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A Descoberta da Alteridade

No documento O CORPO E A PALAVRA (páginas 113-130)

Capítulo II: O CORPO DA PALAVRA

II. 3. A Descoberta da Alteridade

Que posso eu saber de um ser que não aparecesse?247

Michel HENRY

O mundo é ‘alter’ da consciência, receptivo à palavra de uma consciência, a fazer o apelo de um primeiro passo para a constituição de uma alteridade, na abrangência de uma circularidade envolvente e recheada de significação. A consciência devido à sua genuína natureza constitutiva, tem a possibilidade de se reconhecer a si mesmo enquanto tal, de reconhecer o mundo, de reconhecer uma intencionalidade que a orienta para o mundo, de reconhecer outras consciências no mundo. Ganha assim em dimensão a alteridade própria desta dialéctica significativa. Eu não vivo a mundaneidade de um modo isolado. A minha vivencialidade, de que a palavra é porta-voz personalizada, decorre no mundo. Se através do corpo, esse organismo estruturalmente operante como um todo constante, como uma unidade de

significação248, eu me faço visível mediante os registos objectivos que a minha

inserção e acção inscrevem e se dão a (re)conhecer no tecido mundano, através da

 

247 HENRY, Michel, Phénoménologie Matérielle, Paris, PUF, 1990, p. 7 La vie n'est donc pas quelque chose, par exemple l’objet de La biologie, mais le principe de toute chose. C'est une vie

phénoménologique en ce sens radical que la vie définit l'essence de la phénoménalité pure et par suite de l'être pour autant que l’être est coextensif au phénomène et se fonde sur lui. Car que puis-je savoir d'un être qui n'apparaitrait pas ? Parce que la vie est au cœur de l’être sa phénoménalisation originelle et ainsi ce qui le fait être, il faut renverser la hiérarchie traditionnelle qui subordonne la première au second sous prétexte qu'il faut bien que la vie elle-même « soit», en sorte que le vivant ne délimiterait qu'une région de l’être, une ontologie régionale.”

       

palavra faço-me igualmente visível. Sou um todo significativo e auto-consciente e

não uma coisa que repousa em si249. De um lado, a minha existência, do outro, a

existência mundana. A relação entre ambos torna-os cúmplices numa envolvência que, de certo modo, os condena ao diálogo e à inter-dependência. Mas exactamente porque o corpo é portador de consciência e esta se revela como criadora de palavra portadora, cabe a esta fazer desabrochar a descoberta e o sentido da alteridade do

outro 250, pois a mundaneidade revela a minha existência e a existência de outras

existências estranhas251. São outros ‘eu’ que partilham o espaço mundano e

interceptam únicos e diferentes modos de o vivenciarem. Tal como eu, vão expressar essa integração e fazer da palavra o meio de comunicação e partilha. São alteridades que se vão destacando do fundo vivo da complexidade existencial. Porém, a existência do outro altera o mundo, o meu mundo. Não sendo eu uma coisa, um objecto mundano, embora tenha corpo, e não sendo eu uma ideia, embora tenha consciência, encontro na alteridade a perturbação de uma privacidade mundana,

entre vividos egológicos 252, que supunha só minha. E essa privacidade vai ser

destruída não por uma, mas por essas inúmeras alteridades que esquartejam o bolo mundano em vivências múltiplas. Como cada um tem voz e expressão, e como cada

  249

S.C., p. 172

250 LYOTARD, Jean-François, A Fenomenologia, Lisboa, Ed.70, 2008, p.41/42 “A alteridade do outro distingue-se da transcendência simples da coisa pelo facto de o outro ser para si próprio um Eu e de a sua unidade não estar na minha percepção, mas nele próprio; por outras palavras, o outro é um Eu puro que de nada carece para existir, é uma existência absoluta e um ponto de partida radical para si mesmo, como eu o sou para mim.”

251

S.C., p.137 “ La supposition d'une conscience étrangère ramène aussitôt le monde qui m'est donné à la condition de spectacle privé, le monde se brise en une multiplicité de « représentations du monde» et ne peut plus être que le sens qu'elles ont en commun”

252 LYOTARD, Jean-François, o.c., p.44

expressão é expressão de uma representação mundana, daí resulta uma multiplicidade de representações do mundo. Sendo este uno e palco onde todas as alteridades actuam, não pode, por isso mesmo, deixar de manifestar e dar a conhecer essa dialéctica. A aparente desorganização dos múltiplos viver, esconde a intencionalidade que está presente em todas as alteridades que partilham comigo uma expressão própria. E essa intencionalidade pode apresentar-se em diferentes níveis: diluída, presente, ausente.

