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CAPÍTULO 1: REGIÕES PORTUÁRIAS NAS FÍMBRIAS DOS

1.2.1 A crise açucareira no contexto do post bellum

Até cerca de 1630, enquanto a atividade açucareira consumia quase todos os esforços da empresa colonial e tomava a maior parte da atenção da elite luso-brasileira, em razão dos exacerbados lucros provenientes dela, os conquistadores se restringiam a estreita faixa litorânea de zona da mata que bordejava a costa; e contentavam-se ―de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos‖ (SALVADOR, 1918, p.19). Até a invasão holandesa, a região colonizada do norte do Estado do Brasil se caracterizava por ―sua disposição latitudinal, pois a oeste a penetração não ia além dos setenta quilômetros do seu vetor mais ativo, que era a bacia do Capibaribe‖ (MELLO, 2001, p. 12).

A razão para isso, segundo Capistrano de Abreu (1988, p. 50), estaria na falta de diversidade de produtos coloniais por parte dos produtores, que por se limitarem basicamente ao açúcar, ―não deviam se afastar muito do litoral marítimo, sob pena de, sendo um só o preço dos gêneros de exportação, não poderem competir com os fazendeiros mais vizinhos do mercado, cujo produto não se gravava com as despesas de

transporte‖. Somente com a pecuária extensiva, foi possível tornar as grandes extensões dos sertões aproveitáveis para a Coroa portuguesa.

No que concerne às razões econômicas dessa ocidentalização, é importante destacar que desde a invasão holandesa à capitania de Pernambuco em 1630, a produção de açúcar do norte do Brasil declinou consideravelmente, não tornando, em momento algum, a atingir produção de antanho. Por volta de 1637, quando cessa a guerra de conquista, a Holanda havia confiscado 66 engenhos abandonados pelos seus proprietários e tantos outros estavam em fogo morto. Para que se tenha uma ideia do impacto da guerra sobre a exportação do açúcar, durante o que Evaldo Cabral de Mello denominou de ante bellum, ou seja, o período anterior à conquista holandesa, a capitania de Pernambuco era a maior produtora deste gênero, respondendo por cerca de 60% de toda a produção colonial, ao passo que em 1654, quando da definitiva expulsão holandesa de Recife, esta razão caiu para 10% (MELLO, 1975).

Observando em duração relativamente longa, o historiador Stuart Schwartz pôde periodicizar o crescimento do número de engenhos e da venda do açúcar da seguinte forma: um rápido crescimento entre 1570 e 1585, seguido de uma desaceleração até 1612; desta data até 1630, houve crescimento menos intenso, mas agora impulsionado pelo incremento tecnológico do engenho de ―três paus‖, ou de ―palitos‖, que era uma moenda de três cilindros verticais capaz de exaurir ainda mais a cana, aumentando seu rendimento (SCHWARTZ, 1988, pp. 146-163).

Desde a invasão holandesa em 1630, a produção açucareira de Pernambuco, Itamaracá e Rio Grande tiveram baixas na produção. A guerra durara até 1637 e deixara inúmeros engenhos abandonados ou parcialmente destruídos. Muitos engenhos foram tomados – e no caso dos engenhos abandonados, simplesmente incorporados – pelos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais para, depois, serem vendidos a novos proprietários luso-brasileiros ou para holandeses e judeus. Alguns proprietários, porém, não fugiam antes de deixar os canaviais queimados e destruídas as fábricas. Mesmo no período de paz, entre 1637 e 1645, as melhores previsões de produção orbitavam em torno de 22.000 caixas de açúcar, muito aquém das 33.000 produzidas no ante bellum (MELLO, 2007, pp. 105-106).

Após a definitiva expulsão dos holandeses em 1654, a capitania de Pernambuco sofria com os efeitos da guerra, que durara quase uma década (1645-1654). Como observou Evaldo Cabral, as guerras holandesas foram ―guerras do açúcar‖, não somente pela acepção de

mais relevo, que é a disputa das fontes de produção e do comércio pelo atlântico, mas, acima de tudo, por ser uma guerra majoritariamente financiada pelos recursos advindos da atividade açucareira ou ―pelo sistema socioeconômico que se desenvolvera no Nordeste com o fim de produzi-lo e exportá-lo para o mercado europeu‖ (MELLO, 2007, p. 12). Significa dizer que o custo da guerra recaiu sobre a sociedade colonial latifundiária, monocultora e escravista ao invés da Coroa. Foram os impostos extraordinários cobrados pela Coroa a partir da deflagração da insurreição luso-brasileira de 1645 que garantiram as provisões e a ração das tropas.

