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A crise do capitalismo e o ajuste neoliberal

3. O AJUSTE NEOLIBERAL: UM PROJETO HEGEMÔNICO

3.1 A crise do capitalismo e o ajuste neoliberal

O ajuste neoliberal é um dos constituintes que surge pela necessidade de solucionar a crise do sistema capitalista mundial. Por ser uma categoria que faz parte de um todo, que busca componentes para a superação do fenômeno da crise do capital, entende-se que, para a sua compreensão, faz-se necessário partir de uma análise histórico-política do movimento que desencadeou a ascensão política ideológica neoliberal. Entende-se também que a sua construção histórica está relacionada com as crises do

sistema capitalista mundial, que tiveram momentos de “altos” e “baixos”, sobretudo,

no período compreendido entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

A partir da metade do século XIX e adentrando o século XX ocorreram transformações políticas, econômicas e sociais que desencadearam uma das maiores crises do sistema capitalista mundial. Diante desse quadro político, eclode a Primeira Guerra Mundial. E a Segunda Guerra foi gerada em conseqüência dessa crise, na tentativa de superá-la, no entanto o que houve foi a sua continuação e aprofundamento.

A Segunda Guerra Mundial provocou igualmente o fim da hegemonia mundial da Europa e a ascensão de duas superpotências, os EUA e a União Soviética, que seriam os protagonistas da cena internacional durante o período conhecido como Guerra Fria.

Após a Segunda Guerra Mundial, uma das formas encontrada para a superação da crise do sistema capitalista mundial foi a organização da Nova Ordem Econômica Internacional. E com seu esgotamento, o mundo passou a viver sob a divisão de dois sistemas econômicos antagônicos: o imperialista, liderado pelos EUA, e o socialista,

liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A partir daí, o mundo dividiu-se em dois grandes blocos: o chamado de comunista, sob a liderança da URSS, e o ocidental cristão, tendo à frente os EUA.

A crise gerada no sistema capitalista mundial pode ser considerada como um produto da contradição do capitalismo na sua era imperialista.

O imperialismo multiplicou essa contradição porque, ao mesmo tempo em que permitiu uma enorme socialização do processo produtivo em âmbito mundial – na medida em que logrou integrar a economia mundial capitalista num todo único, ainda que contraditório –, realizou a monopolização da propriedade nas mãos de um pequeno punhado de oligarcas financeiros dos países centrais, particularmente dos Estados Unidos. (SOUZA, 1995, p.28).

Com o objetivo de garantir a sua hegemonia, os EUA procuraram escamotear os conflitos latentes, que se desenvolviam em várias esferas da economia, tanto na sua, como na da Europa e do Japão. Para alcançar o seu intento, passou a polarizar com a URSS e com os demais países socialistas, colocando contra os mesmos os demais países do mundo. As crises vinham se sucedendo, como as que abarcaram toda a Europa, a da Grande Depressão6 ocorrida em 1929/30, as recessões generalizadas em 1974/75 e de 1980/83, que afetaram grande parte do mundo capitalista.

A história é demarcada por acontecimentos que apresentam rupturas, resultando em grandes impactos para a sociedade. Na história, os processos marcados por rupturas têm demonstrado avanços e retrocessos, os quais são apresentados por intervalos curtos e longos, alguns podendo durar séculos. A seguir, apresentam-se períodos que demarcaram acontecimentos históricos importantes.

Para alguns historiadores, segundo Fiori (1996), o período compreendido entre o final da Segunda Guerra Mundial e os anos de 1973 é considerado a era do ouro do capitalismo e da democracia, pois nos paises de primeiro mundo havia avanços do ponto de vista da igualdade social. Trata-se de um momento excepcional na história do capitalismo. Para esses historiadores, esse período pode ser denominado de era anti-neoliberal, se comparado com o atual neoliberalismo, pois avançaram ideologicamente

6 A Grande Depressão, também chamada por vezes de Crise de 1929, foi uma grande recessão econômica

que teve início em 1929, e que persistiu ao longo da década de 30, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. O período é considerado o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX, e que causou altas taxas de desemprego, quedas drásticas do produto interno bruto de diversos países, bem como quedas drásticas na produção industrial, preços de ações, e em praticamente todo medidor de atividade econômica, em diversos países no mundo.

os princípios da social democracia, aplicando os fundamentos econômicos pautados no modelo keynesiano7. Nesse período surge o Estado de Bem-Estar Social.