No primeiro caso, a presença do outro, dos outros, é uma presença que roça a indiferença e se ela se faz no espaço/tempo comum, de comum não possui mais nada. É provisória, está de passagem, vocacionada para ser leve e volátil.

No segundo caso, a presença ganha toda a realidade e não há vislumbres de superficialidade. Pelo contrário, há sempre a possibilidade de se escavar e procurar traços mais profundos para lá do visível. A presença efectiva torna essa premência, a existir, viável.

No terceiro caso, a ausência já é significativa de uma presença que, quer se deseje ou não, não erradica o que a torna única e dependente de uma memória que é comum e partilhada. A irrealidade da sua presença não desfaz a presença da sua realidade, embora esteja remetida para um domínio mnésico.

A existência dá-se e percorre a mundaneidade experienciando-a de um modo próprio e mediante uma natureza pessoal. Existir é criar esse laço tão próprio com o mundo que se entrecruzam a respiração de cada um, e onde a existência pessoal se cruza com a mundaneidade de outras existências. E o envolvimento consequente permite passar de um plano da individualidade para a pluralidade, fazendo presentes a percepção, a consciência, o conceito, a palavra. Eu sou simultaneamente percepcionante e percepcionado, possuo capacidades de conhecer o mundo e de a ele me dar a conhecer, bem como às outras identidades diferentes mundanas. E se esse conhecimento começa de um modo perceptivo, alarga-se à abrangência de uma consciência e amplia-se no horizonte intocável e irrestrito da palavra. Mesmo que com vislumbres de hesitação, a consciência lança-se tal ave que inicia o processo de

       

voo a partir do ninho seguro e acolhedor, para a vivencialidade exterior ainda estranha e para as relações alteres ainda desconhecidas, porque de teor imprevisível e inesperado. É a palavra que põe efectivamente a descoberto a realidade presencial e vivencial de toda a alteridade. Situadas no espaço/tempo objectivos, partilhando existências que percorrem e traçam sulcos no terreno de uma mundaneidade aberta, identidade e alteridades veiculam pela palavra própria diferentes modos de conceber e viver o mundo. Desse modo, enriquecendo-se conceptualmente nessa partilha e mediante a intersubjectividade resultante, transpõem-se para lá da mundaneidade dada. Essa intersubjectividade feita de vivências e significações, e realidades que o mundo vivencial dá a desvendar a cada um, encontra na palavra o meio de revelação e despoleta a consequente partilha. Tal como eu não posso perceptivamente ver, de um modo directo e natural, partes de mim, do meu corpo, como por exemplo a cor dos meus olhos que os outros vêm, do mesmo modo tenho na palavra deles a possibilidade de conhecer parcelas de mundo a que eu não teria acesso. A palavra desempenha assim o papel de uma password, mas partilhada, que me abre ao privilégio de obter conhecimento de vivencialidades alheias e diferentes. É que o

mundo vivido é diferente do mundo conhecido253. Num primeiro plano, eu vivo no

corpo e com o corpo a agitação e o inesperado da mundaneidade, mas um segundo

plano é virtual254, é um domínio do conceito, da significação, do sentido. E se em

ambos os casos eu uso o mesmo pronome pessoal – ‘eu’ vivo, ‘eu’ penso – a realidade contextual é bem diferente.

  253

S.C., p.232

254

Idem, p. 234 “… je puis, à partir du spectacle actuel qui m'est donné, me représenter dans le mode du virtuel, c'est-à-dire comme pures significations, certains phénomènes rétiniens et cérébraux que je localise dans une image virtuelle de mon corps. Le fait que le spectateur et moi-même sommes liés l'un et l’autre à notre corps revient en somme à ceci, que ce qui peut m'être donné dans le mode de l’actualité, comme une perspective concrète, ne lui est donné que dans le mode de la virtualité, comme une signification, et inversement.”

