Capítulo 2: A greve dos petroleiros de 1995 e a decisão do Tribunal Superior do Trabalho –
2.5. A decisão do Comitê de Liberdade Sindical da OIT
Após o primeiro julgamento do dissídio coletivo pelo Tribunal Superior do Trabalho, a Central Única dos Trabalhadores, no dia 17 de maio de 1995, formulou queixa ao Comitê de Liberdade Sindical da Organização Internacional do Trabalho. O governo brasileiro pronunciou-se no dia 4 de setembro de 1995.
De acordo com o informe da OIT,450 a CUT relatou os fatos ocorridos em 1994 e 1995, desde a deflagração da greve no ano anterior, os acordos firmados com o governo e, finalmente, a decisão do TST. Afirmou que, no dia 11 de maio, a Petrobrás, por determinação do Presidente da República, despediu funcionários da empresa, por justa causa, estando, entre eles, vários dirigentes sindicais. Narrou que, até 15 de maio, já haviam sido dispensados 59 empregados, incluindo dirigentes dos sindicatos e da federação. A greve continuou e foi garantido o percentual de 30% de produção de gás para abastecimento de hospitais, indústrias e domicílios – segundo a CUT. De acordo com a Central, a postura do governo brasileiro representava uma “flagrante violação” à Constituição nacional, que previa estabilidade no emprego ao dirigente sindical, e à Convenção 98 da OIT, ratificada pelo país (e que consagrava o princípio da negociação coletiva)451. Além disso, o Tribunal Superior do
Trabalho declarou a nulidade de acordo coletivo (de 10 de novembro de 1994) firmado por Ministros de Estado, autoridades hierarquicamente superiores à direção da Petrobrás. Para a CUT, o Poder Executivo rejeitava documento negociado e celebrado pela administração anterior, que fora composta pelo então Presidente da República.
O governo brasileiro, por sua vez, apresentou sua versão dos fatos – de 1994 a 1995 –, fez referência ao art. 114 da Constituição e sustentou que o processo judicial de declaração de abusividade da greve tramitara nos limites do texto constitucional e da Lei 7.783/1989. Informou que, como consequência do caráter abusivo da paralisação, foi autorizado à empresa, segundo a lei, realizar dispensas e substituir os empregados em greve, “tanto para zelar pelo cumprimento da decisão judicial quanto para que fosse respeitado o
450 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Caso número 1839 (Brasil): 300. Informe del
Comité de Libertad Sindical. 264ª Reunión del Consejo de Administración. Genebra: OIT, 1995 (disponível em http://www.ilo.org/dyn/normlex/es/f?p=1000:50002:0::NO:50002:P50002_COMPLAINT_TEXT_ID:2903565# 1, acesso em 11.4.2014).
451 A convenção 98 da OIT está em vigor no Brasil desde a década de 1950, aprovada pelo Decreto-Legislativo
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estado de direito”452. Competia à empresa assegurar o abastecimento de produtos
indispensáveis à comunidade, como combustíveis e gás de cozinha, cuja falta já estaria sendo sentida pela população, com comprometimento da segurança nacional. Para tanto foram necessárias algumas dispensas. O governo encaminhou ao Comitê as decisões judiciais proferidas nos dias 9 e 26 de maio de 1995.
Vale constatar – mais uma vez – a ausência de remissão ao art. 9º da Constituição, tanto pela CUT, quanto pelo governo brasileiro. O único texto normativo invocado sobre a greve é a Lei 7.783/1989. A Constituição foi referida apenas quanto à previsão de estabilidade no emprego dos dirigentes sindicais (art. 8º, VIII) e com relação ao poder normativo da Justiça do Trabalho (art. 114). Fica a indagação: por que não há uma discussão sobre a interpretação a ser conferida ao texto constitucional?
