimento, a investigação deverá tratar as características de comportamento vocacional da criança como precursoras e produtoras de padrões ulteriores de desenvolvimento, e não apenas como meros resultados desenvolvimentais. O estudo conduzido por Ferreira, Santos, Fonseca, e Haasse (2007) focou os precursores precoces do desenvolvimento da carreira, numa amostra portuguesa de crianças em idade escolar. O referido estudo apresentou resultados de um estudo longitudinal conduzido ao longo de dez anos, no qual foram recolhidas medidas de socialização educacional e ocupacional aos sete anos de idade, primeiro momento de avaliação no estudo, até quando as crianças tinham dezassete anos, quarto momento de avaliação. Os autores recolheram medidas de funcionamento psicológico junto dos participantes do estudo, bem como relatos de comportamento das mesmas, obtidos pelos pais e professores, adoptando, assim, uma abordagem compreensiva à avaliação do desenvolvimento. Os resultados evidenciam que a presença de comportamentos anti-sociais, tal como relatado por professores, no segundo ano de escolaridade, são altamente preditores de abandono escolar sete anos depois. Os autores verificaram igualmente que a relação entre comportamentos anti-sociais precoces e o abandono escolar é muito mais forte para os rapazes, do que para as raparigas, provavelmente devido aos diferentes padrões de socialização e expectativas dirigidos a ambos. Adicionalmente, Ferreira e colaboradores (2007) reconheceram o papel dos factores sócio-culturais, bem como o impacto do nível socioeconómico da família e as influências parentais processuais, nos padrões de abandono escolar observados. A adopção de uma perspectiva desenvolvimental-contextualista na análise dos resultados levará à concepção do abandono escolar e da transição prematura para o mundo do trabalho como um processo complexo, que ocorre ao longo do tempo, e que se deve à interacção dinâmica entre as características pessoais e o contexto psicossocial em que o desenvolvimento ocorre. Mais ainda, os resultados evidenciam que a relação entre as experiências precoces e os resultados de desenvolvimento ulteriores se trata de uma relação complexa, em parte devido ao facto de que as crianças são produtoras activas do seu próprio desenvolvimento.

O estudo conduzido por Wiesner, Vondracek, Capaldi e Porfeli (2003) é um outro exemplo da análise das características da criança, como precursoras do desenvolvimento e das trajectórias de carreira do indivíduo. O objectivo do estudo foi identificar e avaliar os factores que, durante a infância e adolescência, predizem as trajectórias de desenvolvimento vocacional nos primeiros anos da vida adulta, recorrendo para tal a uma amostra de jovens homens em risco psicossocial (23-24 anos), que foram avaliados anualmente desde os nove ou

dez anos de idade. Foram distinguidos quatro percursos de carreira na amostra, nomeadamente: jovens com desemprego prolongado, desemprego a curto-termo, emprego a tempo inteiro, ou educação superior. As medidas de realização educacional, as características da família e pares, e o ajustamento pessoal durante a infância e adolescência foram usadas como eventuais preditores das trajectórias de carreira dos jovens adultos. Os resultados perecem demonstrar que os jovens desempregados por tempo prolongado evidenciam os mais baixos resultados em termos de realização educacional, bem como as piores características relativamente aos contextos da família e do grupo de pares, bem como de ajustamento pessoal durante a adolescência. Wiesner e colaboradores (2003) verificaram que os mais importantes preditores dos diferentes resultados nas trajectórias de carreira são a realização educacional, a existência de casos de prisão, e problemas de saúde mental. Estes resultados evidenciaram que a relação entre os resultados precoces e futuros é um produto da complexa relação entre as características pessoais e contextuais, e que o indivíduo, através das suas disposições comportamentais, tem um papel activo na modelação do seu desenvolvimento e dos contextos em que está envolvido.