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O progresso tecnológico (iniciado no período da revolução industrial nos séculos XVIII e XIX) com baixa consciência levou o homem a uma quase completa desconexão com a Natureza e com sua própria essência, enquanto parte da mesma;

como integrante da grande rede da vida. Desse modo, nos últimos séculos o desenvolvimento das cidades, sociedades, modo de vida, etc, levou o ser humano a se relacionar e tratar o meio ambiente como algo a ser dominado, como fonte de recursos para diversos fins. Esta condição de “elo partido” se aprofunda cada vez mais em muitas cidades contemporâneas, onde estas ainda não são pensadas como “sistemas socioecológicos” (HERZOG, 2013, p.26), a questão ecológica ainda é tratada de modo superficial ou se encontra em processo lento de incorporação, seja à consciência e ação cidadã ou às práticas e planos governamentais. Tal condição se manifesta também em locais rurais ou mais isolados, onde o saber popular e as práticas de culturas tradicionais continuam a ser enfraquecidas e dissolvidas por interferências diversas advindas do modo de produção social vigente – o sistema capitalista.

Segundo Viveret (2012), o sistema capitalista produz um crescimento baseado na destruição, grande parte do crescimento econômico dos países está ligada a reparações de problemas que na verdade são gerados pelo próprio sistema, enquanto as “verdadeiras riquezas” não são contabilizadas em seus PIB’s (Produto Interno Bruto), sendo estas os ganhos que vão muito além das questões monetárias refletidas por tais indicadores econômicos. “As catástrofes naturais, os acidentes, as crises geram fluxos monetários de indenizações, de reparações, de substituição, que são contabilizados positivamente em nossos sistemas de contabilidade.” (VIVERET, 2012, p.22). Ou seja, a limitação cada vez maior dos recursos naturais diante do processo de uso predatório e o agravamento dos problemas ambientais surgem como consequência da busca de um crescimento e desenvolvimento que na verdade é ilusório, muito determinado pelo acumulo de capital, que não produz bem estar social, de modo que para Viveret (2012) é necessário reconsiderar o que se entende por riquezas.

Neste cenário então se encontra a crise global atual, ou a “crise planetária multidimensional” (NUNES; MALTCHEFF, 2014, p. 17), que se espalhou por todos os setores da sociedade capitalista, tendo seus reflexos mais gritantes nos problemas ambientais. A crise atual “precisa ser entendida como sistêmica, pois é muito importante não isolar crise financeira da crise ecológica, da crise social e mesmo de seus aspectos geopolíticos e civilizacionais.” (VIVERET, 2012, p. 12).

Esta crise sistêmica é causada por uma crise ainda mais grave: a crise de percepção. A crise de percepção (NUNES; MALTCHEFF, 2014, p. 17) relaciona-se com a crise de crenças, que por sua vez ocasiona a crise de soluções (VIVERET, 2012).

Se a única resposta que tem sido dada a essa crise está dentro de uma lógica de intervenção apenas na situação financeira e econômica, desconectada de todos os outros aspectos, esquece-se da crise ecológica existente, evidentemente, de forma simultânea.

(VIVERET, 2012, p.13).

Para superação desse quadro é preciso aceitação dos limites, foco na busca por uma qualidade de vida real e estabelecimento do diálogo entre as civilizações para construção de soluções coletivas (VIVERET, 2012). É necessário o fim do crescimento imediatamente, considerando este regido pela lógica exclusiva da reprodução e do acumulo de capital. O cenário atual exige urgentemente uma

“desglobalização” e “relocalização”, de modo que ocorra um incentivo às iniciativas locais de cada país em todos os setores da sociedade – social, econômico, cultural (COSTA; LATOUCHE apud KEMPF, 2012). Assim, para que mudanças efetivas passem a ocorrer, torna-se necessário:

reavaliar a sobriedade, conceituar as ideias de riqueza e pobreza, reestruturar o setor produtivo, redistribuir o poder e a riqueza entre o Norte e o Sul, relocar a produção, dar uma posição territorial à política, reduzir o consumo e o desperdício, reutilizar os objetos e recliclar ao invés de jogar fora. (KEMPF, 2012, p. 117).