Em suas conclusões453, o Comitê destacou o fato de que, três dias após o início da greve e enquanto ela se desenvolvia, o Tribunal Superior do Trabalho impôs condições de trabalho às partes, tornando ilegal a atuação dos grevistas. O Comitê ressaltou o princípio, assentando em outros casos, de que “uma disposição que permite que uma das partes do conflito possa unilateralmente solicitar a intervenção da autoridade do trabalho para que essa avoque a solução do conflito representa um risco contra o direito dos trabalhadores de deflagrar a greve e é contrária ao incentivo à negociação coletiva”. O Comitê considerou, diante disso, que houve violação ao direito de greve e solicitou ao governo que adotasse providências no sentido de alterar a legislação, de maneira a que a submissão de conflitos coletivos a autoridades judiciais dependesse de comum acordo entre as partes, ou que se tratasse de serviços essenciais em sentido estrito (ou seja, aqueles que, caso interrompidos, pudessem colocar em perigo a vida, a segurança ou a saúde de toda ou de parte da população). O Comitê de Liberdade Sindical convocou o governo brasileiro a que garantisse o respeito às convenções coletivas celebradas entre sindicatos e empresas, concitando os interlocutores sociais a resolverem os conflitos coletivos por meio da negociação coletiva.
Como houve contradição entre o alegado pela CUT e pelo governo brasileiro quanto ao cumprimento dos 30% dos serviços mínimos, o Comitê não encontrou condições de formular conclusão a respeito. Por outro lado, tendo em vista que a greve foi julgada abusiva pelo TST, porque estava em vigor instrumento normativo oriundo do próprio Tribunal, e considerando que o Comitê criticou exatamente a submissão unilateral do conflito coletivo à
452 Tradução livre (em todas as citações).
453 O Comitê de Liberdade Sindical elabora e relata suas conclusões a partir das alegações dos envolvidos e dos
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Corte, bem como diante da circunstância de ter se tratado de um conflito complexo e de grande duração, além dos dois acordos invocados pela CUT (firmados com o governo e a empresa), o Comitê solicitou ao governo que adotasse providências para facilitar o retorno ao trabalho dos dirigentes sindicais e dos demais empregados.454
Ao final, o Comitê convidou o Conselho de Administração da OIT a fazer as seguintes recomendações:
a) o Comitê pede ao Governo que tome medidas com vistas à modificação da legislação com o objetivo de que a submissão dos conflitos coletivos de interesses às autoridades judiciais seja possível apenas de acordo entre as partes, ou no caso de serviços essenciais no sentido estrito do termo (aqueles cuja interrupção poderia colocar em risco a vida, a segurança ou a saúde da pessoa em toda ou em parte da população);
b) o Comitê convoca o governo a que garanta que as convenções coletivas entre empresas e sindicatos sejam respeitados. Solicita também que concite aos interlocutores sociais a resolverem os conflitos coletivos por meio da negociação coletiva; e
c) O Comitê solicita ao Governo que tome medidas para facilitar a reintegração em seus postos de trabalho dos 59 dirigentes sindicais e sindicalistas despedidos pela empresa Petrobrás.
A OIT se pronunciou quando a greve dos petroleiros já havia sido encerrada. Não obstante, sua manifestação produziu importantes repercussões455 e alguns incômodos. Almir Pazzianotto Pinto, Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, publicou artigo, criticando a decisão da OIT.
Após expressar seu respeito à Organização, Almir Pazzianotto afirmava que ela, “talvez induzida por informações incorretamente prestadas”, teria se equivocado, supondo que o país ainda fosse “vítima do autoritarismo”, razão pela qual [a OIT] ignorou que a decisão tomada quando da greve da Petrobrás havia sido proferida pelo TST, no exercício normal de
454 A recomendação literal foi a de que fosse facilitado o retorno aos postos de trabalho dos “59 dirigentes
sindicais e sindicalistas despedidos pela empresa”. Entretanto, parece ter havido equívoco por parte do Comitê. Isso porque, segundo consta do próprio relatório do Comitê, a alegação da CUT era de que haviam sido 59 os empregados dispensados, dentre os quais dirigentes dos sindicatos e da federação.
