Esse período é marcado pelo processo de “distensão” política, quando o general João Baptista Figueiredo assume o governo em 1979, e, em seu discurso de posse, já promete a "mão estendida em conciliação" e anuncia o seu propósito de “fazer desse país uma democracia", nem que, para isso, utilize os métodos já conhecidos pela sociedade brasileira:
“meu governo será para abrir mesmo, e quem não quiser que abra, eu prendo, arrebento. A minha reação agora vai ser contra os que não quiserem a abertura” (CPDocJB, 2009). A bem da verdade, naquele momento, uma grave crise econômica assolava o Brasil, com as altas taxas de juros internacionais provocadas pelo segundo choque do petróleo no mundo, a disparada da inflação e uma dívida externa que pela primeira vez ultrapassava os 100 bilhões de dólares. Nas ruas, os operários do ABC paulista exigiam melhores condições de vida e se organizavam nas greves ocorridas no período 1978-1980. Uma rebeldia que surpreendeu a sociedade brasileira e o mundo, e tornou-se um dos mais importantes capítulos da crise final da ditadura civil-militar e um dos pilares de uma nova estrutura política no país. Entre suas lideranças, destaca-se o líder metalúrgico Luis Inácio da Silva, que viria atuar como sujeito político nacional na redemocratização do país e, mais tarde, na própria retomada do Ministério da Cultura, como presidente da República. No campo da cultura, são anos de descontinuidades e sobrevivências. A crise do governo militar, a recessão econômica e a luta pela redemocratização do país constituíam-se na tônica dos anos 1980. Centenas de milhares de pessoas em todo o país evocavam para si o direito de eleger o presidente da República, o que só veio acontecer no final da década.
Durante a votação da emenda Dante de Oliveira (Diretas Já), o I Encontro Nacional de Política Cultural era realizado em Ouro Preto e Belo Horizonte (MG), entre 21 e 24 de abril de 1984, numa iniciativa do Fórum Nacional dos Secretários de Estado da Cultura, criado por José Aparecido de Oliveira. No ano seguinte, José Aparecido torna-se o primeiro Ministro de Estado da Cultura do Brasil, a convite do então presidente Tancredo Neves. Menos de seis meses, com o falecimento de Tancredo Neves, José Aparecido deixa o Ministério e vai governar o Distrito Federal, a convite de Sarney.
Nesse primeiro grande encontro para discutir uma política nacional de cultura, participaram secretários estaduais e municipais de cultura; o secretário de cultura do MEC, Marcos Vinício Vilaça; representantes de etnias culturais, além de artistas e intelectuais, como Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Austregésilo de Athayde, José Mindlin, Hélio Silva, Fernando
Gabeira, Ferreira Gullar, Mauro Santayanna, Cláudio Abramo, Millôr Fernandes, Henfil, Ziraldo, Ulpiano Bezerra de Menezes, Abdias do Nascimento (Movimento Negro do Brasil), Marcos Terena (Povo Terena/MS), Fernanda Montenegro, Ruth Escobar, além de outros de igual importância. Foi uma pauta longa e diversificada, que incluia os temas recorrentes nos debates culturais — como preservação do patrimônio cultural, arqueológico, histórico, artístico e natural; cultura e desenvolvimento; a cultura e a unidade nacional —, além de outros mais alinhados às dinâmicas culturais contemporâneas — como a comunicação social na cultura; indústria cultural e identidade cultural; novas tecnologias de comunicação, educação e identidade cultural e fontes alternativas para o financiamento da cultura (SECULT/MG, 1985) 97
Na pauta política do Fórum, a criação do Ministério da Cultura, as eleições diretas para a presidência da República e a Assembléia Nacional Constituinte eram temas repetidamente evocados pelos seus diversos expositores e debatedores. Enquanto isso, em Brasília, tropas militares sitiavam a cidade, por decreto de estado de emergência do governo militar. A atriz e deputada Estadual de São Paulo, Ruth Escobar, dá o tom daquele momento vivido pela sociedade brasileira: “hoje estou muito angustiada, porque não dá para estar aqui neste Seminário e ignorar o que está acontecendo em Brasília e no país. Não vamos poder presenciar o que está acontecendo hoje”
.
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A mobilização do Fórum Nacional dos Secretários de Estado da Cultura surtiu efeito e, em 1985, finalmente foi criado um Ministério para tratar nacionalmente das questões da cultura. Mas era um órgão que já nascia franzino, sem recursos e sem uma estrutura capaz de atender não apenas demandas dos estados e municípios, senão ainda, da sociedade civil. O nanismo do Ministério da Cultura assustava e era a representação material da fala da atriz Fernanda Montenegro, no Encontro de política cultural: “a cultura é a última pasta neste país, que ninguém quer”
.