Para Fiori (1996), esse sucesso ocorrido, sobretudo entre os anos de 50 e 70, pode representar, no contexto atual, uma esperança de mudança para o futuro, que poderá ser denominado de período pós-neoliberal. Seguem alguns fatos, apresentados por ele, que representam o momento vivido pela social-democracia.

[...] houve uma espécie de grande consenso ideológico promovido pelo próprio efeito da guerra, da social-democracia e dos liberais keynesianos. [...] os liberais dessa época, reconheceram a necessidade e a indispensabilidade de um papel ativo do estado, nos países centrais, no controle das crises econômicas, e nos países periféricos, no comando do desenvolvimento.

[...] esta época esteve assentada em um implícito, explícito e, rigorosamente, antiliberal; entre o capital, o trabalho e o estado, que se chamou, na época, de neocorporativismo.

[...] esse pacto, esse grande acordo, foi possível graças, sem dúvida nenhuma, à existência de uma ordem mundial, política, ideológica, que é bipolar, conflitiva e, ao mesmo tempo, de uma ordem econômica, do lado ocidental, do outro lado capitalista, perfeitamente regulada pelos acordos de Bretton Woods, e, perfeitamente, conduzida pelo comportamento hegemônico dos EUA, que, durante esse tempo, por generosidade ou por interesse, pensou os interesses dos outros seus pares antes de pensar os seus próprios. (FIORI, 1996, p.7).

Esse foi um período em que se constituiu um sistema de proteção social e solidariedade republicana mais sofisticada da história da humanidade. Nesse período, os sistemas democráticos funcionavam com a participação maciça da população, intermediada pelos partidos e sindicatos. Foi um período em que houve aumento da produtividade, do pleno emprego e do crescimento da renda per capita.

Os anos compreendidos entre 1968 e 1973, para Fiori (1996), representam um período de ruptura histórica, pois, nele ocorreu um conjunto de fatos, nos planos ideológicos, militar e econômico, em que se confirma uma ruptura na história contemporânea. A exemplo do ano de 1968, em que ocorreu a revolução de maio dos estudantes e dos sindicatos, em Paris, e o fim do padrão dólar.

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Modelo econômico elaborado por John Maynard Keynes, considerado o criador da Macroeconomia e um dos mais influentes economistas do século XX, serviu de fundamento para o Estado de Bem-Estar Social, que perseguia dois objetivos essenciais: a garantia do bom funcionamento do mercado segundo o pensamento de Adam Smith e a defesa dos direitos dos cidadãos na saúde, educação e alimentação. Uma das idéias fundamentais desse pensamento é a igualdade de oportunidades. Ao longo do tempo vão-se desenvolver políticas públicas, aumentando o orçamento do Estado para essas áreas.

Com o desencadeamento de fatos ocorridos nesse período, pode-se afirmar que houve a desaceleração da economia mundial e, a partir daí, o mundo foi permeado de recessões generalizadas. Em 1971, os EUA, ao decretarem o fim da paridade e da livre conversibilidade do dólar, trouxera a tona uma crise da economia norte-americana.

Em 1973, o mundo central, no qual estavam incluídos os países mais ricos do planeta, entra em crise, perde suas referências anteriores e passa por uma longa transição na história política, econômica, cultural e social do mundo contemporâneo.

Segundo Fiori (1996), em três anos (1973/1974/1975) rompe-se o pacto do capital com o trabalho, colocando em dúvida a hegemonia militar norte-americana e, conseqüentemente, a quebra da hegemonia econômica e do dólar norte-americano. Alguns fatos demonstram a consolidação da grande crise do sistema capitalista mundial. Entre eles destacam-se:

[...] as revoluções políticas e sindicais européias, isto é, a rebelião dos sindicatos - fim do pacto.