455 Com a edição da Emenda Constitucional 45/2004, o art. 114 foi alterado, passando a exigir o comum acordo
para a propositura de dissídio coletivo perante os tribunais trabalhistas. Além disso, foi prevista a possibilidade de o Ministério Público do Trabalho ajuizar o dissídio coletivo em caso de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão ao interesse público. O Tribunal Superior do Trabalho vem se mostrando, porém, refratário a uma interpretação que confira maior efetividade às modificações promovidas pela Emenda Constitucional 45/2004. Desde a promulgação da emenda, a Corte vem construindo jurisprudência no sentido de mitigar a exigência de comum acordo. Tanto é assim que a Corte não exige que haja concordância expressa das partes, bastando a inexistência de oposição pela parte suscitada (cf. BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Seção de Dissídios Coletivos. Recurso Ordinário nº 2030700-36.2006.5.02.0000, Relatora Ministra Kátia Magalhães Arruda. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho, Brasília, DF 10/05/2013). Outro exemplo é o entendimento, constante de alguns precedentes da Corte, no sentido de que, se há greve, independentemente de se tratar ou não de atividade essencial, a propositura do dissídio coletivo prescinde do comum acordo. Esses aspectos serão examinados no próximo capítulo.
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competência prevista na Constituição e na lei. Segundo Pazzianotto, a OIT deveria considerar que a Petrobrás detinha o monopólio da extração do petróleo, do refino e da distribuição de derivados, executando atividades essenciais e inadiáveis à população, tal como estabelecido na Constituição e na Lei de Greve. Além disso, o conflito coletivo não foi solucionado por entendimentos diretos “e a deflagração da greve levou a empresa a exercer o seu direito de ação”, perante o TST.
Pazzianoto lembrou que, “lamentavelmente (…), a sentença do Tribunal não foi cumprida, e tampouco combatida através do devido processo legal, à disposição dos interessados”. Segundo o Ministro, a opção foi a continuidade da greve, acarretando que produtos essenciais, como GLP, faltassem à população, “prejudicando particularmente camadas mais pobres”.456
Almir Pazzianotto lançou, então, importante observação – para os fins desta pesquisa – sobre o sistema brasileiro de tratamento de conflitos coletivos:
O sistema brasileiro de solução dos conflitos individuais e coletivos de trabalho não será o mais perfeito da face da Terra, e talvez comporte mudanças que dêem maior ênfase aos esforços de autocomposição. Não se deve negar, entretanto, que a Justiça do Trabalho tem constantemente demonstrado eficiência, imparcialidade e equilíbrio, características virtuosas facilmente comprováveis em volumosa quantidade de processos individuais e coletivos instaurados por trabalhadores e sindicatos profissionais.
O acesso unilateral ao Poder Judiciário tem se mostrado positivo aos assalariados. Cabe, porém, com exclusividade ao Congresso Nacional avaliar a conveniência e a oportunidade da alteração da norma constitucional que o assegura. Enquanto prevalecer o princípio, segundo o qual “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”, não se impedirá ao trabalhador, ao empregador ou aos seus sindicatos que recorram à Justiça do Trabalho.457
Não obstante a defesa do sistema brasileiro e do papel do Tribunal Superior do Trabalho, não havia, no artigo, nenhuma discussão sobre o direito de greve e de como seu exercício se relacionava com a atuação do Poder Judiciário (vale recordar que o Comitê de Liberdade Sindical associou, em sua manifestação, a intervenção da “autoridade do trabalho”, provocada unilateralmente, à violação ao direito de deflagrar a greve). E a afirmada competência constitucional do TST não vinha pensada em consideração ao dispositivo, também da Constituição, que tratava do direito de greve (art. 9º). Para além disso, fica também a indagação: até que ponto o princípio da inafastabilidade da jurisdição ou do acesso
456 PAZZIANOTTO PINTO, Almir. “O governo, a OIT e a Justiça do Trabalho”. In: Síntese Trabalhista, ano
VII, nº 84, junho de 1996, pp. 126/128 (p. 127).
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à justiça, invocado no trecho acima, assegura ao Poder Judiciário competência para intervir no exercício do direito de greve?
É chegado o momento de examinar os demais desdobramentos do Dissídio Coletivo 177.734/1995.
2.6. A execução das multas aplicadas e a ação dos trabalhadores e dos sindicatos pela