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CAPÍTULO 7: “Nativos” e os “de fora”: sobre o movimento alternativo no Vale do

7.1 A Crise da Modernidade e a realidade do Vale do Capão

Em La Crisis del mundo moderno, René Guenon (2001), na primeira metade do século XX, desenvolve uma rica análise sobre o período moderno de então. O que marca a sua

idéia de Kali Yuga, que segundo a doutrina hindu significa Idade Sombria. Para as tradições da antiguidade ocidental, o Kali Yuga corresponde à Idade de Ferro24. Tratando- se de um último período, os tempos modernos, ainda que difíceis, indicam o final de um mundo antigo e o começo de um mundo novo que deve se sustentar em padrões completamente alternativos à realidade Ocidental.

A visão cíclica das doutrinas orientais indica que a idéia de progresso por que passa a modernidade representa na verdade um movimento descendente, onde o espírito passa a ser subordinado à matéria. O próprio desenvolvimento da ciência e da filosofia indica que desde a decomposição do feudalismo e da ascensão dos movimentos humanistas e renascentistas o Ocidente procurou romper cada vez mais com o espírito tradicional, negando o princípio de uma ordem superior e reduzindo todo o conhecimento à esfera do empírico, substituindo a verdade pela utilidade. Esta perda do sentido da tradição revela também o distanciamento que o Ocidente tomou dos princípios que servem de fundamento para a sua própria tradição.

As transformações modernas ocorridas são bem explicitadas nas concepções de Descartes, de onde se originou a filosofia moderna. A dualidade cartesiana separa espírito e matéria, atribuindo à matéria uma importância superior e negando ao espírito qualquer espaço dentro de um novo modo de vida extremamente pragmático. A autoridade superior não mais se associa a nenhuma entidade supra-humana e passa a se encontrar na própria razão individual. Estas mudanças ocorridas, segundo Guenon (2001), acirram o individualismo e produziram um grande desequilíbrio pela falta de princípios comuns, o que se evidencia nos inúmeros conflitos sociais ocorridos.

A idéia de crise da modernidade, foco de uma vasta literatura nos diferentes campos da filosofia, da história, da psicologia e das ciências sociais, remete a uma idéia de processo de transição onde transformações profundas acontecem. Para Guenon (2001), a crise aparece não apenas como expressão de que se chegou a um ponto crítico, onde é necessário um câmbio de orientação, mas, também como um momento de juízo e de discernimento. A

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própria idéia de fim do mundo, conforme o autor, que tanto acompanhou os contemporâneos do século XX, remete à mesma idéia da profunda transformação.

Se essa crise é um momento de transição para um novo ciclo ou uma nova era, será que esta nova era não é o que muitos já definem como pós-modernidade? Ou quem sabe, o que outros chamam, de Era de Aquário25? Contudo, se tal crise ainda não foi superada, teremos ainda que aceitar a condição de uma modernidade que agoniza no seu próprio processo de transição.

Autores como Giddens (1991), Bauman (2001) e Touraine (2002) afirmam a existência de uma modernidade que se divide em opostos, mas que deve ser compreendida em conjunto, uma vez que tais opostos compõem diferentes etapas de um mesmo período. Entre modernidade e pós-modernidade forma-se uma contemporaneidade absorta entre racionalidade e subjetivação. Mas como compreender os fenômenos sociais que se manifestam nesse presente que se faz ao mesmo tempo eterno e imediato? Como situá-los nas diferentes esferas que unem e distanciam local e global?

Em contraposição a uma modernidade secularizada que marcou a transição para a época moderna, agora se manifesta uma modernidade reflexiva, subjetiva e fluida onde as relações sociais se tornam mais superficiais e transitórias e as orientações firmes e sólidas de uma sociedade pré-industrial se decompõem. Desta forma, o tempo de uma vida individual insegura se inaugura e os laços sociais se enfraquecem na mesma medida em que enfraquecem as lealdades pessoais, entrando em crise a própria noção de comunidade, onde a união do que foi rompido parece não mais se suceder (BAUMAN, 2001).

Essa idéia de elo rompido, imerso em um mundo de incertezas, converge com a análise sócio-psicanalítica que Eric Fromm (2000) faz sobre as necessidades humanas. O ser humano, segundo o autor, é tirado de uma situação definida e é jogado em uma situação

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Interessante definição dada sobre a Era de Aquários em um trecho do filme musical Hair, escrito por James Rado e Gerome Ragni, nos anos 60, e que ganhou versão cinematográfica em 1979 pelo diretor checo Milos Forman: “Quando a lua no ponto aparecer e Júpiter a Marte chegar, a paz o mundo guiará e o amor há de brilhar. Há de nascer a Era de Aquários: harmonia e entendimento, simpatia e amizade nada mais de falsidade, sonhos vivos de esperança. Cristalina inspiração e total liberação”.

indefinida, incerta e aberta. Tanto a identidade-eu quanto a identidade-nós passa a se apresentar como esferas independentes, o que causa a ilusão aparente dos indivíduos se perceberem como seres separados do mundo, desamparados e incapazes. Esse estado de separação e solidão é fonte de uma ansiedade que passa a fazer parte da vida mental dos cidadãos modernos. Mas, como superar esse estado de separação e alcançar a união? Como transcender a vida individual e encontrar a conciliação?

Estes questionamentos reafirmam a idéia de que a contemporaneidade passa hoje por um período de crise que, longe de ser algo inédito, acompanha as grandes passagens de época da humanidade. Antigas estruturas decadentes vão gradativamente sendo substituídas por novas, tais como os padrões de pensamento e os paradigmas da ciência. Em meio a todo este tumulto, os fatos sociais ressoam como fleches que aos olhos da sociologia se configuram como campos sociais de intermitente conflito e negociação.

Procurar uma compreensão sociológica sobre a relação entre os “nativos” e os “de fora” significa situar esse micro-cosmo em meio a esse burburinho que faz ferver os debates contemporâneos sobre modernidade, crise e pós-modernidade. Pela perspectiva dos “de fora”, conforme relatamos no Capítulo 5, a transição do urbano para o rural longe de significar apenas uma mudança de contexto, expressa um movimento na direção de mudança de valores e a possibilidade de experienciar diferentes alternativas de vida. Pela perspectiva dos “nativos” as mudanças de hábito fazem parte de um processo de assimilação de um caldo de culturas a princípio bem diferentes, complexificando as teias de relações que articulam indivíduos entre si e entre grupos sociais. O fenômeno urbano adentra em uma realidade ainda rural fazendo surgir uma configuração fluida de articulação urbano-rural.