CAPÍTULO 5: POR UMA GESTÃO PARTICIPATIVA E INTERCULTURAL
5.2 A democracia participativa e intercultural
Neste diapasão, Santos assevera a premente necessidade de uma guinada na
concepção do que se entende por desenvolvimento de modo a desenvolver uma
alternativa que, a partir de uma perspectiva contra-hegemônica(SANTOS, 2008, p. 438-
439), prestigie sistemas culturais que possuam relacionamentos harmônicos com a
natureza e produzam uma maior qualidade e dignidade de vida.
Perquirir formas distintas/ alternativas na concepção de políticas energéticas,
mais antenadas com propostas de um desenvolvimento que respeite o patrimônio natural
e cultural da região amazônica se torna uma premissa fundamental de um
desenvolvimento alternativo e isto somente será possível ser houver: 1) o respeito às
atuais e Futuras Gerações e 2) o respeito aos ciclos da natureza, isto é, aos limites
ecossistêmicos do meio ambiente.
Para que se tenha êxito em tal empreitada, e considerando a
sociobiodiversidade brasileira, o aporte teórico de Geertz (2014) se mostra essencial
para o trato da questão. Clifford Geertz propõe uma aproximação entre a antropologia e
o direito como forma de iluminação recíproca de suas áreas nubladas. Referido autor
assevera que ante à diversidade interna e externa dos sistemas jurídicos-culturais, deve
ser realizado um ir e vir hermenêutico entre a antropologia e o direito, olhando
primeiramente e uma direção, depois na outra, a fim de formular as questões morais,
políticas e intelectuais que são importantes para ambos (GEERTZ, 2014, p. 171).
Geertz trabalha com o conceito de sensibilidade jurídica como sendo o
primeiro fator que merece a atenção daqueles cujo objetivo é falar de uma forma
comparativa sobre as bases culturais do direito, ou seja, da diversidade jurídica, pois
essas sensibilidades variam, não só em graus de definição, mas também no poder que
exercem sobre os processos da vida social (2014, p. 177).
A proposta comparativa apresentada pelo autor serve para dotar o direito de
uma perspectiva mais ampla e, ao mesmo tempo, mais real, propiciando ao estudo
jurídico diferentes óticas interpretativas.
Ora, os indígenas representam sistemas culturais distintos da sociedade
dominante e se a Carta Política brasileira de 1988 preconiza que é necessário o devido
respeito à sua cultura e aos seus modos de vida tradicional, cabe ao Brasil adotar este
enfoque comparativo e, através do exercício de uma democracia participativa e
intercultural, a criar o espaço necessário para que referidos povos sejam ouvidos e
participem efetivamente dos planos tracejados para a região amazônica.
Urge que a sociedade dita “moderna”, que trouxe massiva destruição cultural e
ambiental com pretensões homogeneizantes, se sensibilize com tradições culturais que
interpretam o planeta e a natureza como algo que possui limites, ou seja, que possui um
equilíbrio sistêmico a preservar e que veem, no relacionamento social, um atuar
cooperativo e construtivo com o ritmo natural. Referida sensibilidade é característica
das populações tradicionais que habitam a Amazônia: índios, seringueiros, ribeirinhos,
quilombolas, dentre outros. A cosmovisão indígena, é dizer, se entendida em seus
devidos termos, pode ajudar a humanidade a conduzir suas relações sociais produtivas
de forma harmoniosa e simbiótica com os ciclos naturais.
Um enfoque comparativo na concepção do que venha a ser o direito, como o
realizado por Geertz, passaria a ser, nas palavras do autor, uma tentativa de formular
características de um tipo de sensibilidade, em termos de pressuposições, preocupações,
e estruturas de ação características de outras perspectivas através de uma tradução
cultural (2014, p. 221).
Essa tarefa seria um empreendimento imperfeito, aproximado, e improvisado
(GEERTZ, 2014), no entanto, necessário se quisermos ampliar nossos horizontes em
um contexto de pluralismo cultural preconizado tanto em sede constitucional quanto
internacional.
Segundo o antropólogo, para o direito as dispersões e descontinuidades da vida
moderna são realidades que, de alguma maneira, terão que compreender, se quiserem
manter suas próprias forças. No caso do direito, a dificuldade não é maior nem menor
do que aquela que terá que ser enfrentada por qualquer outra instituição cultural: o
direito fará progressos se puder contornar a dissensão – “guerra, conflitos civis e
revoluções” e, se isso não for possível, não progredirá (GEERTZ, 2014, p. 222).
O mundo é um lugar variado e muito pode ser ganho se confrontarmos essa
grande verdade ao invés de desejar que ela simplesmente desapareça em um nevoeiro de
generalizações fáceis e falsos confortos; um fim trágico seria imaginar que a variedade
não existe, ou esperar, simplesmente, que ela desaparecesse (GEERTZ, 2014, p. 222).
