3 A LITERATURA INFANTOJUVENIL (LIJ) E SUA TRADUÇÃO
3.2 O SÉCULO XX E A LITERATURA INFANTOJUVENIL
3.2.1 A década de 1970: os contextos político e
Os anos 1970 trazem na bagagem os conflitos de um Brasil dos 20 anos anteriores. Juscelino Kubitschek, com seu espírito progressista e amparado por uma abertura política de pós-Segunda Guerra (1956), após 15 anos de ditadura getulista, coloca em prática um plano de industrialização, dando ao Brasil a percepção de uma Nação industrial (p. ex.: vinda da fábrica da Volkswagen). Essa quebra de paradigma entre o Brasil rural e o industrial resgatou velhos conceitos anarcossindicalistas das décadas de 1920 e 1930, que conflitavam com os sentimentos nacionalistas da década de 1940 (integralistas).
Seguindo os acontecimentos – fim dos anos dourados e começo dos anos rebeldes –, o início da década de 1960 é marcado pela existência de duas classes burguesas que começavam a se chocar: uma classe formada pela tradicional burguesia agrária, de perfil conservador; a outra, composta pela burguesia industrial, progressista e nacionalista, que buscava suplantar as antigas estruturas do país com o objetivo de fortalecê-lo por meio da continuidade do empreendedorismo da Era JK e o prosseguimento de sua política. A postura ideológica desse segmento progressista encontrava respaldo na mobilização popular, sobretudo nas Universidades, que se manifestavam contra o imperialismo americano, estimulando artistas e intelectuais a se posicionarem e criarem uma corrente de bases esquerdistas. Como consequência desses movimentos, a parcela mais conservadora da sociedade se apressou em aliar-se ao imperialismo internacional e contou com o apoio tímido da classe média. Essa união foi o pilar de um movimento liderado pelos militares em 1964, que viria ditar o destino do Brasil e dos brasileiros nos 20 anos que se seguiriam de ditadura militar, considerados os anos de chumbo para a população brasileira.
Comprometidos com órgãos internacionais, os projetos do Brasil para uma modernização capitalista atingem vários setores, notadamente o educacional, que se vê subordinado à verba e às técnicas norte-americanas, que propõem, nas palavras
38 Cf.: em ALVES, 2002, p. 27.
de Lajolo e Zilberman (1987, p. 130): “ensino burocrático e profissionalizante [...] e favorecendo, no ensino superior, a proliferação de escolas particulares que oferecem, através de um ensino de baixa qualidade, a ilusão de status universitário”. No campo da cultura, na Literatura Brasileira e, timidamente, na literatura traduzida, é possível perceber os efeitos da censura imposta pela ditadura militar. Com grandes investimentos, os Estados Unidos da América (EUA) injetaram vultosas quantias no Brasil com o objetivo de impedir o que se considerava o “avanço comunista” e também com subsídio americano, porém não declarado, os dois institutos criados no governo de Juscelino Kubitschek, o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) se uniram para, entre outras ações, controlarem a produção cultural do país no período pré-ditadura e pós-Golpe Militar. É verdade que as áreas da cultura mais afetadas foram aquelas nas quais havia a possibilidade de existir maior concentração de público, como era o caso das peças teatrais, festivais de música e de filmes. Todavia, a Literatura Brasileira também se viu envolvida nesse redemoinho, ainda que sob a desculpa de muitos dos textos censurados o serem sob o pretexto de que afetavam “a moral e os bons costumes”, distantes, então, de apologias e críticas políticas.
Mesmo com as manifestações populares de oposição ao governo ditatorial e com as constantes lutas revolucionárias, o Brasil viveu uma fase de modernização capitalista sem volta. Apesar disso, e também por isso, a população clamava por justiça social, protestava contra o alto custo de vida e pedia a anistia dos presos e exilados políticos. Toda essa efervescência social, aliada à crise econômica mundial e a rearticulações de movimentos oposicionistas, demandou a reorganização do regime brasileiro que, na pessoa de seu novo presidente (Ernesto Geisel), assume como metas a abertura e redemocratização, decreta a Lei da Anistia, o fim da intervenção em alguns sindicatos e o fim do bipartidarismo. Mas, em virtude de tal abertura, mais uma vez, a classe dominante, contrariada, defende-se, fazendo alianças internas e buscando manter sua posição dentro do capitalismo internacional.
Nos anos iniciais da década de 1970, a Literatura Brasileira para adultos apresenta-se com novos traços: a narrativa linear é substituída pela linguagem fragmentada, talvez refletindo os vários embates políticos da História do Brasil e,
quiçá, o mais recente de então, o Golpe Militar de 1964. Lajolo e Zilberman (1987, p. 133) esclarecem melhor o assunto:
O romance Quarup (1967) [...] parece inaugurar novos rumos da ficção brasileira [...] avolumam-se propostas literárias alternativas e experimentais, constituindo seu conjunto a representação possível de um país cuja história política, regularmente sacudida por solavancos como foi o movimento militar de 64, talvez se deixe representar melhor como fragmento do que como continuidade [...]
