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Capítulo II – O caso de Cabo-Verde

3. A Democracia em Cabo Verde

Cabo verde foi um dos poucos casos onde a democratização foi bem-sucedida, na chamada terceira vaga democrática, onde muitos países africanos estiveram envolvidos, com especial atenção ao caso cabo-verdiano. Essa democratização começou em 1990, com as primeiras eleições a serem realizadas em 1991 em que o MPD (Movimento Para Democracia) saiu vencedor, embora com algumas contestações por parte do partido até então dominante (PAICV-Partido Africano da Independência de Cabo Verde) após a independência alcançada no dia 5 de Julho de 1975, mas que foi logo superado sem ter causado grandes mossas. De acordo com Meyns, P. (2002), Cabo Verde destaca-se, devido ao seu trajeto pós-colonial e a sua transição para a democracia não ter ocorrido num ambiente de tumultos/conflitos como aconteceu em Angola e Moçambique, mas também pela sua estrutura social e cultural, as características históricas e a escolha das instituições pós-colonial ajudaram muito nessa transição. Carlos Jalali, baseando-se na obra de Onésimo Silveira “A Democracia em Cabo Verde”, descreve que os cinco integrantes dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), iniciaram as suas transições democráticas em 1990, mas que Cabo Verde destacou-se devido à sua liberalização cívica e política, considerado estar no patamar da maioria das Democracias consolidadas, incluindo Portugal.

Cabo Verde e Guiné-Bissau na luta pela independência foram liderados pelo mesmo movimento (PAIGC) que tinha como principal líder Amílcar Cabral, contudo, esses dois países tiveram rumos diferentes. Cabo Verde teve a vantagem da luta armada para independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, só ter ocorrido na Guiné-Bissau, favorecendo assim a uma cultura de paz que até hoje ainda prevalece, o que não acontece no caso da Guiné-Bissau, propiciando a uma transição mais pacífica no caso cabo- verdiano. O caso que mais se assemelha ao processo de democratização de Cabo Verde entre os PALOP é o de São Tomé e Príncipe (onde também não houve luta armada pela independência), mas com maior dificuldade no caso de São Tome e Príncipe, devido à presença do «clientelismo e da corrupção» comparado com Cabo Verde. Formado pela ala cabo-verdiana do PAIGC, surgiu o PAICV, consequente da rutura que aconteceu dentro do

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PAIGC em 1980 na Guiné-Bissau, após a morte de Amílcar Cabral em 1973, considerado como vingança dos militares guineenses ao grupo do PAIGC composto por cabo-verdianos e que se deu o nome de «coup d´état», referenciando Meyns, P. (2002). Essa rutura desarticulou a unidade prevista por Amílcar Cabral como um antídoto contra as intenções dos colonialistas. Os líderes cabo-verdianos do PAIGC, constituído pelos ‘líderes históricos’ que participaram na luta armada e pelos ‘novos líderes’ que regressaram ao arquipélago depois de terem frequentado os estudos no exterior durante a luta armada, viram-se perante um impasse ideológico que originou a chamada crise de 1978-79 - «Trotskyite crisis» - descrito por Meyns, P. (2002), e que levou a que os ‘novos líderes’ abandonassem o PAIGC. Essa crise não deu origem a nenhum conflito violento.

Meyns, ainda esclarece que com a «liberalização seletiva» que teve o seu início em 1980, e com a reforma do sistema administrativo local levado a cabo pelo PAICV, o objetivo era aumentar a participação política e mantendo o uni-partidarismo. Mas que com a queda do socialismo na Europa oriental e a sua consequente reforma obrigou ao governo do PAICV a mudar a sua estratégia política, ao perceber que focando as relações com o Ocidente Europeu iria favorecer a «abertura política» e fortalecer a «competição democrática». Essa transição verificou-se num curto período de tempo, tendo início em Fevereiro de 1990, quando o concelho nacional do PAICV declarou a favor do multipartidarismo e concluída em Janeiro de 1991, com a realização das primeiras eleições parlamentares. A reforma da constituição, proibindo o uni-partidarismo e introduzindo o «multipartidarismo semipresidencialista», adotado em Setembro de 1990, foi a confirmação da democracia em Cabo Verde. No curto espaço de tempo em que se verificou essa transição, foi impossível uma organização efetiva da oposição, pelo facto de muitos dos principais críticos do governo do PAICV se encontrarem emigrados. Mas só que quando houve a mudança do uni-partidarismo para o multipartidarismo, muitos dos opositores que preparavam-se para atuar a nível local, passaram a atuar nível nacional. Nesse âmbito surgiu o MPD, que foi fundado pelos “dissidentes do PAIGC” originários da crise de 1978-79, escolhendo para liderar esse movimento Carlos Veiga, que conduziu o partido para a vitória nas eleições legislativas de 1991 com a maioria dos votos. O facto de em Cabo Verde não ter ocorrido nenhum conflito durante a fase de transição, como aconteceu noutros países africanos, ajudou na consolidação irreverente da democracia nesse arquipélago no meio do atlântico. Nessa perspetiva, Meyns caracteriza a transição

