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Use a proteção residente

Da mesma maneira que na vida real, a melhor proteção contra os vírus é a prevenção. Proteja-se agora! A Proteção residente pode ser ativada no ícone com o símbolo do avast!.7

O demorado funcionamento do computador, reiniciado após a instalação do Avast antivírus, lembrou de imediato o porquê da anterior desinstalação deste tipo de programa em uma máquina antiga cujo uso se faz quase que exclusivamente para armazenar e digitar arquivos de texto. Irritantes segundos que pareciam longos minutos. Acompanhada pelo cigarro, aceso no intuito de aplacar a ansiedade, a leitura desta dica para novos usuários remeteu às reflexões sobre segurança e os nossos modos de vida atuais, tema absolutamente central nesse estudo. Mais um mecanismo de segurança, como se não bastasse a infinidade de dispositivos com que nos deparamos, seja solicitando, exigindo e até mesmo sendo obrigados a utilizar nas atividades aparentemente mais simples do cotidiano, como sair de casa e ir ao supermercado do bairro, por exemplo.

Tranca-se bem a porta de casa, guarda-se o dinheiro/cheque/cartão em algum lugar seguro e não visível para não chamar a atenção. Acreditando estar em um horário seguro para sair à rua, procura-se um caminho bem movimentado e iluminado, olha-se para todos que passam evitando aproximação daqueles de aparência suspeita, anda-se ligeiro, chega-se ao supermercado. Segurança privada na porta de entrada, câmeras filmando, fiscais no interior do estabelecimento. Sem sacolas para lacrar, a entrada fica mais tranqüila. No caixa, nos pedem a carteira de identidade para comparar aos dados do cartão, mas esta ficou em casa junto com outros documentos como forma de prevenir futuros aborrecimentos. No entanto, o

7 Conteúdo da página de ajuda ao usuário do Avast antivírus (Alwil software).

aborrecimento não deixou de comparecer na demora e desconfiança do funcionário do caixa para liberar as pequenas compras. Já de volta à casa, junto com o computador criado para facilitar nossas vidas e possibilitar o trabalho no conforto do lar, mais dispositivos de segurança. Como conseguimos viver com tantas parafernálias emperrando o desenrolar das nossas atividades mais banais? É nesse clima de insegurança e com estes infindáveis mecanismos para aplacá-la, é como nós do mundo ocidental moderno vivemos atualmente. Ou melhor, é como sobrevivemos.

A problemática que surge como parte de nossas experiências nos coloca de encontro com a necessidade que se impõe de uma “consciência histórica da situação presente”. Mais para conhecer as condições que motivam nossa conceituação dos problemas a serem tratados, que para fundar uma teoria do objeto, o que pressuporia uma objetivação prévia que não poderia se afirmar como base para um trabalho analítico (FOUCAULT, 1995)

Com os dados históricos que pretendemos lançar mão, não pretendemos buscar uma origem dos problemas relativos à segurança, como em um esforço de reconhecer e revelar a verdadeira identidade desse objeto através da tentativa de reconstituição de uma grande continuidade histórica. O sentido histórico nos interessa aqui quando escapa da metafísica e reintroduz no devir tudo que se acreditava incontestável. Já afastados da idéia de uma origem natural, o que poderíamos pretender encontrar no começo histórico seria mais da ordem do acaso, dos acontecimentos, que de uma intenção prévia. É apostando na idéia de fazer uso genealógico da história que Foucault (1990) recorre às considerações de Nietzsche sobre os termos utilizados para designar origem, os quais remetem a sentidos diferentes e até opostos, embora sejam empregados como similares. Por isso, assinalar as particularidades do uso de tais termos e assim falar em proveniência, enquanto marca das diferenças, singularidades que possibilitam ordenação e, portanto, não funda categorias de semelhanças, mas mostra a heterogeneidade de tais categorias. Por isso, falar de

emergência, como um ponto de surgimento marcando a entrada em cena de um jogo de forças, de um afrontamento no qual se pode notar a singularidade dos acontecimentos históricos.

Voltamo-nos para a história, a princípio, atentando para as análises a partir das quais se pode notar a emergência disto que Foucault chama de

“dispositivos de segurança”8 e dos quais ouvimos falar com freqüência em casa, na escola, no noticiário, no botequim, etc. Sabe-se que estes dispositivos, longe de originarem-se de uma racionalidade (embora estejam ligados a alguma) devem-se mais às transformações nas tecnologias de poder que ocorreram ao longo destes últimos séculos. Resultaram em uma explosão de técnicas diversas e numerosas de sujeição dos corpos e controle da população, que marca a era de um biopoder, de uma modalidade de poder que passou a preponderar a partir do século XIX (FOUCAULT, 2002).

Essa nova modalidade do poder que passa a investir sobre a vida biológica do ser humano, se inclina para uma espécie de estatização do biológico e assume a função de gerir a vida. Não que a vida já não fosse alvo de atenção no modelo de poder soberano que prevaleceu até o século XVIII, mas a questão fundamental é que a partir de então ela deixou de ser administrada pelo soberano pelo direito de matar, o que já revelava assimetria no poder sobre a vida. Eis então que ao velho direito soberano de

“deixar viver ou fazer morrer”, vem se juntar o direito de “fazer viver ou deixar morrer”, característico desta nova modalidade de poder que vem se estabelecer.

Já a partir de meados do século XVIII, aparece no cenário a biopolítica, uma nova tecnologia de poder mais complexa e que foi tornada possível pelas técnicas disciplinares que predominavam até o momento. O surgimento

8 Foucault (1990, p. 244) entende por dispositivo, um conjunto heterogêneo de elementos do dito e não dito que “engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” com uma função estratégica de responder a uma urgência em dado momento histórico.

dessa nova tecnologia de poder não suprime as técnicas anteriores.

Atuando em níveis diferentes, acabam se sobrepondo e articulando-se estas de modo a continuar maximizando e extraindo as forças dos homens. A anátomo-política dirige-se aos homens enquanto corpos individuais, operando através de técnicas disciplinares que separam, alinham, colocam em série e em vigilância, a multiplicidade de corpos. Já a biopolítica vai se dirigir ao homem-espécie, centrando suas técnicas na subtração de forças da população, enquanto fenômenos de massa. Assim, vemos se estruturar todo um campo de intervenção do poder pela colocação dos processos de vida, morte, produção, doença da população e etc. como objetos de saber e alvos de controle biopolíticos. Aqui também se inscrevem a medicina, a higiene pública e a regulamentação da vida através da intervenção no nível dos fenômenos coletivos, aleatórios e imprevisíveis, aliada à disciplinarização dos corpos. O biopoder é uma modalidade de poder que se incumbiu do corpo e da vida, talvez pela inoperância da modalidade de poder soberano na regência do corpo econômico e político de uma sociedade em processo de explosão demográfica e de industrialização.