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Fala-se muito em Ministério da Cultura. Não creio que seja uma prioridade. Para mim, o Ministério deve ser o resultado do desenvolvimento da cultura, e não o desenvolvimento ser um resultado da existência do Ministério. Além do inconveniente de se criar uma grande estrutura burocrática, o sucesso dependeria muito da pessoa, e Aloísio Magalhães, como Secretário da Cultura do MEC, não
. Um órgão exclusivo ligado ao Executivo nacional era consenso entre os secretários de Estado da Cultura, mas havia quem discordasse. O advogado, empresário, bibliófilo e imortal, José Mindlin, logo na primeira sessão de debates do Encontro, deixava clara a sua discordância:
97 Encontro realizado em Ouro Preto e Belo Horizonte de 21 a 24 de abril de 1984. 98 Ibdem, p.234.
precisou ser Ministro para realizar muita coisa. […] Em relação às verbas, considero importante estabelecer-se um esquema que torne sua concessão independente do arbítrio dos governantes do momento. O Estado deve atuar como coordenador de seu repasse ou de sua aplicação, mas as verbas em vez de fixadas anualmente de forma arbitrária, deveriam corresponder, por dispositivo constitucional, a uma percentagem da receita da União, dos Estados e dos Municípios, participando a comunidade intelectual e artística das decisões sobre sua aplicação. (SECULT/MG, 1985, p.30).
Em relação “às verbas”, Mindlin descreveu o que parece ser um dos mecanismos previstos na construção de um sistema nacional de cultura que se aproxima do que está sendo proposto hoje pelo Ministério da Cultura — percentual fixo por dispositivo constitucional, com garantia de apoio e incentivo a programas, projetos e ações culturais realizadas pela sociedade. Mas Mindlin, como homem do seu tempo, utilizou o critério da cidadania
territorialmente fundada, contido no contrato social definido por Boaventura de Souza Santos
(1998), como “a metáfora fundadora da racionalidade social e política da modernidade ocidental” 100
Sob o ponto de vista de Mindlin, só os cidadãos da comunidade intelectual e artística são parte nesse contrato social entre o Estado e a sociedade civil. Com isso, ele inclui os seus pares, mas “exclui todos os outros” – sejam minorias étnicas, grupos populares, todos os que estão à margem dos direitos culturais, “os que vivem no estado de natureza, mesmo quando vivem na casa dos cidadãos”
. Este é um critério de inclusão e, por conseguinte, também de exclusão, e que será um dos fundamentos da legitimidade da contratualização das interações econômicas, políticas, sociais e culturais.
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. Dessa forma, o poder decisório deveria continuar nas mãos daqueles que sempre fizeram parte da vasta constelação institucional da nacionalização da
identidade cultural, que, segundo Sousa Santos, constitui “o processo pelo qual as identidades
móveis e parcelares dos diferentes grupos sociais são territorializadas e temporalizadas no espaço-tempo nacional” 102
Um conjunto de dispositivos identitários que estabelecem um regime de pertença e legitimam a normatividade que serve de referência às relações sociais confinadas no território nacional: do sistema educativo à história nacional, das cerimônias oficiais aos feriados nacionais. (SOUSA SANTOS, 1998, p.8).
, no espaço-tempo estatal. Não sendo o espaço-tempo nacional estatal apenas uma perspectiva e uma escala, mas também um ritmo, uma duração, uma temporalidade, ele é também o espaço-tempo da deliberação política, do processo judicial, da ação burocrática do Estado e, finalmente, da cultura. Sousa Santos define assim esse espaço- tempo privilegiado da cultura:
100 Ibdem, p.2. 101 Ibdem. 102 Ibdem, p.8.
Ele diz ainda que a nacionalização da identidade cultural reforça os critérios de inclusão/exclusão que subjazem à socialização da economia e à politização do Estado — duas outras “grandes constelações institucionais, vazadas no espaço-tempo nacional estatal” —, conferindo-lhes uma duração histórica mais longa e uma maior estabilidade. É exatamente por reforçar esses critérios — de inclusão/exclusão —, que a nacionalização da identidade
cultural assentou no etnocídio e no epistemicídio e que:
conhecimentos, memórias, universos simbólicos e tradições diferentes daqueles que foram eleitos para ser incluídos e convertidos em nacionais, foram suprimidos, marginalizados ou descaracterizados, e com eles os grupos sociais que os sustentavam. (SOUSA SANTOS, 1998, p.9)
Assim, é ainda assentado na nacionalização da identidade cultural que, finalmente, o Estado brasileiro criou o Ministério da Cultura, durante o governo do presidente José Sarney, eleito vice-presidente da República por via indireta na chapa de Tancredo Neves, superando a dupla Paulo Maluf/Flávio Marcílio e feito presidente pelas circunstâncias políticas do momento. Vale lembrar que, três anos antes, Magalhães considerava ser este um projeto prematuro e indevido, pois “fatalmente seria um órgão fraco, financeira e conceitualmente” (IPHAN, 1981). De fato, era um Ministério que já nascia franzino, pálido de recursos e conceitos, o que confirmava a visão de Magalhães.