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A democracia e o desenvolvimento no contexto regional

2. A DEMOCRACIA NOS DISCURSOS DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA ENTRE 1979 E

2.1 Democracia e desenvolvimento

2.1.1 A democracia e o desenvolvimento no contexto regional

No marco da iniciativa brasileira de expandir a discussão sobre democracia e desenvolvimento para demais países do globo, decidiu-se perceber a aplicação dessa construção argumentativa no contexto regional. Citam-se partes de fragmentos de discursos de política externa brasileira, em referência ao processo de redemocratização na América Latina, para mostrar a presença das idéias, e neste sentido, que a consolidação da democracia na região passava pelo crescimento econômico, e de que a cooperação entre os países da região e a busca por uma estratégia conjunta de crescimento poderiam prover estabilidade política e econômica. Sobre a cooperação com a América Latina, o Ministro Saraiva Guerreiro afirma na Assembléia Geral da ONU em 1981, que:

[,,,] A presença latino-americana no mundo vem demarcada pela compreensão básica de que a aceitação da transformação é um dado mínimo indispensável para a construção da paz. E, na transformação, é essencial que os processos sejam democráticos, abertos à participação e fundados na liberdade; e os objetivos, generosos, modelados por ideais de justiça e com contornos de tolerância. [...] A diplomacia brasileira tem sido perfeitamente fiel a este ideário. Estimular o diálogo entre nossos vizinhos, de todas as formas e em todas as dimensões, tem sido um dos pilares de nossa política externa. O presidente João Figueiredo tem mantido encontros importantes com seus colegas latino- americanos, tomando a si o encargo de levar adiante os ideais de cooperação regional. (GUERREIRO, 1981)

Do fragmento acima, é possível extrair a idéia de que o Brasil busca aproximação com seus vizinhos, motivado pela construção da paz na região, valendo-se das transformações em voga para consolidação de processos democráticos. A cooperação regional tem por objetivo garantir a democracia entre os países vizinhos, objetivando a conquista de paz na região. Apresentado o quadro geral que informa a inserção da América Latina, Saraiva Guerreiro apresenta a atuação brasileira, voltada para o fomento do diálogo regional. A leitura do fragmento sugere um papel de mediação do país no diálogo e na cooperação entre os vizinhos. A cooperação regional avançou e, na gestão do presidente Sarney, há uma reafirmação do Brasil em garantir melhores condições para a consolidação da democracia entre os países da América Latina. O compromisso do governo Sarney com o crescimento da América Latina é renovado no discurso de Abreu Sodré na Assembléia Geral da ONU, em 1987:

Reafirmo, perante este foro mundial, a importância que meu país confere aos acordos de integração e cooperação econômica concluídos a partir do ano passado com a Argentina e o Uruguai. São instrumentos de significado verdadeiramente histórico, que testemunham nossa determinação fraternal de crescer juntos, fortalecer nossas

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instituições democráticas e contribuir para o êxito do empreendimento maior – hoje mais próximo do que ontem – da integração latino-americana. (SODRÉ, 1987)

Percebe-se certas identificação e solidariedade do Brasil em relação às questões institucionais dos países da América Latina. O Ministro cita especificamente a importância da cooperação para crescimento conjunto e consolidação da democracia. Na década de 1980, o Brasil participou de grupos de concertação regional, que buscavam formas autônomas para consolidar a democracia e o desenvolvimento econômico da região. A instabilidade política e econômica, advindas da crise internacional e da onda de democratização também afetavam nossos vizinhos, razão pela qual a política externa brasileira se volta ao diálogo com seus pares para buscar soluções genuínas, e insere, na agenda presidencial, as questões regionais.

Durante o governo Sarney, o Brasil integra o Consenso de Cartagena, o Tratado de Cooperação Amazônica, a Associação Latino Americana de Integração (Aladi) e o Sistema Econômico Latino Americano e do Caribe (Sela). O país atuou no Grupo de Apoio a Contadora, assim como incentivou o funcionamento do Tratado da Bacia do Prata. Em âmbito bilateral, ressalta-se a conclusão do acordo sobre a compra de gás com a Bolívia. A busca por desenvolvimento e o combate aos baixos padrões sociais, ou seja, ausência de justiça social e equidade. Mediante o fragmento pode-se afirmar que, ao se referir à política regional, entende-se que a democracia depende dos padrões socioeconômicos para evitar contestação do processo político pela sociedade. O interesse no crescimento conjunto da região e na construção de Estados democráticos torna-se mais crítico no discurso do Presidente Sarney na Assembléia Geral da ONU, em 1989:

Volto a perguntar: se a democracia que implantamos em todo o Continente não responder aos legítimos anseios de nossas sociedades, como evitar que seus valores sejam contestados? Não há como alegar a realização imperfeita destes valores. [...] Os maiores inimigos da democracia no Continente têm sido os baixos padrões sociais e a inflação que corrói nossas economias. [...] O dilema atual não é militarismo ou populismo, mas recessão ou crescimento. [...] Para o Brasil, a sorte dos nossos vizinhos é a nossa sorte. (SARNEY, 1989)

O Presidente Sarney relaciona o regime político e o crescimento econômico para os países do continente. O Brasil expõe o argumento de que o crescimento é condição necessária para a estabilidade política regional. O presidente Sarney argumenta, na ONU, que quanto mais baixos são os índices sociais e maior a recessão econômica por que passava a América Latina, maior o potencial de desestabilização da democracia no continente. O presidente alerta para a

39 recessão que enfrentava a região, e a dificuldade de o Estado promover a consolidação democrática no cenário de pobreza e crise econômica.

O presidente Collor, de forma menos confrontacionista e mais atento às questões sub- regionais, retoma a preocupação com a garantia da democracia e do desenvolvimento econômico da região. Na assinatura do Tratado para a formação do Mercosul, o presidente reafirma a cooperação regional como um meio de potencializar o crescimento econômico e a consolidação do regime democrático:

Ao concluirmos este Tratado, reafirmamos a inabalável vontade política dos governos da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e do Brasil de somar esforços na tarefa solidária de construção de sociedades mais prósperas, mais justas e convictamente comprometidas com as liberdades essenciais e o regime democrático, sociedades atentas sempre à necessidade do desenvolvimento em harmonia com o meio ambiente. (COLLOR, 1991)

O binômio democracia-desenvolvimento também será interessante para as ações brasileiras em âmbito sub-regional. A estabilidade econômica era importante na transição democrática não só para o Brasil, mas também para todos os países da região. A diplomacia brasileira amplia o desenvolvimento para a região com esta noção. A democracia, na América Latina, estava sendo reconstruída paulatinamente, em 1984, na Argentina, e, em 1989, no Chile. O discurso sobre a política externa indicava que o novo regime político na região não poderia ser garantido enquanto não houvesse uma base sólida e permissiva ao desenvolvimento econômico destes Estados.

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