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A cultura da Internet

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Capítulo I- Comunicação e cibercultura do século

3. Algumas das principais redes sociais:

4.1. O que mudou com a Web 2.0

4.1.1. A cultura da Internet

A cultura da Internet é caracterizada por uma estrutura dividida em quatro camadas: a cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura comunitária virtual e a cultura empresarial. Juntas, elas contribuem para uma ideologia de liberdade, que é amplamente disseminada pela Internet (CASTELLS, 2003, p. 34).

A cultura tecnomeritocrática especifica-se como uma cultura hacker ao incorporar normas e costumes a redes de cooperação voltadas para projetos tecnológicos. Essa cultura prega a “abertura”, ou seja, a distribuição aberta dos códigos-fonte, que permite a qualquer pessoa modificar o código e desenvolver novos programas e aplicações, numa espiral ascendente de inovação tecnológica, baseada na cooperação e na livre circulação do conhecimento técnico. Aqui existe a crença no bem inerente ao desenvolvimento científico e tecnológico como elemento decisivo no progresso da humanidade. Dentro deste pensamento, o mérito resulta da contribuição para o avanço de um sistema tecnológico, que proporciona um bem comum para a comunidade de seus descobridores. Valores acadêmicos padrão especificaram-se num projeto orientado para a missão de construir e desenvolver um sistema de comunicação eletrônico global que una computadores e pessoas numa relação simbiótica e que cresça exponencialmente por comunicação interativa. A pedra angular de todo o processo é a comunicação aberta do software, assim como todos os aperfeiçoamentos resultantes da colaboração em rede (idem, p.35-37).

Em relação à cultura hacker, é necessário um conceito mais específico de “hacker” para identificar os atores na transição de um ambiente de inovação acadêmica, institucionalmente construído, para o surgimento de redes auto-organizadas que escapam a um controle organizacional. A cultura hacker diz respeito ao conjunto de valores e crenças que emergiu das redes de programadores de computador que interagiam on-line em torno de sua colaboração em projetos autonomamente definidos de programação criativa (LEVY, apud CASTELLS, 2003, p.38).

Enquanto a cultura hacker forneceu os fundamentos tecnológicos da Internet, a cultura comunitária moldou suas formas sociais, processos e usos. Esta cultura possui duas características fundamentais: valorização da comunicação livre, horizontal e a formação autônoma de redes. No primeiro caso, Castells (2003, p.48) refere-se à prática da livre expressão global, numa era dominada por conglomerados de mídia e burocratas governamentais censores: “Essa liberdade de expressão de muitos para muitos foi

compartilhada por usuários da Net desde os primeiros estágios da comuniação on-line, e tornou-se um dos valores que se estendem por toda a Internet”.

Sobre o segundo valor compartilhado que surge das comunidades virtuais, é o que o autor chama de formação autônoma das redes, isto é, a possibilidade dada a qualquer pessoa de encontrar sua própria destinação na net, e, não a encontrando, de criar e divulgar sua própria informação, induzindo a formação de uma rede.

Desde os BBs5 primitivos da década de 1980 aos mais sofisticados sistemas interativos da virada do século, a publicação autônoma, a auto-organização e a autopublicação, bem como a formação autônoma de redes constitui um padrão de comportamento que permeia a Internet e se difunde a partir dela para todo o domínio social. Assim, embora extremamente diversa em seu conteúdo, a fonte comunitária da Internet a caracteriza de fato como um meio tecnológico para a comunicação horizontal e uma nova forma de livre expressão (CASTELLS, 2003, p.49).

Por fim, em relação à cultura empresarial, Castells (idem) afirma que a difusão da Internet a partir de círculos fechados de tecnólogos e pessoas organizadas em comunidades para a sociedade em geral foi levada a cabo por empresários. Só aconteceu na década de 1990 e de forma muito rápida. Para o autor, a Internet transformou as empresas, e estas transformaram a Internet. Afinal, a Internet foi o meio indispensável e a força propulsora na formação da nova economia, erigida em torno de normas e processos novos de produção, administração e cálculo econômico. Sem a ação desses empresários, orientados por um conjunto específico de valores, não teria havido nenhuma nova economia, e a Internet teria se difundido num ritmo muito mais lento e com um elenco diferente de aplicações. As empresas do Vale do Silício ganharam dinheiro com ideias, numa época em que a falta de novas ideias levava empresas estabelecidas a perdas financeiras. Desta forma, foi a inovação empresarial, e não o capital, a força propulsora da economia da Internet. “O fundamento dessa cultura empresarial é a capacidade de transformar know-how tecnológico e visão comercial em valor financeiro, depois embolsar parte desse valor para tornar a visão [em] realidade” (idem, p. 51).

É na articulação dessas quatro camadas de cultura que a cultura da Internet foi moldada. No topo da estrutura está a cultura tecnomeritocrática da excelência científica e tecnológica,

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Um bulletin board system (BBS) é um software que permite a conexão, via telefone, de um computador a outro, e a interação entre ambas as máquinas (WIKIPEDIA, 2011, on-line).

que “advém essencialmente da big science e do mundo acadêmico”. A cultura hacker especificou a meritocracia ao fortalecer os limites internos da comunidade dos tecnologicamente iniciados e torná-la independente dos poderes existentes. “Para os hackers, a liberdade é um valor fundamental, particularmente a liberdade de acesso à sua tecnologia e de usá-la como bem entendem” (idem, p.53).

A apropriação da capacidade de interconexão por redes sociais de todos os tipos levou à formação de comunidades on-line que reinventaram a sociedade e, nesse processo, expandiram espetacularmente a interconexão de computadores, em seu alcance e usos.

Elas (as comunidades virtuais) adotaram os valores tecnológicos da meritocracia, e esposaram a crença dos hackers no valor da liberdade, da comunicação horizontal e da interconexão interativa, mas usaram-na para sua vida social, em vez de praticar a tecnologia pela tecnologia.

Por fim, os empresários da Internet descobriram um novo planeta, povoado por inovações tecnológicas extraordinárias, novas formas de vida social e indivíduos autônomos, cuja capacidade tecnológica lhes dava substancial poder de barganha vis-à-vis regras e instituições sociais dominantes. Deram um passo adiante. Assim, a cultura empresarial orientada para o dinheiro partiu para a conquista do mundo e, nesse processo, fez da Internet a espinha dorsal de nossas vidas.

A cultura da Internet é uma cultura feita de uma crença tecnocrática no progresso dos seres humanos através da tecnologia, levado a cabo por comunidades de hackers que prosperam na criatividade tecnológica livre e aberta, incrustrada em redes virtuais que pretendem reinventar a sociedade, e materializada por empresários movidos a dinheiro nas engrenagens da nova economia (CASTELLS, 2003, p.53).

Assim uma das características da Internet desde a sua origem é a capacidade auto- reguladora da comunicação, a idéia de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem a própria voz e espera uma resposta individualizada (Castells, 2001, p.381).

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