[...] a derrota americana no Vietnã e de Israel, parcial, na guerra do Ion Quipur e, como conseqüência, a formação da OPEP e a chantagem em torno do preço do petróleo, isto é, o questionamento da hegemonia norte- americana.

[...] no plano econômico, o choque do preço do petróleo e o fim da paridade ouro/dólar, isto é, o fim do Bretton Woods, o fim do acordo pós 2ª guerra mundial. (FIORI, 1996, p.7).

Nesse período, início dos anos 70, a crise provocou uma recessão generalizada atingindo as economias mais desenvolvidas. Os países capitalistas mergulharam em uma profunda recessão, acompanhada de baixo crescimento econômico, o que se denomina

‘estagflação’, a qual na década de oitenta, provoca a estagnação das economias do Terceiro

Mundo, invadindo posteriormente os países socialistas. Nesse contexto, considera-se a virada da década de oitenta para a década de noventa como o ápice do pior momento da crise do sistema capitalista mundial.

Posteriormente, a crise da economia global se alastra por todas as partes do mundo, atingindo os paises capitalistas desenvolvidos, aqueles que integravam o bloco socialista e os de Terceiro Mundo. Essas crises não podem ser consideradas como as crises cíclicas da economia capitalista, ocorridas em séculos passados. São crises profundas e duradouras que vêm atingindo os alicerces da economia mundial até os dias atuais, e as conseqüências dessas crises têm trazido prejuízos incalculáveis para a maioria da população do globo.

O que ocorreu, na realidade, foram conflitos entre as grandes potências capitalistas, principalmente entre os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha. Os blocos econômicos liderados por esses países aumentaram o protecionismo dos seus governos, desenvolvendo-lhes dessa forma, competição e a busca de hegemonia pelo poder e pela liderança no cenário mundial. Para enfrentar uma das maiores crises econômicas do

mundo moderno, o caminho encontrado pelos “três grandes” não se deu através da

integração mundial do mercado, mas o que aconteceu realmente foi uma nova redivisão do mundo sob o controle dos grandes monopólios e de seus Estados imperialistas.

O grande insucesso da economia capitalista se deu, sobretudo, quando esta se definiu como economia mundial. O novo sistema econômico não encontrou instrumentos de intervenção econômica de forma global e políticas econômicas no âmbito mundial que pudessem barrar ou encontrar formas de superação para a crise da economia mundial. Dessa forma, observa-se que o capitalismo apesar de ter uma tendência para internacionalização da economia, na realidade não conseguiu avançar para a formação de uma economia global e sem fronteiras.

O que aconteceu realmente foi a formação dos trustes e cartéis, que monopolizam cada vez mais os meios de produção, as fontes de matérias primas, as tecnologias e os mercados, esmagando as nações mais frágeis e passando a criar as zonas de influência sob a liderança das oligarquias financeiras dos países dominantes. Esse processo leva à perda da autonomia dos Estados Nacionais, diminuindo o espaço e a eficácia das políticas econômicas e a precarização das políticas sociais.

A crise do capitalismo mundial considera-se, portanto, como uma crise da economia que atinge o mundo em todos seus aspectos: o econômico, o político, o social e o cultural, daí ser chamada de crise global. Contraditoriamente, a mencionada crise não afeta todos os setores da sociedade por igual. Por exemplo, um setor que fica fora da crise é o bancário. Os bancos, nesse período, apresentam lucros exorbitantes, os banqueiros e grupos empresariais vão saqueando o Estado, sobretudo através da dívida pública e da especulação financeira.

Sua participação na renda mundial aumentou de 1,5% em 1965 para 29,4% no final da década de oitenta. Segundo a ONU, em seu documento Agenda 91, preparatório para a Rio-92, existem hoje no mundo 157 bilionários (com fortunas medidas em dólar), ao lado de 1,5 bilhão de pessoas vivendo num nível abaixo do limite de pobreza. (SOUZA, 1995, p.27).

Diante desse quadro de crises generalizadas no sistema capitalista, os países hegemônicos no cenário mundial passam a investir pesadamente na construção de políticas que as superem. Os ideólogos do capitalismo se empenharam em encontrar saídas que evidentemente preservassem os lucros das grandes companhias multinacionais.

