II – Os retalhos da colcha
II. 3.3 – A cultura da mídia para os jovens congadeiros
Para visualizarmos melhor o uso dos meios de comunicação pelos congadeiros,
citaremos alguns dados compilados a partir da visita que fizemos a dezesseis jovens, em maio
de 2011. Vimos que 81% dos jovens possuem computador em casa e 50% possuem internet.
principais atividades de lazer. Todos possuem televisão e 56% dos jovens consideram-na
importante fonte de entretenimento em seu dia-a-dia. O rádio foi citado apenas por Gustavo
como outra mídia presente em seu cotidiano. Como podemos perceber, a televisão ainda é o
meio de comunicação mais presente, e, apesar da internet ser atividade principal para poucos,
seu acesso já é possível por boa parte deles e a isso se deve também a presença de uma ONG
no bairro, onde podem usá-la.
Gustavo, assim como outros como Sérgio e Beto, fazem uso principalmente de jogos
pela internet, além de redes sociais, como o Orkut. A maior parte deles dedicam seu tempo na
rede, para as redes sociais e bate-papos. Gustavo afirma existirem muitas opções na internet,
como vídeos educativos. Essa fala acabou sendo motivo de risada, inclusive do próprio
jovem, reação suficiente para esclarecer que esse é um uso pouco comum entre eles, apesar de
saberem que é possível. No encontro de julho de 2011, comentaram sobre alguns vídeos
caseiros, de que gostavam, que estavam circulando mais no site YouTube30, naquele momento,
e que chegaram a ser mostrados na TV aberta, também.
Mesmo tendo conhecimento do site, e sabendo que podem compartilhar vídeos, nunca
chegaram a postar nenhuma produção suas e nem chegaram a ter vontade de fazer algo
parecido. Apenas Túlio comentou que “Um dia vou colocar pra ficar famoso também. Tem
gente que põe umas bobeiras e fica famoso...”. Também não possuem blog, ou outro espaço
na internet de produção de conteúdos, e não sinalizaram vontade de criarem um, nem mesmo
quando perguntei sobre o congado.
Para Sérgio, a internet trouxe coisas boas e ruins, e sua fala mostra um posicionamento
crítico e também capacidade de ponderação, de entender a importância de algumas
facilidades.
30 YouTube é um site que permite que seus usuários carreguem e compartilhem vídeos em formato digital.
Quem fica na internet o dia inteiro em casa, não participa de negócio assim social que tem na comunidade. Mas internet ajuda a ter mais crescimento, uai. (...) a gente já sabe melhor como é que tem que fazer. A internet ajuda, te dá instrução, como faz direitinho (Sérgio, em julho de 2011).
Entretanto, percebemos também que há uma compreensão mais instrumental não
apenas da internet, mas de outros meios de comunicação, como a televisão, mais presente em
suas vidas. Os jovens também identificam os meios de comunicação, principalmente a
internet, como espaço privilegiado das tecnologias, e esperam que sejam criados televisores
maiores, jogos ainda mais interessantes etc., o que também confere à tecnologia um uso mais
funcional e instrumental. Essa se mostra uma questão central na relação dos jovens com os
meios de comunicação que nos convoca a pensar formas de potencializar as possibilidades
criativas inerentes a esse encontro dos congadeiros com as mídias. É interessante
visualizarmos, a partir do questionário, que todos gostam quando o congado aparece na
televisão, seja o grupo deles seja outro grupo, porque acreditam que ajuda a divulgar o
trabalho, mas não consideram a possibilidade deles mesmos produzirem conteúdos acerca do
tema.
Ao serem questionados sobre se achavam os meios de comunicação importantes para a
sociedade, comentaram sobre diferentes âmbitos de sua presença no nosso cotidiano: “Pra manter o povo ligado nas coisas que tão acontecendo em torno delas”; “Novela pra distrair um
pouco... Sessão da tarde...”; “Comunicar pro povo que tem coisa boa na Igreja”. Perguntei de
quem são os meios de comunicação e a resposta foi a mesma que obtive de todos os outros jovens a quem já fiz essa pergunta. “A globo é do Roberto Marinho, o SBT é do Sílvio
Santos...” E apesar de entenderem os meios de comunicação enquanto propriedades, não
consideram que haja a dimensão do poder nos mesmos.
Tem poder não! Por exemplo, tem os negócio lá. Aí cê assiste o que cê quer, aí cê assiste alguma coisa errada, aí em vez da TV falar assim: você não pode assistir, é menor de dezoito anos. Eles num fala nada... (Douglas, em setembro de 2011).
Douglas traz um sentido um pouco diferente do que esperávamos para o termo, ao se
referir à possibilidade de uma intervenção mais direta no consumo da cultura da mídia. Para
ele, o poder está vinculado à proibição, numa relação mais paternalista em que um manda e o
outro obedece. Acreditamos que essa colocação não expressa uma expectativa de que os
meios de comunicação funcionem nesse sentido ou cumprem esse papel, mas que a
compreensão do termo passa por essa relação. Talvez porque a vivência do sentido da palavra
esteja vinculada à família, à escola, à rua e ao congado, espaços onde identificaram a
existência de poder, e onde são diretamente orientados e coagidos, de forma legítima pelos
pais, pela polícia, pelas leis, pelas regras escolares apresentadas pela direção e pelos guardiões
que se alicerçam na tradição.
Abordando mais questão da possibilidade de produção e veiculação de conteúdos na
mídia, afirmaram que se quisessem fazer um programa de televisão, poderiam.
