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Inicialmente, pode causar estranhamento ao leitor o fato de que essa pesquisa, que tematiza a formação dos professores de educação infantil e básica, tenha por referencial a teoria de Jean Piaget, haja vista que o autor não desenvolveu seu trabalho com a preocupação de que este servisse ao estudo da aprendizagem (PIAGET,1980). Dessa maneira, é importante relembrar que os conceitos piagetianos sobre o desenvolvimento infantil adquiriram relevância tal que é difícil estudar esse tema sem referenciar a sua teoria epistemológica.

O conceito de criança em Piaget implica a sua inserção em toda a teia epistemológica desenvolvida pelo autor; compreendendo, pois, que as estruturas cognitivas e afetivas da criança são diferentes das estruturas correspondentes de um

adulto. Nesse sentido, a maior contribuição de Jean Piaget foi a criação do domínio que aborda o desenvolvimento cognitivo da forma como ele é conhecido hoje, um ponto de vista que, para a sua época, era consideravelmente novo. (FLAVELL, 2002). Assim, o autor construiu as bases de sua teoria cognitiva com o objetivo de elucidar seu argumento de que há continuidade e circularidade entre os fenômenos biológicos, a adaptação ao meio e a inteligência do ser humano.

Dessa forma, a teoria desenvolvida por Piaget contrariava a ideia já convencionada e aceita pelo meio educativo de sua época, haja vista que esta havia sido formulado ao longo de séculos de formulações filosóficas. Ferreiro (2001, p. 101- 102) afirma: “porque vai contra o preconceito adulto, cristalizado na instituição escolar, que pretende que a criança, chega a se tornar um ser pensante graças aos adultos que a ensinam”.

Conforme afirmam Montangero e Maurice-Naville (1998), Piaget evidenciava uma forma diferenciada de se nomear a “mentalidade infantil”, pois defendia que o pensamento da criança era diferente “pela sua estrutura e pelo seu funcionamento, do pensamento adulto”. (MONTANGERO; MAURICE-NAVILLE, 1998). Para Piaget, o pensamento da criança pequena era pré-lógico, pré-casual e pré-moral. Consoante aos já referidos autores:

Essa mentalidade caracteriza-se pela ausência de [...] lógica das relações e das classes, por grande dificuldade em considerar a realidade de um ponto [...] objetivo e pela ausência de normas morais [...]. (MONTANGERO; MAURICE-NAVILLE, 1998, p. 24).

Sendo assim, este capítulo traz um entendimento sobre como a obra de Jean Piaget contribui para a educação de crianças e, consecutivamente, para a formação de professores de educação infantil. Ademais, busca trazer a concepção do autor sobre a aprendizagem, o desenvolvimento e sobre conceituações construídas por Jean Piaget nos primeiros períodos de sua obra, como a mentalidade infantil e a Psicogênese.

2.3 A EDUCAÇÃO INFANTIL BRASILEIRA FRENTE AOS CONCEITOS DE DESENVOLVIMENTO E DE APRENDIZAGEM SOB A PERSPECTIVA DE JEAN PIAGET.

Atualmente, há certa discussão sobre a diferença existente entre a ideia vygtskyana, na qual o desenvolvimento cognitivo da criança acontece por meio da interação social, ou seja, de sua interação com outros e com o meio externo. Essa ideia, argumenta que a aprendizagem ocorre de fora para dentro, e dessa maneira, diferencia-se da perspectiva piagetiana que defende que o conhecimento se constrói do interior da criança para fora. Essas discussões entre as diferenças e semelhanças teóricas quanto a aprendizagem e desenvolvimento da criança é uma questão contemporânea e levanta debates muito interessantes e instigantes sobre as contribuições de cada teoria, mas salienta-se que este, não foi o foco da análise pretendida.

Por ter sido influenciado, na redação de sua teoria, pela sua formação inicial em biologia, a obra de Piaget é, ainda hoje, alvo de interrogações e de más compreensões por parte de estudiosos e de leitores. Isso, contudo, não altera o fato de que a Psicogênese piagetiana implica perspectivas novas e impactantes à gênese do raciocínio lógico matemático e a outros assuntos que se relacionam à construção do conhecimento.