Com a intenção de encontrar solução para a crise global, advinda do modelo social de acumulação, os interessados e defensores do sistema capitalista buscaram um novo modelo que pudesse substituir o anterior. Esse novo modelo encontrado para a superação da crise do sistema capitalista mundial foi sendo construído e fundamentado nas idéias denominadas de neoliberais. De acordo com Anderson (1995),

Quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as idéias neoliberais passaram a ganhar terreno. (ANDERSON, 1995, p.10).

Nesse sentido, foram retomadas as idéias econômicas e políticas fundamentadas na concepção do liberalismo do século XVIII, as quais passam a fazer parte do novo modelo neoliberal do século XX. O novo ideal neoliberal continha as mesmas idéias do liberalismo clássico do século passado, com novas roupagens ou adaptações aos desafios atuais.

As idéias centrais do liberalismo e da corrente de pensamento neoliberal são idênticas em vários aspectos, entre elas, destaca-se: a despolitização da economia; a desregulação dos mercados; o estado mínimo; e a defesa de igualdade para todos, igualdade que não passa de discurso vazio.

Para a implantação desse novo ideário, denominado de neoliberal, os defensores do capitalismo foram buscar os fundamentos dessa ideologia nos princípios firmados na Societé du Mont-Pèlerin. O grande mentor da referida corrente de pensamento foi o economista austríaco, Friedrich August Von Hayek, autor de O Caminho da Servidão8. A obra é considerada como o estatuto fundador do neoliberalismo e faz uma crítica severa ao Estado de Bem-Estar Social (wellfare state).

8 O caminho da servidão (Road to Serfdom), best-seller publicado em 1944, em que o autor combate os

movimentos políticos (da esquerda e direita) que então se expandiam na Europa continental, e que foi dedicada a seus "amigos socialistas de todos os partidos". Hayek defendia a tese de que a tendência de substituir-se a ordem espontânea e infinitamente complexa de mercado por uma ordem deliberadamente criada pelo engenho humano e administrada por um sistema de planejamento central acabava resultando no empobrecimento e na servidão.

Em abril de 1947, F. A. Von Hayek convoca companheiros que compartilham com ele da mesma orientação ideológica e reúnem-se numa pequena estação de veraneio na Suíça, no Mont-Pèlerin. Entre os vários participantes desta grande reunião, encontram-se adversários do Estado Social na Europa, como também, inimigos ferozes do New Deal9 americano. Ao final desse evento foi fundada a Societé du Mont-Pèlerin, considerada como uma espécie de franco-maçonaria neoliberal, a qual passa a ter reuniões internacionais regulares, organizadas e dedicadas à divulgação das teses neoliberais.

A partir das idéias preconizadas por F.A. Von Hayek e seus companheiros, começam a se desenvolver os fundamentos do neoliberalismo. Esse grupo de intelectuais tinha posições contrárias ao modelo econômico keynesiano e à social democracia, concepções dominantes na época. Anderson (2002) afirma que eles acusavam as organizações dos trabalhadores, os sindicatos e o movimento operário, como sendo responsáveis pela crise, em razão de suas reivindicações salariais e pressões, aumentando

as despesas “parasitárias” do Estado. Segundo este ideário, o movimento de trabalhadores

deveria ser barrado para preservar a economia de mercado e os lucros das grandes empresas, ameaçados pelas altas dos preços, decorrentes das reivindicações operárias.

A solução para este “estado de coisas”, para esses ideólogos era clara: utilizar a

força do Estado para fazer diminuir a influência dos sindicatos, bem como controlar a evolução da massa monetária (política monetarista).

A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas. (ANDERSON, 1995, p.11).

De acordo com Anderson (2002), o neoliberalismo nasceu após a Segunda Guerra Mundial e foi implementado, inicialmente, na Europa Ocidental, na América do Norte e posteriormente nos países de Terceiro Mundo. É definido por ele como uma corrente

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O New Deal (cuja tradução literal em português seria "novo acordo" ou "novo trato") foi o nome dado à série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do Presidente Franklin Delano Roosevel, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, e assistir aos prejudicados pela Grande Depressão. O nome dessa série de programas foi inspirado no Square Deal, nome dado pelo anterior Presidente Theodore Roosevelt à sua política econômica.

teórica e política que expressa uma reação veemente contra o intervencionismo estatal e o Estado de Bem-Estar Social. Para Anderson “o principal objetivo do neoliberalismo: era combater o keinesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de outro tipo de

capitalismo, duro e livre de regras para o futuro” (ANDERSON, 1995, p.10).