A situação complicava-se ainda mais pela queda no preço do açúcar no mercado europeu, puxado para baixo pela produção antilhana. Com sua própria produção assegurada, França e Inglaterra diminuíram progressivamente o açúcar brasileiro do seu mercado e, entre 1650 e 1710, a quantidade de açúcar nos mercados europeus se reduziu em 40%. De acordo com Stuart Schwartz (1988, p.162), a concorrência do açúcar trouxe dois fatores negativos para os produtores luso-brasileiros em longo prazo. Primeiro, a produção antilhana aumentava a demanda pelo escravo africano, tornando-o mais caro e, por consequência, elevando o preço do açúcar, que a esta altura já dependia em certa medida do trato atlântico. Segundo, a concorrência acabava por diminuir a margem de agência dos produtores luso-brasileiros, que não mais viam nas táticas de estocagem ou suspensão da mercadoria uma solução plausível para a queda dos preços. A elite açucareira buscava, pois, diversificar os rendimentos através das fazendas de criar 19.

Por isso, o post bellum foi marcado por certo ressentimento por parte a elite luso brasileira dos núcleos açucareiros ao não verem realizadas algumas de suas expectativas para com o rei português, como o término, ou ao menos o progressivo declínio da tributação extraordinária cobrada para arcar com as despesas da guerra de reconquista. Isso não veio a ocorrer, pois, se em 1649, os impostos extraordinários correspondiam a 63% da receita, em 1663 ainda equivaliam a 57%. Além disso, o Conselho Ultramarino fixou em cem homens o efetivo das tropas pagas e dispensou os ―ricos da terra‖

19 O estudo de Jean Baptiste Nardi (1996, p. 92) permite perceber que já nas

últimas décadas do século XVII o gado deixava de ser um simples apêndice do negócio açucareiro e começava a ser introduzido no mercado atlântico, puxado, por exemplo, pelo negócio do tabaco, haja vista que o couro era largamente utilizado para embalar o fumo, correspondendo a cerca de 15% do valor final do rolo de fumo.

(MELLO, 2007, p. 172). De certo modo, estes se sentiam abandonados pela Coroa, que não reconhecia os serviços que haviam sido prestados.

Some-se a isso, a demora em resolver a quizila formada entre antigos e novos proprietários de engenho que não seria resolvida até 1669. Os primeiros acusavam os novos donos de traição por terem colaborado com a administração holandesa e eram apoiados pelo Desembargo do Paço, por exemplo; ao passo que os segundos, que financiaram a insurreição contra os batavos, retrucavam as acusações dizendo que a traição consistia em não permanecer na terra para lutar quando fosse oportuno, além de justificarem a fidelidade à Coroa portuguesa quando financiaram a guerra de reconquista, como consta no parecer do conde de Odemira, então presidente do Conselho Ultramarino (MELLO, 2007, pp 356-57). Nesta conjuntura, a situação da capitania era delicada e o equilíbrio de forças era instável. Cabe lembrar que até a assinatura do segundo tratado de Haia tanto as tropas pagas, quanto as ordenanças permaneciam em Pernambuco para assegurarem que não haveria uma retomada holandesa.

Por esse quadro de crise e instabilidade dos anos setenta do século XVII, Pedro Puntoni (2002, p. 192) explica que ―as propostas inicialmente encetadas pelos governadores para os conflitos passavam pela utilização das tropas regulares estacionadas nas fortalezas, ou ainda pela mobilização das milícias das ordenanças em esquadras volantes‖. Passados os primeiros anos da reconquista, e provada a eficácia dessa força militar, agora ela seria mandada para as capitanias anexas, a fim de expandir e dilatar as fronteiras.