O enfoque comparativo de Geertz ressalta a possibilidade de utilização do
direito como um saber social capaz integrar os distintos sistemas culturais que
compõem a tessitura da sociedade brasileira: nada mais necessário para o momento
atual em que vemos culturas ancestrais serem postas à prova ante a necessidade
energética de um modelo produtivo altamente refratário no que diz respeitos às questões
ambientais, sociais e econômicas e que enxerga na Amazônia apenas e tão somente uma
fronteira de commodities.
Nesta trilha, o pensamento de Boaventura de Souza Santos (2008) possui
semelhança com a tradução cultural proposta por Geertz. Santos (2008) propõe uma
reconstrução intercultural dos direitos humanos como projeto emancipatório em
oposição à política (neo)liberal hegemônica. Santos nomeia essa reconstrução
intercultural de hermenêutica diatópica.
A hermenêutica diatópicaproposta Santos (2008) se baseia na ideia de que os
topoi
142de um dada cultura, por mais fortes que sejam, são tão incompletos quanto a
própria cultura a que pertencem. Tal incompletude não é visível a partir do interior
dessa cultura, uma vez que a aspiração à totalidade induz a que se tome a parte pelo
todo. O objetivo da hermenêutica diatópica não é, porém, atingir a completude – um
objetivo intangível – mas, pelo contrário, ampliar ao máximo a consciência de
incompletude mútua através de um diálogo que se desenrola, por assim dizer, com um
pé numa cultura e outro, noutra. Nisto reside seu caráter diatópico.
Controvérsias tais quais a da polêmica implementação da UHE de Belo Monte
somente poderiam ser equacionadas por um debate político-jurídico intercultural e
participativo e, as consultas e consentimentos indígenas
143, se mostram como
instrumento factível para a consecução de tal mister sob pena de inconstitucionalidade/
ilegalidade do empreendimento como um todo por um insanável vício de origem tal
qual preconizado na primeira das ações civis públicas analisadas nesta pesquisa (item
3.1).
Não se nega que a questão energética é premente, entretanto, cabe refletir para
quais fins este modelo de produção energética está sendo materializado pois a
manutenção de um modelo desenvolvimentista que aniquila sistemas culturais e naturais
altamente integrados ao ciclo hidrológico e climático do ecossistema amazônico (e
mundial) não merece suporte. A questão se torna mais delicada quando se tem notícias
142
De origem grega referida expressão significa o ponto comum de partida de uma argumentação.
143
Destacamos, neste ponto, que o povo Munduruku, aflito pela possibilidade de instalação de uma grande barragem com impactos em suas terras, estabeleceu um protocolo próprio para fins de uma eventual consulta a ser formulada pelo Estado Brasileiro. Para conferir inteiro teor do protocolo:
http://www.consultaprevia.org/files/biblioteca/fi_name_archivo.326.pdf . Acesso em 17/11/2016 às 11hs13.
da possibilidade de implementação, na região, de um projeto minerário de grande porte
tal como o de Belo Sun.
Necessário, portanto, como forma de prestigiar o pluralismo preconizado pela
nossa Lei Maior, trazer à reflexão jurídica a noção do lugar na moldura do
desenvolvimento, à medida em que ela possibilita a consideração das diferentes práticas
sociais dos povos e comunidades tradicionais permitindo incorporar as demandas de
auto atribuição e de autonomia política no conjunto das decisões de como se apropria,
se usa e se dispõe do conjunto de recursos naturais e da terra, consoante os
conhecimentos tradicionais (SHIRAISHI, 2014, p. 301). Em um contexto de pluralismo
é recomendável aprimorar as reflexões em torno da ideia de desenvolvimento tendente à
erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades regionais (art.
3˚, III da CF) (SHIRAISHI, 2014).
Deve-se pensar o federalismo brasileiro a partir da dimensão regional
valorizando o federalismo regional de modo a rechaçar políticas neocolonialistas
(internas ou externas) com a inclusão dos povos indígenas no debate político, quando os
atos administrativos ou legislativos estatais possam, de alguma forma, impactar no uso e
gozo de suas terras e recursos naturais. Isto no intuito firme de encontrar alternativas
factíveis para um desenvolvimento amazônico endógeno que tenha por foco central seu
povo e seus recursos naturais tão essenciais para manutenção da vida no planeta.
Neste contexto, não podemos olvidar dos aportes teóricos de Amartya Sen, que
vê no desenvolvimento um processo integrado de expansão de liberdades e capacidades.
Veja-se trecho de seu pensamento:
Os fins e os meios do desenvolvimento requerem análise e exame minuciosos para uma compreensão mais plena do processo de desenvolvimento; é sem dúvida inadequado adotar como nosso objetivo apenas a maximização da renda ou da riqueza, que é, como observou Aristóteles, “meramente útil e em proveito de alguma outra coisa”. Pela mesma razão, o crescimento econômico não pode ser sensatamente ser considerado um fim em si mesmo. O desenvolvimento tem de estar relacionado sobretudo com a melhora da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos. Expandir as liberdades que temos razão para valorizar não só torna nossa vida mais rica e mais desimpedida, mas também permite que sejamos seres sociais mais completos, pondo em prática nossas volições, interagindo com o mundo em que vivemos e influenciando esse mundo. (SEN, 2010, p. 29) (negrito e sublinhado nosso).