O neoliberalismo tinha como principal meta a estabilidade monetária, o combate às taxas inflacionárias, e, ideologicamente, retomou o debate anticomunista surgido no contexto político-ideológico da Guerra-Fria.

A doutrina neoliberal foi objeto de estudo por parte de inúmeros estudiosos, que tentaram entender as suas origens e repercussão, bem como o seu conteúdo, e os interesses de classe que se escondem por trás de sua pretensa universalidade e irreversibilidade. Um dos conceitos que parece mais preciso é o apresentado por Perry Anderson, com as

seguintes palavras: “trata-se de um corpo de doutrina coerente, autoconsciente, militante,

lucidamente decidido a transformar todo o mundo à sua imagem, em sua ambição

estrutural e sua extensão internacional” (ANDERSON, 1995, p.11).

Outro autor cujo comentário a respeito do que seja o neoliberalismo merece ser transcrito é o de Sodré (1996), o qual diz o seguinte:

O neoliberalismo não passa de uma farsa, o disfarce com que se apresenta

uma forma de política que pretende, justamente, ‘o fim da história’, isto

é, os ricos ficarão mais ricos, os pobres ficarão mais pobres, e tudo será como no país das maravilhas. A realidade não importa, a característica nacional não importa, os interesses do povo não importam. Idéias arroladas como obsoletas, não por serem antigas, mas por se oporem a esta visão simplista e unilateral da realidade, - a idéia de nação, a idéia de soberania, a idéia de pátria – são esquecidas ou negadas, como se não existissem. Mas o fato é que elas existem, traduzem relações sociais e estão longe de funcionarem como técnicas, quando o receituário dita as regras. Regras e receituários que obedecem a interesses muito poderosos. (SODRÉ, 1996, p.26).

Ao analisar o percurso histórico do neoliberalismo, observa-se que, nos anos 60 e 70, o pensamento neoliberal vai consolidando sua hegemonia teórica, assume um formato mais científico, sobretudo através dos estudos realizados e defendidos nos espaços das universidades norte-americanas. Essa foi uma época em que os estudiosos das idéias neoliberais ganharam vários prêmios Nobel, a exemplo de Milton Friedman, principal expoente da Escola de Chicago. O seu livro Free to Choose (Liberdade de Escolher), publicado no início dos anos oitenta, tinha vendido rapidamente, nos Estados Unidos, mais de 400.000 exemplares em sua edição de luxo e várias centenas de milhares em sua edição popular.

Obviamente, a penetração social desses discursos não foi produto do acaso nem apenas uma questão decorrente dos méritos intelectuais daqueles obstinados professores universitários. Será no contexto da intensa e progressiva crise estrutural do regime de acumulação fordista que a retórica neoliberal ganhará espaço político e também, é claro, densidade ideológica. Tal contexto oferecerá a oportunidade necessária para que se produza esta confluência histórica entre um pensamento vigoroso no plano filosófico e econômico (embora, até então, de escasso impacto tanto acadêmico quanto social) e a necessidade política do bloco dominante de fazer frente ao desmoronamento da fórmula keynesiana cristalizada nos Estados de Bem-estar. A intersecção de ambas as dinâmicas permite compreender a força hegemônica do neoliberalismo. (GENTILI, 2004, p.2).

A partir dos anos 70, com a consolidação da hegemonia da teoria neoliberal, o mundo passa por múltiplos impactos, tanto do ponto de vista das políticas econômicas como das políticas sociais. No final dos anos 70, para o início dos anos 80, ocorreu a mais violenta onda conservadora neoliberal.

O neoliberalismo passou a ter alcance mundial em 1979, na Inglaterra, com a vitória de Margaret Thatcher, que se empenhou em colocar em prática a proposta