No que concerne a sua organização, ela era composta por terços especiais criados durante as guerras holandesas (1630-1654), como o dos índios de Felipe Camarão e dos negros de Henrique Dias e seguia a estratégia militar da chamada ―guerra brasílica‖ ou ―guerra do Brasil‖. Adotada por Matias de Albuquerque Coelho durante a resistência (1630- 1636), a guerra brasílica possuía um ―sistema misto‖, no qual as forças regulares se concentravam

numa praça forte, o Arraial, guarnecida pela artilharia e pela tropa regular, com o emprego de contingentes irregulares que ocupavam a linha de estâncias ou postos avançados, que, sob a forma de meia lua, estendia-se de Olinda ao sul do Recife. Nos espaços intermediários, vagavam incessantemente essas companhias volantes, cujas emboscadas e assaltos visavam repelir as sortidas neerlandesas (MELLO, 2007, pp. 287-88).

Se por um lado, a guerra volante carecia de disciplina e treinamento militar da chamada guerra de Flandres, por outro, ela coadunava com as condições sociais e mesológicas do Estado do Brasil. Mesológicas, porque se adequava as condições ambientais tão diversas em relação à Europa. Mesológicas porque os sertanistas incorporaram muitas práticas indígenas da chamada ―guerra no mato‖, dentre as quais se destacava a dispensa da cavalaria e da infantaria em favor do combate individual, da dispersão dos soldados pelos matos quer da mata atlântica, quer da caatinga. Sociais porque conseguia mobilizar toda uma camada marginalizada da sociedade colonial, uma população livre e em idade produtiva que se concentrava nas vilas do açúcar, mestiços, índios.

Segundo Kalina Wanderlei da Silva,

O sertão das capitanias do norte, por sua vez, apesar da ausência de exploração econômica inicial, ou talvez por isso, torna-se lugar do desconhecido, do indefinido, mas também da transposição de mitos e imagens clássicas em um momento em que a área açucareira já não comporta esses mitos. Para a colônia açucareira, o el dorado não está no litoral, mas no sertão (SILVA, 2010, p. 214).

Enquanto estas imagens do El dorado alimentadas no imaginário dos habitantes do litoral, na qual o sertão estaria prenhe de prata e outros metais não se confirmava, a atividade criatória servia como a força motriz da economia do interior 20.

20 No caso do Ceará, a crença no potencial metalífero do seu solo possui antiga

e estendida narrativa. Durante cinco anos, de 1649 a 1654, os holandeses, a mando de Matias Beck, malograram na exploração da prata na Serra da Taquara, contígua à de Maranguape, coetaneamente, mais a oeste, na Serra da Ibiapaba, situação semelhante ocorria com Ricardo Caer. Quase um século depois, em 1743, esta mesma serra seria novamente perscrutada, agora por Antônio Gonçalves de Araújo, que alimentaria suas ambições argênteas até a sua morte. Em 1750, outro empreendimento foi levado a cabo, agora nas Minas de São José dos Cariris Novos, onde tentara-se sem sucesso a exploração aurífera. Passados mais um século, em 1859, a prospecção de metais valiosos ainda continuava sendo orientação indispensável para a Seção Geológica e Mineralógica da Comissão Científica de Exploração, chefiada por Guilherme

Nesse sentido, a efetiva conquista dos sertões pode ser entendida como uma solução para dissipar essas tensões vividas em Pernambuco do post bellum. Esta conquista ocorreu na cadência do passo do gado e por meio da guerra ao gentio dito tapuia ou ―bárbaro‖ em uma série de episódios descontínuos e tidos na documentação coeva como ―guerra dos bárbaros‖. Após os conflitos empreendidos nas ribeiras, as terras antes ocupadas por índios se tornavam ―desabitadas‖, podendo ser distribuídas aos próprios conquistadores ou para outros colonizadores das vilas do açúcar que seguiam na esteira dos conflitos.

Tendo o negócio do gado como vetor de ocupação, a colonização foi efetuada por uma região de ocupação mais antiga, sobretudo, por colonos e militares advindos de Salvador e Olinda, tornando os sertões um território submetido a duas áreas de influência, a metrópole e a região açucareira que o colonizara (SILVA, 2010, pp. 225-238). É importante destacar que a própria Capitania do Siará grande esteve anexada à Pernambuco até 1799.

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