3. CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS
3.2 CIDADANIA E A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
3.2.2 A Declaração Universal dos Direitos Humanos
Após a segunda grande guerra o mundo ansiava por um tempo de paz duradoura. Com este intuito lideranças de vários países sob a orientação dos Estados Unidos da América criaram em 22 de outubro de 1945 a Organização das Nações Unidas – ONU e decidiram escrever um documento em que a tônica fosse garantir o direito de todas as pessoas em todos os lugares do mundo.
Na Carta das Nações Unidas, saída da Conferência de S. Francisco de 1945 já se manifestava o propósito de “realizar a cooperação internacional resolvendo os problemas Internacionais de ordem econômica, social, intelectual ou humanitária, desenvolvendo e
encorajando o respeito dos Direitos do homem e das liberdades fundamentais para todos sem distinção de raça, de sexo, de língua ou religião”. (Comissão para promoção dos direitos humanos e igualdade na educação, 1992, p 77)
O documento foi apresentado na primeira Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 1946 e em seguida foi repassado à Comissão de Direitos Humanos para que fosse usado na preparação de uma declaração internacional de direitos. O principal obreiro desta comissão foi um cidadão francês chamado René Cassin que era professor de direito da Universidade de Nice e posteriormente tornou-se presidente do tribunal Europeu dos Direitos do Homem de Estrasburgo (GERARD, 2010). Em 1947 quando ocorreu a primeira reunião da comissão seus membros foram autorizados a elaborar o esboço do que foi chamado de modo preliminar de “Declaração Internacional dos Direitos Humanos”.
O comité de Redação elaborou dois documentos: um, sob a forma de uma declaração que daria a conhecer princípios gerais ou normas de direitos humanos; o outro, sob a forma de um acordo que definiria direitos específicos e as suas limitações. Nesse sentido, o Comité de Redação transmitiu à Comissão os projetos de uma declaração internacional de um acordo internacional de direitos do homem. A Comissão decidiu, no final de 1947, atribuir a designação de «Carta Internacional dos Direitos Humanos» ao conjunto de todos os documentos em preparação e, nesse sentido, formou três grupos de trabalho: um, para a declaração, outro, para o acordo e ainda outro, para a entrada em vigor. (Comissão para promoção dos direitos humanos e igualdade na educação, 1992, p 80)
A comissão composta por membro de oito países sob a presidência de Eleanor Roosevelt que era viúva do presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt que foi um dos responsáveis pelo primeiro esboço da Declaração, esteve reunida entre 24 maio a 15 de junho de 1948 revisando o projeto da declaração. Todavia, não houve tempo suficiente para que eles se debruçassem sobre o acordo, nem sobre o documento da entrada em vigor.
Nesse primeiro momento apenas a Declaração foi apresentada por intermédio do Conselho Econômico e Social à Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Paris em 10 de dezembro de 1948 que aprovou a Declaração Universal dos Direitos do Homem através da resolução 217 A (III) da Assembleia Geral como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. Ela estabelece, pela primeira
vez, a proteção universal dos Direitos Humanos como exposto em seu preambulo e em seu artigo primeiro,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum (Trecho extraído do preâmbulo da DUDH,1948).
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (Parágrafo 1o da
DUDH, 1948).
A Declaração de 1948 foi então o primeiro dos três documentos que compõe a Carta Internacional dos Direitos dos Homens a ser aprovado pela Assembleia Geral da ONU, os outros dois documentos foram respectivamente: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, nos quais os Estados se obrigaram a assegurar o pleno exercício dos direitos neles reconhecidos, sem qualquer discriminação em função do sexo, como nos explicam Azambuja e Nogueira,
A Declaração Universal dos Direitos dos Homens (DUDH), juntamente com mais três documentos, compõe a Carta Internacional dos Direitos do Homem. Isso decorre do fato de a Declaração não obrigar formalmente os Estados a cumpri-la, sendo, portanto, insuficiente. Assim, foram produzidos outros dois documentos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, nos quais os Estados se obrigaram a assegurar o pleno exercício dos direitos neles reconhecidos, sem qualquer discriminação em função do sexo. Ambos os Pactos foram assinados em 1966, mas entraram em vigor apenas em 1976, pois foi preciso aguardar dez anos para que 36 Estados os ratificassem. (AZAMBUJA e NOGUEIRA, 2008, p 102)
A Declaração apesar de tratar dos direitos inerentes ao “ser humanos” seu título está posto no masculino, ou seja, ela surge para o mundo oficialmente como “Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Ocorre porém que a maioria dos documentos que fazem referência a Declaração de 1948, inclusive a página da ONU em português, faz referência ao documento como Declaração Universal dos Direitos Humanos, ficou então a dúvida: quando essa modificação foi feita no documento da Declaração?