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política em Cabo Verde como sendo uma «transição pactada», ou seja, baseou-se no diálogo entre o governo e a oposição, sem que o governo eleito recorresse a meios impróprios e indesejados para impor essa transição.

A consolidação democrática em Cabo Verde deve muito a ausência da luta armada no país durante a independência, e também a forma como os atores políticos souberam lidar com as tensões políticas. Cabo Verde também desde a independência passou por conflitos ideológicos como em muitos outros países africanos que passaram pela luta armada durante a época da libertação. Mas os atores políticos na altura em Cabo Verde, conscientes das características do país e da sua vulnerabilidade, optaram por implementar uma «cultura política não violenta», que ajudou bastante na sua transição democrática pacífica. Segundo Jalali, C. (2005), não deixa de ser curioso o êxito da transição democrática cabo-verdiana em comparação com outros países africanos, nomeadamente os PALOP (muitas semelhanças no período colonizador), visto que a sua sobrevivência como país independente foi questionada não só pelos novos protagonistas que foram surgindo dos novos movimentos, mas também, pela própria elite política. As dificuldades suscitadas eram provenientes, sobretudo, da independência de um país «ultraperiférico» e inexperiente como era Cabo Verde. Mas fortuitamente não se concretizaram essas especulações, e é de notar, que Cabo Verde passado mais de 30 anos após a sua independência demonstra que conseguiu ultrapassar com sucesso as dificuldades que se especulava, dando sinais ainda de uma Democracia saudável e próspera. Jalali afirma mesmo, que a experiência cabo-verdiana pode e deve ser tido em conta para estudos comparativos na democratização em África.

Desde a transição democrática, a democracia em Cabo Verde não evidenciou alterações significativas das do contexto em que se verificou durante a transição. Isto significa que Cabo Verde continua ainda com princípios de uma cultura pacífica bem vincada, sendo que desde então não houve nenhum conflito armado ou violento no seio da comunidade cabo-verdiana, embora possa haver uma ou outra contestação política por parte dos partidos políticos devido a resultados eleitorais desfavoráveis, mas que devido a essa «cultura política não violenta» adotada no processo da transição democrática, faz com que essas contestações não passem de manifestações de insatisfação pela derrota sofrida, mas que nunca chegou nem mesmo a ser uma ameaça de um conflito violento. Relativamente à organização política, não houve grandes alterações, uma vez, que o

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sistema democrático que ainda se verifica em Cabo Verde é o sistema semipresidencialista – que visa a interdependência dos órgãos políticos, embora não sendo uma interdependência ambígua, porque o Presidente da República não tem responsabilidades perante o Governo e o parlamento, e nem o seu cargo é ameaçado pelos mesmos. Mas, mesmo assim, se estabelece como base essencial no funcionamento de um sistema democrático. As únicas alterações visíveis no plano político cabo-verdiano comparado com a época da transição democrática têm a ver com a organização e distribuição dos partidos políticos. Sabido que na época de transição haviam apenas dois partidos políticos (MPD e PAICV) na corrida para as eleições parlamentares de 1991, hoje em dia já existem mais partidos no sistema politico cabo-verdiano e com representação no parlamento, o que é normal na democracia contemporânea e que também reflete no aumento do plano representativo do povo, condição invocada devido ao aumento da densidade populacional e o consequente distanciamento ideológico que isso implica. Contudo, os maiores partidos continuam a ser os mesmos que protagonizaram a transição para a democracia, alternando o poder desde então. Atualmente no poder encontra-se o governo do PAICV liderado por José Maria Neves, tendo como a maior oposição o MPD. Embora o PAICV já se encontra no terceiro mandato consecutivo, a democracia em Cabo Verde continua sendo saudável e cívica, prova disso são os prémios internacionais pelo bom desempenho do governativo.