CAPÍTULO II: A CRIATIVIDADE EM CONTEXTO: DIVERSOS OLHARES
2.1. A Criatividade do Professor e a Educação Infantil
Em pesquisas, a criatividade foi estudada de diferentes formas. Nesta perspectiva, Santos (1995) interessou-se em fazer um levantamento das pesquisas no Brasil acerca dos processos criativos, investigando o período de 1970 a 1993.
Encontrou um número de 59 produções, envolvendo teses e dissertações defendidas nas áreas de Psicologia e Educação. A pesquisadora discutiu o tipo de estudo, se empíricos ou teóricos; as abordagens prevalecentes no referencial teórico; o local de realização da pesquisa, referindo-se às etapas da educação básica e o ensino superior e os sujeitos investigados.
Dentre as informações construídas, verificou que naquele período a maioria dos estudos a respeito da criatividade foi empírica, num percentual de 81,4%, tratando da relação entre variáveis em situação natural ou simulada. Além disso, sustentavam-se por uma fundamentação teórica na abordagem comportamental, 43,9%, seguida da psicométrica, 29,2%.
Em relação ao local de realização da pesquisa, Santos (1995) encontrou que 96,5% foram em escolas, prevalecendo os estudos na segunda metade do ensino fundamental, de 5ª a 8ª séries. Os sujeitos pesquisados centraram-se nos alunos, constituindo um percentual de 83%, e apenas 14,6% eram professores e 2,4% outros sujeitos.
Esses dados sobre os sujeitos pesquisados são corroborados mais recentemente por Mitjáns Martinez (2002,1999). Segundo ela, os estudos no contexto educativo têm priorizado os alunos, ficando os professores em segundo plano e a instituição educativa em terceiro, com um menor número de pesquisas. Isto evidencia a relevância e necessidade de pesquisas que considerem o professor no contexto educativo e no desenvolvimento do currículo.
Ademais, é o professor quem organiza grande parte do trabalho pedagógico a ser desenvolvido com os alunos, situação que requer sua criatividade a fim de
contemplar as especificidades apresentadas pelas crianças e os objetivos educativos propostos para o segmento escolar em que atua. Neste sentido, Mitjáns Martínez (1999) destaca:
La importacia que tiene la creatividad del profesor para poder realizar, de forma sistemática y audaz, innovaciones em su atividad pedagógica justifican los esfuerzos que actualmente se vienen realizando en esta dirección (p.47).
Com os trabalhos acerca da criatividade do professor, tornam-se relevantes pesquisas que envolvam todas as etapas da educação básica até o ensino superior. A respeito do local de pesquisas, Santos (1995) verificou a concentração de estudos no ensino fundamental e não encontrou no período pesquisado trabalhos no âmbito da educação infantil.
Essa constatação pode ser compreendida pela própria constituição legal tardia da educação infantil como primeira etapa da educação básica, o que se efetuou somente em 1996, com a nova LDB. Entretanto, muitos foram os avanços teóricos que junto com a imposição legal justificam o atendimento na educação infantil e conseqüentemente, pesquisas nessa área. Didonet (2003), por exemplo, discute vários aspectos que levaram a maior consciência social sobre a relevância dos primeiros anos de vida, como: o avanço nas ciências (Psicologia, Antropologia, Sociologia, etc.); as avaliações dos programas que atendem crianças, em especial das que viviam em ambientes marginalizados; a produção acadêmica sobre educação infantil. E, acrescenta outros argumentos que enfatizam a educação infantil, abordando que se trata de uma necessidade da sociedade, expressa por uma demanda social; que responde a um imperativo de justiça social, uma vez que possibilita diferenças significativas para as crianças de classes menos favorecidas economicamente. Diz respeito a uma obrigação legal e responsabilidade governamental; e, que traz benefícios sociais e econômicos para a sociedade.