As pesquisas nos apontaram o seguinte caminho, mesmo tratando dos direitos próprios do ser humano e, por tanto, estão inclusos o homem e a mulher, o texto é escrito no masculino, que neste caso utiliza a palavra homem como sinônimo de humanidade. Mas, com o passar do tempo, os movimentos sociais, principalmente o movimento de mulheres que tinham o objetivo de incluir a violência praticada contra elas como uma violação dos direitos humanos11, começaram a pressionar para que a
Declaração passasse a chamar-se Declaração Universal dos Direitos Humanos. É preciso destacar que 1945 quando se inicia em São Francisco – EUA os preparativos para a criação da Declaração de 1948, as mulheres tinham direito a voto em apenas 31 países e eram tratadas como pessoas de “segunda classe” em quase todo o mundo. (AZAMBUJA e NOGUEIRA, 2008). Assim mesmo na metade do século XX os Direitos humanos com toda sua amplitude moral e legal ainda era traduzido denotando os valores de uma sociedade patriarcal que entendia que o homem era o humano por excelência, já que as mulheres tinham seus direitos políticos limitados por seu gênero, sem mencionar aqueles e aquelas que sequer tinham algum direito.
Os principais argumentos levantados pelo movimentos sociais foram os seguintes:
A crítica à linguagem sexista afirma que esta constitui um entrave ao processo de instauração da igualdade e da verdadeira apropriação dos direitos do homem pelas mulheres, lembrando o papel da língua na formação da identidade social das pessoas e a interação que existe entre a língua e as atitudes sociais. Portanto, defender a mudança de nome (para Declaração Universal dos Direitos dos Homens e das Mulheres ou Declaração Universal dos Direitos Humanos) significa reconhecer a importância desses aspectos para a igualdade entre mulheres e homens (AZAMBUJA e NOGUEIRA, 2008, p 105)
Essa discussão foi ganhando grandes proporções, mas não chegou-se a mudar a nomenclatura da Carta como desejavam o movimento de mulheres e grande parte dos ativistas em Direitos Humanos. Nesta lógica, o que ocorreu foi uma
11 - Este objetivo foi alcançado na Conferência de Direitos Humanos ocorrido em Viena 1993. Neste sentido Monteiro (2005) nos informa que Depois da Década das Mulheres e até o ano de 1995, a ONU realizou mais três conferências mundiais especificamente sobre mulheres: 1980, Copenhagen; 1985, Naioróbi e 1995, Pequim. Em 1993, como resultado da Conferência sobre os Direitos Humanos, realizada em Viena (Áustria), surgiu a Declaração de Viena para a eliminação da Violência Contra as Mulheres. Nesta, encontramos pela primeira vez uma clara classificação das diferentes formas de violência.
Recomendação do Comitê de Ministros do Conselho da Europa, de 1990, em que este incita os Estados-membros a desenvolverem uma linguagem não-sexista.
Aconteceu que mesmo antes desta recomendação, alguns países como o Brasil já publicavam textos onde a palavra “homem” foi versionada para a língua portuguesa como “Humano”, esse foi, por exemplo, o caso da primeira Cartilha de Direitos Humanos publicada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço que entre 1973 e 1978, que em plena ditadura militar no Brasil, ousou publicar “oitocentos mil exemplares da Cartilha” (Silva, 2013, p 164)
A Cartilha contendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos espraiou-se de norte a sul do território nacional cumprindo o seu papel de instrumento na alfabetização política de brasileiros, que em sua maioria vivia destituída de um patamar mínimo de civilidade, que pudesse ser compreendido como cidadania (SILVA, 2013, p 165)
Como é possível observar, não houve uma modificação na nomenclatura oficial do documento, mas houve uma tendência muito forte em substituir a palavra “homem” para “humano”, dando ao documento uma perspectiva atualizada no que tange a igualdade de direitos entre ambos os gêneros.
Como nos Lembra Bobbio (1988), os Direitos Humanos não nascem todos de uma vez nem de uma vez por todas, ele é atualizado historicamente e, por isso, se sucedeu à Declaração de 1948 uma série de novos documentos que emergem de espaços como a Conferência de Direitos Humanos de Viena em 1993.