Essa fragmentação reflete-se na heterogeneidade dos aspectos que inserem, na representação literária, as muitas formas sociais presentes no Brasil de então, além não só da possibilidade, por parte dos escritores, da utilização das múltiplas linguagens, como também da representação do Brasil. Segundo as autoras, nas décadas de 1970 e 1980, o número de títulos editados no Brasil expandiu-se muito, com certeza, devido ao estímulo dado pela expansão do Ensino Médio e Superior, que eram responsáveis pelo grande consumo de livros. Paradoxalmente às produções independentes, que visavam a atacar o governo e o status quo, o próprio governo, para garantir o maior controle possível sobre as publicações e as artes em geral, criou – ou redefiniu – um órgão de estímulo à produção artística, tornando-se o mecenas da época.
Nas palavras de Pellegrini (2014, p. 159, grifo do autor):
Empenhado em fragilizar a produção cultural de esquerda do período anterior [...] o Estado firmou sua política específica, calcada na ideologia de integração e de segurança nacionais. Estabeleceu-se, dessa forma, uma contradição aparente. Enquanto criava órgãos estatais e estímulo à cultura e investia em infraestrutura por meio de empréstimos e subvenções (por exemplo, para a modernização das gráficas, emissoras de rádio e TV [...]) o Estado controlava com a censura, atendendo assim tanto aos seus próprios interesses quanto aos da indústria cultural em expansão. Na verdade, a contradição não existe. Trata-se de uma chave que gira para os dois lados: ambiguamente impede um tipo de orientação, a de conteúdo ideológico de esquerda, promovendo uma espécie de higienização, que interessava à ideologia da segurança nacional, mas incentiva outro, aquele que prega Pátria, Deus, moral e bons costumes.
Todavia, não é apenas o consumo de literatura voltada para adultos que cresce: juntamente com ela, a LIJ também cresce e aparece. Mas a Literatura Infantojuvenil brasileira aparece não apenas no Brasil, mas também no exterior, com inúmeros prêmios e distinções concedidas a nossa produção (COELHO, 1991). A poesia infantil, como exemplo do que ocorre na LIJ da época, abandona o recorte
didático-pedagógico39 e se transforma em cúmplice das crianças, trazendo para dentro do poema elementos do cotidiano infantil e rima fácil. As modinhas infantis e canções de ninar são recuperadas e incorporadas às poesias, assim como as onomatopeias e os jogos de palavras: é o lúdico substituindo o pedagógico.
Em relação às narrativas em prosa, como acontecido na realidade do Brasil, também na LIJ as histórias têm suas narrativas transferidas do contexto rural para o meio urbano, agora completamente desmistificado; as crises (social, emocional), frequentemente presentes na vida dos personagens, transformam-se de algo ameno a eventos relatados com grande realismo, rompendo, dessa forma, com a narrativa otimista, que refletia a sociedade brasileira em anos anteriores. Também são apresentadas a deterioração do poder aquisitivo e suas consequências, juntamente com o submundo urbano, os problemas ecológicos, a marginalização, as drogas e as carências de toda sorte, que passam a fazer parte das narrativas infantis. Paralelamente ao apelo realista, a LIJ encontra, ainda nos anos da década de 1970 e já nos anos de 1980, campo aberto para explorar a ficção, o suspense e as histórias policiais, que fazem grande sucesso junto às crianças. A linguagem adotada na LIJ passa a aproximar a fala das narrativas a um linguajar coloquial, resgatando (ou mantendo) a herança dos modernistas e do fazer lobatiano: é o experimentalismo com a linguagem. E, em se tratando de resgates, o mundo das fadas volta em muitas narrativas, certamente, revestido de atualidade, com elementos de lendas brasileiras e assuntos regionais, mas que faz tanto sucesso quanto os contos de outras gerações.
Independentemente da aparente inconsequência das aventuras vividas pelos personagens, a soma das características das narrativas daquela época revela traços do Brasil de então, que leva para seu jovem público problematizações de várias ordens, assim como a conscientização da situação do país. Apesar do aparente descompromisso com a história oficial, com os heróis pátrios e com os conteúdos escolares mais ortodoxos, substituídos por novos perfis, uma análise mais cautelosa da produção infantil contemporânea “[...] revela a permanência da preocupação educativa, comprometida agora com outros valores, menos tradicionais e – acredita- se – libertadores” (LAJOLO; ZILBERMAN, 1987, p. 161).
39 A tradição bilacquiana
– refletora do nacionalismo do início do século XIX – e as formas parnasianas – culto à forma perfeita seja na construção, seja na sintaxe. (LAJOLO; ZILBERMAN, 1987)
3.2.2 Anos 1990 no Brasil: o contexto literário, as características da literatura e