Apesar desse reconhecimento da educação infantil, a criatividade do professor dessa etapa da educação básica ainda é pouco pesquisada no Brasil, conforme Santos (1995). Em dados mais recentes, os professores representam 11,8% dos sujeitos pesquisados, segundo o levantamento de Zanella e Titon (2005). As autoras fizeram uma análise da produção científica sobre criatividade em programas brasileiros de pós-graduação em Psicologia no país, consideraram o
período de 1994 a 2001. Encontraram ainda a predominância de estudos em que os sujeitos eram alunos, com 26,6%. Não foi investigada a etapa da educação em que atuavam esses professores, no entanto, é possível perceber os números baixos em relação a outros sujeitos pesquisados.
Em seu levantamento, também verificaram situação similar à investigação realizada por Santos (1995) no que se refere ao tipo de pesquisa e à abordagem teórica. Desse modo, de 68 produções, constataram que 39% foram estudos experimentais, predominando as temáticas vinculadas às práticas pedagógicas (39,7%), que tiveram como referência teórica principal a psicometria com 33,8% e em segundo, a psicanálise com 19,1%. Argumentam que:
Na investigação de Santos (1995) também a pesquisa experimental e os levantamentos apareceram com maior freqüência que os demais tipos de estudo. A diferença de percentuais, no entanto, é significativa: enquanto de 1970 a 1993 constatou-se que 62,5% das pesquisas sobre criatividade eram experimentais, na última década estas ficaram em 39% (ZANELLA E TITON, 2005, p.309).
A respeito da distribuição das pesquisas por unidade da federação constataram que foram predominantes no Estado de São Paulo, que contemplou 70% das produções teóricas sobre criatividade. O Distrito Federal apresentou somente 10%.
Das produções no Distrito Federal, é possível notar que a relação entre a criatividade e a educação infantil tem sido abordada na perspectiva do professor enquanto organizador de condições pedagógicas para o desenvolvimento da criatividade de seus alunos e, em outra vertente, do conceito de criatividade que os docentes possuem. Nesse sentido, podem ser citadas duas pesquisas recentes: a que constituiu a dissertação de mestrado de Fresquet (2000), que investigou o processo de co-construção do conceito de criatividade no decorrer de um mini-curso de formação de professores de educação infantil. Outra foi a pesquisa para a tese de doutoramento de Neves-Pereira (2004), que discutiu as concepções e práticas de professores que atuam em instituições de educação infantil sobre a criatividade e sua promoção em sala de aula. Desse modo, ficaram à margem pesquisas centradas na criatividade do professor no trabalho pedagógico.
Essa constatação ocorre na direção contrária ao que Zanella e Titon (2005) destacam: o aumento das pesquisas acerca da criatividade na Psicologia. Afirmam que esses estudos passaram a incluir outros lócus como: os contextos artísticos, projetos sociais e organizações/empresas, expandindo os locais de pesquisa para além das instituições educativas.
Ao discutirem esse fato, alertam: “A pesquisa sobre a temática é, portanto, fundamental se o compromisso assumido, enquanto ciência e profissão, volta-se para a emancipação humana e a potencialização da vida.” (ZANELLA e TITON, 2005, p.310).
Nesse sentido, a criatividade do professor se constitui como elemento fundamental para o desenvolvimento do currículo e de práticas pedagógicas voltadas para as especificidades das crianças da educação infantil, como também para o respeito e fomento da criatividade dos alunos.
Nas relações que estabelece com os alunos, o professor pode ter impacto no desenvolvimento de recursos personológicos favoráveis à criatividade, atuando de forma significativa na constituição da subjetividade social do contexto educativo que valoriza a criatividade e, também, participando da constituição da subjetividade individual dos alunos.
Por isso, a relevância da realização de estudos que considerem, no desenvolvimento do currículo da educação infantil, a expressão criativa do professor. Assim, para compreender os diferentes enfoques sobre a criatividade, serão abordadas, em seguida, algumas das perspectivas teóricas a respeito do tema.