Cê paga o seu colega pra fazer uma vídeo-cacetada e manda pro Faustão. Aí se for uma daquelas bem brava mesmo, assim, quem sabe num passa no jornal? Ah, o minino ali, caiu e quebrou o pescoço com uma perna... (Beto, em setembro de 2011).
E se quisessem fazer um jornal, “só se for de comédia. Você manda lá pro fantástico”.
Aqui fica explícito o lugar que os jovens percebem como possível nos meios de comunicação.
O lugar do exótico e do cômico. Não há espaço para coisas sérias, ou para questões que lhes
parecem pertinentes, apenas para vídeo-cacetadas e comédias. Deparamo-nos com mais duas
questões centrais na relação dos jovens congadeiros com a mídia: o desconhecimento do lugar
dos meios de comunicação na sociedade, seu papel, seu funcionamento; e a invisibilização das
aberturas, do acesso, e da dimensão da esfera pública, tão pouco tratadas pela própria mídia e
pela sociedade civil. Essas três questões que pudemos identificar nos encontros com os jovens
estão interligadas e são consequência de principalmente de três descompromissos: da
administração pública que não exige e regulamenta o que a mídia faz; da mídia que não
cidadania, nem abre possibilidades reais de usufruto de suas potencialidades comunicativas
aos sujeitos; e da escola, a quem cabe, institucionalmente, a função de educadora para a vida.
Entendemos com isso, que também é seu papel passar aos alunos informações pertinentes
acerca dos dispositivos sociais disponíveis e as possibilidades de se valerem dos mesmos para
a construção de seus lugares no mundo. Esquecemo-nos que a mídia, como outros espaços e
dispositivos sociais, existem para serem manipulados, recriados e usufruídos por nós, e não o
contrário.
Com relação ao descompromisso da administração pública, concordamos com Raquel
Paiva (1998), quando comenta sobre a perversidade do nosso sistema social que se faz
possível, principalmente, pela conivência do Estado que se abstém cada vez mais de qualquer
posicionamento e se submete, também cada vez mais, ao devir econômico, se tornando, assim, um “(...) Estado omisso, principalmente no que tange à mediação social” (pg. 63).
Quanto à mídia, nos parece que lhe importa apenas a possibilidade de lucro, o que a leva a
exercer o papel de empresa cujo interesse principal é vender seus produtos. Enquanto isso,
integra-se de tal forma à realidade social, que, como diz Paiva, alcança um nível de
determinação muito mais eficaz do que previam os críticos, como os teóricos da Escola de
Frankfurt. Além disso, a composição da dinâmica social fica impossibilitada sem a presença
dos meios de comunicação.
Os jovens congadeiros, entretanto, mesmo com a falta de maiores informações sobre
as lógicas midiáticas, percebem algumas situações com as quais não concordam, como
quando afirmam não haver diálogo possível na televisão, pois “É só um que fala, então como
é que você vai conversar com ela?”, diz Beto (setembro de 2011). Uma situação citada pelo
jovem, diz respeito à ética jornalista:
Tava passando aquele negócio lá de profissão repórter. Aí tava passando um negócio lá, que o jornalista vai atrás dos negócio. Num grava esse negócio não, cê vai acabar com a minha carreira! Que se dane você. Eu to correndo atrás do meu trabalho! Acho errado. Aí não tem respeito...
Além disso, percebemos em algumas atitudes dos congadeiros posturas claras de
contestação com relação à forma como são tratados não apenas pela mídia local, mas por
alguns pesquisadores, curiosos e produtores culturais, como peças de um mero espetáculo.
Durante a festa, muitos se aproximam, invadindo o espaço do ritual, para fotografar ou filmar
os jovens e a manifestação como um todo. Como vimos, alguns dos jovens, mas
principalmente Thiago e Túlio, não gostam de ser fotografados e dificultam ao máximo o
objetivo dos portadores de câmeras, chegando algumas vezes a executar seus movimentos da
dança, sem se preocuparem em serem cordiais com os mesmos. Podemos citar aqui também o
posicionamento final dos jovens com relação a apresentações na Universidade e em situações
não religiosas; e, ainda, uma fala deles no último encontro, em novembro de 2011, para
avaliação das atividades realizadas, em que afirmaram pensar que apenas eu falaria, durante
os encontros, e que pediria a eles que dançassem e cantassem. Essa colocação geral dos
congadeiros nos ajuda a entender a forma predominante com que são abordados, o quanto eles
desejam ser interpelados enquanto sujeitos que são, e o quanto eles têm a dizer, e desejam
fazê-lo, não apenas em um movimento de externalização, mas na dialética que se faz possível
nesse processo, de retorno da fala, de reconhecimento de si.
Com relação à programação televisiva, os jovens comentaram sobre a predominância
de notícias sobre assassinatos, assaltos, entre outras ações nesse sentido nos telejornais, e que
a veiculação de imagens violentas lhes causa revolta. Assistem e afirmam gostar, entretanto,
de programas que também pautam a violência, em também outras formas que não a física,
como o Pânico e o Pica-Pau, desenho predileto de Túlio. Thiago afirmou que assiste telejornal, mas ponderou que “Jornal que bom mesmo é jornal de sexta feira, que assiste na
casa de vovó. Porque aí dá pra ver os presos”. O interesse está em ver quem estão prendendo
e “Pra ficar feliz deles tá prendendo os vagabundo de Viçosa, ué!”. O jovem também