Diante deste estado crítico, muitos estudiosos de diversos campos do conhecimento propõe como alternativa uma mudança do paradigma cartesiano-mecanicista para o paradigma ecológico (sustentável). A necessidade de construir um mundo mais justo, democrático, cooperativo e sustentável exige, politicamente, outro tipo de paradigma. Porém, também a ciência, em diferentes abordagens, questiona firmemente a validade do paradigma cartesiano-mecanicista instaurado por

Descartes (1596-1650) e Newton (1643-1727), determinante para os avanços do conhecimento ao longo dos séculos e desenvolvimento do capitalismo. Através deste paradigma a sociedade segue então uma lógica de competição; as mulheres ainda permanecem em posição inferior aos homens; o corpo humano é entendido como uma máquina; a ideia de progresso relaciona-se ao domínio tecnológico sobre os recursos da Natureza; dentre outros fatores que formam um arquétipo de crenças ainda vigentes na sociedade atual (CAPRA, 1996). Assim, com o novo paradigma se propõe valorizar as conquistas da humanidade até a atualidade e passar a

“caminhar na lógica do pensamento complexo, transdisciplinar, no qual tudo é interdependente, os contrários não se excluem necessariamente e um grau de incerteza precisa ser incorporado ao entendimento do mundo.” (NUNES;

MALTCHEFF, 2014, p.14).

Desde o início do século XX, alguns ramos da física, da biologia, da psicologia, da filosofia, da sociologia etc. identificam as fragilidades do paradigma anterior (cartesiano) para explicar e viver o mundo, com seus excessos de racionalidade, especificidade e reducionismo, apontando novos caminhos. Propõe então um paradigma emergente, com diferentes denominações: quântico, holístico, sistêmico, complexo, orgânico ou ecológico. A física quântica, nascida no século XX surge como uma das bases para a mudança de paradigma do século XXI. Esse novo paradigma favorece a interdependência, a intuição e a síntese, a cooperação, a qualidade, a conservação dos recursos e o poder compartilhado.

Uma abordagem ética não antropocêntrica ainda está interessada na sobrevivência dos seres humanos, mas coloca esse desejo em um cenário mais amplo de limites e possibilidades: somente dentro de uma visão de mundo mais ampla é possível planejar o futuro de nosso planeta. A ética não antropocêntrica, no entanto, não abandona a humanidade a sua própria sorte, mas simplesmente a coloca no centro de um novo discurso, no qual a humanidade não permanece sozinha no pedestal da vida. (BOERI, 2008, p.45 apud HERZOG, 2013, p.73).

O novo paradigma propicia novas formas de pensar, novos valores e novas práticas, que podem ser observadas e experimentadas em iniciativas como ecovilas.

Atualmente é possível identificar cada vez mais iniciativas que surgem como

“práticas do futuro emergente”, realizadas por cidadãos em busca de transformação.

“Os novos coletivos cidadãos são aqueles que tentam funcionar de modo coerente

com seus ideais e nos quais as práticas cotidianas tentam encarnar – mesmo que de modo modesto – aquilo que idealizam para o mundo.” (NUNES; MALTCHEFF, 2014, p. 43). Estas novas práticas estão fundamentadas segundo essa nova lógica de pensar e criar a realidade: experiências de economia solidária (com seu comércio justo, suas finanças solidárias, suas moedas sociais, sua produção cooperada), assim como experiências de alianças cidadãs de todos os gêneros, vivências de moradores em ecobairros e de cidades em transição, o exemplo do Fórum Social Mundial, de softwares livres e grupos cooperativos de todo tipo. É nesse contexto dos “novos coletivos cidadãos” (NUNES; MALTCHEFF, 2014), que se buscou discutir o tema das ecovilas.