       

Com efeito, toda a identidade emerge no mundo mediante o corpo próprio, mas é no corpo da palavra que a comunicabilidade se dá, se revelam as alteridades,

se desenrola o processo do entrelaçamento de significações255. Pela palavra é

possível tornar comum o que é pessoal e tornar próximo o que é diferente. Essa fantástica mais valia possibilita que a alteridade ganhe expressão e a identidade amplie a consciência. Se a percepção pode documentar e emprestar o necessário

índice de existência real256 aos conteúdos da palavra comunicada, esta documenta e

enraíza as relações intersubjectivas. Isto não é sinónimo, todavia, de que qualquer e toda a alteridade se dá a conhecer em absoluto. A palavra que estabelece a ligação é palavra de existência mas não é totalmente reveladora nem será capaz de espelhar integralmente a natureza e as nuances das vivências próprias, porque encontra limites na impossibilidade de eu conhecer o mundo e os outros por inteiro. Toda a alteridade contém dimensões próprias que são insondáveis ao conhecimento. Isso vale para os outros. E para mim mesmo. Isso vale para o mundo físico que se percepciona, e vale para o mundo da consciência que atribui significado. Isso vale para a minha experiencialidade comunicada e vale para a experiencialidade dos outros que me a comunicam. O que significa que a palavra não diz tudo, não conta tudo, não revela tudo, não compreende tudo. Mas diz, conta, revela e compreende. Pode ser incompleta no complemento directo ou indirecto, mas predica, não deixa de o fazer e possibilitar, porque me permite o contacto de alteridades, a comunicabilidade incontornável e a troca de informações. A experiencialidade que cada um vive é assim posta em comum. E se há aspectos que possam nem sempre possuir portabilidade e desse modo ser impossibilitados de serem veiculados pela palavra, algo de comum se gere, algo de comum se partilha e algo se descobre. No outro, nos outros, nas vivencialidades alheias. Desdobra-se então a minha

  255

S.C., p. 234“ Mon être psycho-physique total (c'est-à-dire l'expérience que j'ai de moi-même, celle que les autres ont de moi et les connaissances scientifiques qu'ils appliquent et que j'applique à la connaissance de moi-même) est en somme un entrelacement de significations tel que, quand certaines d'entre elles sont perçues et passent à l'actualité, les autres ne sont que virtuellement visées.”

256

       

consciência do mundo abrindo-se a novas dimensões, explorando afectividades, balançando-se a novas perspectivas. Nesse contexto, compreendo-me melhor a mim mesmo, pela compreensão das alteridades em que esbarro e em cuja esfera me movo. E se a palavra me exprime então o que os outros vivem, eu pressuponho que

por trás dessas vivências, ou decorrendo delas, há uma certa maneira de pensar257,

tal como acontece comigo. E a minha existencialidade que se cruza assim com a dos

outros, dá lugar a uma coexistência258 que relaciona e une. Isso não significa que se

elimina a diferença, por mais que ela se esbata ou aparentemente se esqueça. Também não significa que compreender seja sinónimo de viver. Não há uma colagem perfeita entre ambos. Mas , de facto, estou virado para fora de mim e situo- me, desse modo, num mundo, num tempo, num contexto histórico, numa dimensionalidade de vivências culturais alteres. E são as outras consciências que colaboram para que eu me torne no que sou. Pela palavra dão-se a conhecer a mim e eu a elas. E se é o corpo que solta a palavra, esta acaba por se constituir como corpo: corpo de expressão, corpo que veicula um pensamento e é porta-voz de vivências.

A palavra encontra na alteridade o pretexto para se manifestar e dar visibilidade ao pensamento. Mas essa sua exposição não é imediata, é discreta. A

maravilha da linguagem é que ela se faz esquecer.259 E se eu posso falar assim

  257

S.C., p. 239“…le comportement d'autrui exprime une certaine manière d'exister avant de signifier une certaine manière de penser. Et quand ce comportement s'adresse à moi, comme il arrive dans le dialogue, et se saisit de mes pensées pour y répondre, — ou plus simplement quand des « objets culturels » qui tombent sous mon regard s'ajustent soudain à mes pouvoirs, éveillent mes intentions et se font « comprendre » de moi, — je suis alors entraîné dans une coexistence dont je ne suis pas l'unique constituant et qui fonde le phénomène de la nature sociale comme l'expérience perceptive fonde celui de la nature physique.”

