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3 DIREITOS HUMANOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS

3.3 Internacionalização dos Direitos Humanos

3.3.1 A Declaração Universal dos Direitos do Homem

Ao preconizar “o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações” (ALVES, 1997, p. 27), a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em 1948, representa uma referência histórica no que tange ao avanço da humanidade, uma vez que os direitos do homem acabam por encontrar respaldo no âmbito internacional.

O marco histórico maior do processo de reconstrução e da internacionalização dos direitos humanos inicia em 16 de fevereiro de 1946, quando o Conselho Econômico e Social [...] constitui uma Comissão de Direitos Humanos, e lhe incumbe de elaborar uma Declaração de Direitos Humanos, de acordo com o disposto no artigo 55 da Carta da ONU. Após quase 3 anos de trabalhos e o exame de 13 anteprojetos que recebera, a Comissão apresentou, em 18 de junho de 1948, o seu projeto a ser remetido a Assembleia Geral. Após apreciação de mais de 150 emendas apresentadas, o projeto de Declaração Universal dos Direitos do Homem, com a redação final de René Cassin, foi aprovado em 10 de dezembro de 1948, na III Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas (GORCZEVSKI, 2009, p. 152-153).

Referida Declaração traz à tona os ideais consagrados na Revolução Francesa:

liberdade, igualdade e fraternidade, os quais se encontram previstos logo em seu artigo 1º. Assim, referidos princípios supremos encontram-se agora sob proteção internacional, e serviram, portanto, como fundamento para a concepção dos direitos humanos no conteúdo da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948.

Ademais, o documento trouxe em seu bojo a ideia de que a transformação desses valores em direitos efetivos será feita gradativamente através da adoção de formas de educação e de ensino, tanto na seara nacional como em âmbito interno (GORCZEVSKI, 2009).

Referente ao documento, salienta Bobbio (1992, p. 30) que

a Declaração Universal contém em germe a síntese de um movimento dialético, que começa pela universalidade abstrata dos direitos naturais, transfigura-se na particularidade concreta dos direitos positivos, e termina na universalidade não mais abstrata, mas também ela concreta, dos direitos positivos universais.

Na primeira parte do documento se encontram presentes os princípios da igualdade e da liberdade (artigo 3º ao 21), assim compreendidos como direitos civis e políticos (direito à vida, à igualdade perante à lei, à liberdade, à presunção da inocência antes do trânsito em julgado de sentença condenatória, à segurança pessoal, à nacionalidade, à propriedade, etc.). Já o princípio da solidariedade (artigo 22 ao 27) tem como fundamento os direitos econômicos, sociais e culturais (direito à educação, à previdência social, ao trabalho, ao lazer, à saúde, ao bem-estar social, etc.). Por fim, os artigos 28 e 29 da Declaração tratam acerca do direito que os indivíduos possuem a uma ordem social e internacional que conceda a realização plena de tais direitos, assim como os deveres que os indivíduos possuem perante a comunidade, porquanto o desenvolvimento pleno de sua personalidade somente é

realizável na própria comunidade (ONU, 1948, www.humanrights.com).

Destarte, a Declaração sofreu, entre outras críticas, a polêmica acerca das sua natureza ou valor jurídico. Para alguns doutrinadores, a Declaração Universal dos Direitos do Homem não teria caráter vinculante e obrigatório na seara universal, uma vez que teria sido implementada mediante uma Resolução da Assembleia Geral, a qual possui competência apenas para fazer recomendações (GORCZEVSKI, 2009).

Nesse diapasão, Rezek (1995, p. 224) afirma que

a Declaração Universal dos Direitos do Homem não é um tratado, e por isso seus dispositivos não constituem exatamente uma obrigação jurídica para cada um dos Estados representados na Assembleia Geral quando, sem qualquer voto contrário, adotou-se o respectivo texto sob a forma de uma resolução da Assembleia.

Na mesma linha de raciocínio perfilha Comparato (2008, p. 223-224),

tecnicamente, a Declaração Universal dos Direitos do Homem é uma recomendação que a Assembleia Geral das Nações Unidas faz aos seus membros [...]. nessas condições, costuma-se sustentar que o documento não tem força vinculante.

Importante mencionar, conforme o ensinamento de Gorczevski (2009, p. 157) que “a Declaração não foi aprovada nem ratificada como tratado internacional pelos distintos Estados, de acordo com seus mecanismos constitucionais, pelo qual se obrigariam legalmente”.

Com isso, buscou-se um modo efetivo para reconhecer e garantir os direitos previstos na Declaração Universal: através da adoção de tratados internacionais, a fim de que o texto pudesse ter caráter vinculante necessário no Direito Internacional (PIOVESAN, 2010).

Apesar das críticas supracitadas, alguns doutrinadores consideram o documento universal como uma “interpretação autorizada dos artigos da Carta das Nações Unidas relativos aos direitos humanos, e que teria, portanto, efeitos legais de um tratado internacional” (GORCZEVSKI, 2009, p. 157).

Na medida em que se puder aceitar a cogência das próprias disposições da Carta da ONU sobre os direitos humanos, então será possível aceitar a cogência da própria Declaração Universal enquanto extensão ou desdobramento da Carta da ONU, explicitadora dos direitos humanos consagrados em seu texto (AZEVEDO, 1980, p. 46).

Independentemente dos posicionamentos divergentes acerca do tema, conforme ressalta Gorczevski (2009), a própria Organização das Nações Unidas reputou a necessidade da criação de outros instrumentos internacionais para torná-la exigível e conferir-lhe força cogente. Então, nas palavras de Cançado Trindade (2003, p. 64-65) “a Declaração não tardou a produzir resultados positivos de ordem prática e a influir na vida dos povos”.

Assim, ainda que não tenha força vinculante, a partir da Declaração Universal de 1948 que foram criados diversos tratados internacionais visando a proteção e o reconhecimento dos direitos humanos. Importante enfatizar que, referidos tratados internacionais sempre trazem à baila uma significativa observação: que todos os Estados-partes se comprometam a efetivar e implementar os direitos neles contidos através da educação. Em outros termos, os variados documentos internacionais acerca dos mais diversos temas, à educação fazem menção, elegendo-a como o instrumento mais eficaz de implementação do pactuado. Entre os documentos internacionais citam-se: a Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência;

a Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher; a Convenção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial; a Convenção sobre os Direitos das Crianças; e Convenção para a repressão do tráfico de pessoas e do lenocínio. A sociedade internacional percebeu, enfim, a imprescindibilidade da educação para a efetivação dos propósitos firmados na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1945 (GORCZEVSKI, 2009).

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