Conforme Piaget, o processo de desenvolvimento ocorre de maneira espontânea, está ligado à embriogênese8 e se relaciona com a totalidade das

estruturas do conhecimento. (INHELDER; BOVET; SINCLAIR, 1974/1977). Dessa forma, a representação que a criança faz da realidade depende de instrumentos cognitivos construídos por meio do seu desenvolvimento. Ou seja, a aprendizagem ocorrerá como resultado do desenvolvimento próprio da criança.

Nesse sentido, Piaget afirma que a lógica e as estruturas cognitivas não são inatas ao sujeito epistemológico. Ou seja, são os fatores orgânicos que a criança apresenta, ao nascer, que lhe permitem criar instrumentos para a interação com o meio, potencializando, assim, desequilíbrios que desenvolvem a sua inteligência. Contudo, Piaget salienta que esses instrumentos não estão programados organicamente e que estes se desenvolvem, também, por meio da interação com o meio. Isso posto, ao longo do desenvolvimento, a criança passa a exercer o ato de conhecer e, assim, se desenvolve em níveis mais elevados de inteligência.

8 A embriogênese diz respeito ao desenvolvimento do corpo, mas também ao desenvolvimento do sistema nervoso e ao desenvolvimento das funções mentais, conforme tradução de Paulo Slomp – Fonte: PIAGET, Jean, Development and leaming. In: LAVATTELLY, C, S. e STENDLER, F. Reading

Para que o professor de educação infantil compreenda como se constrói o conhecimento da criança, devemos pensar no que Piaget descreve sobre o processo de evolução pelo qual ela passa, desde o seu nascimento. O epistemólogo afirma que o início se caracteriza por assimilações elementares do meio e do funcionamento de seus órgãos vitais. Trata-se, pois, do ajuste de estruturas internas da criança ao meio. Por exemplo: quando o bebê tem sensação de fome, este é amamentado e a sensação passa. Como comportamento, esse tipo de adaptação é equilibração entre a assimilação e a acomodação.

Conforme o autor, a construção do conhecimento baseia-se primariamente nos fatores genéticos da criança. Assim, a criança aprende por meio de assimilações consecutivas e de acomodações ao meio, essas as quais provocam transformações nas estruturas assimiladoras da criança para que ela seja capaz de assimilar outras informações. Em correspondência a esse movimento circular e cada vez mais amplo, Piaget desenvolve a ideia de uma “espiral ascendente”, o que será melhor explicado na categoria da “Psicogênese”.

Para que se examine a questão supracitada, podemos pensar no que ocorre com os bebês, quando choram e sinalizam à mãe a sensação, alertando-a da necessidade de serem amamentados. Observemos o quanto a sua capacidade natural de auto regulação precisa ser respeitada e protegida. Piaget (1970) afirma que esses instrumentos lógicos construídos/operações da lógica não são programados, isto é, não se encontram no genoma que herdamos. Assim, esses instrumentos lógicos se constroem por meio de regulações e de transformações no desenvolvimento do organismo. Quando o bebê suga pela primeira vez o seio da mãe, ocorre nesse momento a sua primeira ação com o meio. Nesse sentido, é possível inferir que o sujeito se interessa pelo mundo e que esse é um princípio de auto- organização.

Durante essa fase em seu desenvolvimento, o bebê ainda não possui representação mental e compreensão racional. No entanto, nessa perspectiva, ocorre o desenvolvimento da sua estrutura cognitiva e a construção de novos esquemas de assimilação que potencializam a sua maturação. Para Piaget (1975, 1990), é por meio da representação que a criança cria do real que dependerão os instrumentos lógicos estruturados em sua mente, tendo-os à disposição para poder interpretar a realidade. Ou seja, para que a criança aprenda, ela precisará ter desenvolvido esses instrumentos internos de estrutura cognitiva. Se, contudo, estes instrumentos não

estiverem prontos, a criança não conseguirá aprender adequadamente, naquele momento.

Considero que um dos maiores desafios de quem educa é descobrir maneiras inusitadas e diferentes de ensinar a mesma coisa à muitas crianças. Cada uma delas, com características e instrumentos próprios em seu desenvolvimento, são totalmente diferentes em suas formas particulares de aprender. Com essa ideia, Piaget inicia a sua teoria no intuito de provar que a mentalidade infantil se desenvolve a partir das construções dessas estruturas internas, que o autor acreditava se originarem a partir do discurso verbalizado (no primeiro período de sua obra).