258

Idem, p.239

259

P.P., p. “La merveille du langage est qu'il se fait oublier : je suis des yeux Les lignes sur le palper, à partir du moment ou je suis pris par ce qu'elles signifient, je ne les vois plus. Le papier, les lettres sur le papier, mes yeux et mon corps ne sont là que comme le minimum de mise en scène nécessaire à quelque

        como a lampa eléctrica se pode tornar incandescente 260, o que ganha notoriedade

não é o modo de expressão, é o que é exprimido. É aí que se revela o seu segredo, nessa capacidade que não é paisagem inóspita sem vislumbre de fonte de bem-vinda criatividade. Muito pelo contrário, dá lugar a novas possibilidades inusitadas, abre dimensões inesperadas, faz do dito mais que dito, introduz no esperado porque habitual o não óbvio e surpreendente. Mas não está sozinha nessa tarefa salomónica, tem um aliado: o outro, que dá sentido à comunicação, que completa a relação. Uma

relação que se fundeia num corpo que se levanta em direcção ao mundo261, ao outro,

que é espicaçada pelas solicitações do mundo, que radica na natureza de todo o ser como ser para o mundo, que permite a descoberta de insondáveis e múltiplas modulações que a existência orquestra.

Assim se dá a descoberta da alteridade. A partir do meu corpo próprio que me

proporciona uma experiência instantânea, singular, plena262, eu lanço-me para o

mundo, o meio que me integra na sua dimensionalidade. E apesar de, como já vimos, eu não ser uma coisa no mundo, a minha própria substância foge de mim

pelo interior e alguma intenção se desenha sempre263, para o mundo eu canalizo a

minha expressividade, projecto as minhas significações e interpreto as que ele me envia, pois é complemento exterior, alter, ao meu pensamento, à minha palavra.

 

opération invisible. L'expression s’efface devant l’exprimé, et c'est pourquoi son rôle médiateur peut passer inaperçu…”

260 P.P., p. 204

261

Idem, p. 90

262

Idem, p. 98 “…il faut que mon corps soit saisi non seulement dans une expérience instantanée, singulière, pleine, mais encore sous un aspect de généralité et comme un être impersonnel.”

263

Idem, p.192/193 “Je ne deviens jamais tout à fait une chose dans le monde, il me manque toujours la plénitude de l’existence comme chose, ma propre substance s’enfuit de moi par l'intérieur et quelque intention se dessine toujours.”

       

Sem expressão, pensamento e palavra esconder-se-iam do mundo e abortariam a descoberta de toda a alteridade. Eu não sou anónimo para o contexto mundano em que mergulho e me circunscreve, exactamente porque tenho a palavra para me fazer representar e servir de intermediário. É ela que dá consistência sólida a essa inserção e me faz (re)conhecer num palco mundano, sempre provisório e nunca definitivo. Apesar de eu ser autónomo não sou independente, porque incompleto e necessitado sempre do mundo, dos outros. É isso que me justifica como ser para o mundo, que me caracteriza como um ser singular que se compromete na mundaneidade, que se reconhece quando a realidade exterior é estável, e se procura quando é instável.

Porém, o mundo não é linear na sua apresentação, possui uma dupla face na sua estruturada natureza. Por um lado, parece sólido, e (a)parece-nos susceptível de quantificação rigorosa, matemática, científica. Por outro, surpreende-nos pelo seu borbulhar espontâneo e atormenta-nos com a hipótese de não termos à mão a segurança de uma bóia para nos socorrermos do seu acontecer imprevisível. Por um lado, traça-nos uma linha directa entre causas e seus efeitos esperados e previsíveis, e demonstra-nos na perfeição um princípio de causalidade rigoroso. Por outro, ignora esse processo e lança-nos borda fora da proa da certeza. É de uma natureza aparentemente inconciliável a que se nos depara neste jogo alter que me provoca, incita e me convida a nele participar. Porque reconheça-se, o verdadeiro jogador

não é o jogador, mas o jogo ele mesmo…É o jogo que mantém o jogador sob o charme, que o prende nas suas redes, que o retém no jogo.264

Apesar disso, o mundo que me viu nascer, bem como aos outros, para o destino dessa relação, e com eles igualmente eu o vi nascer, ele já possui um nexo integrador natural e cabe-me ser portador da minha própria realidade pessoal que uma inserção vivencial irá revelar e fomentar. O mesmo acontece com toda a consciência que emerge, os outros são eles mesmos portadores de uma

 

       

existencialidade própria, o que confere à partilha múltiplos sentidos e desenvolver- se-á experiencialmente rica, decorrente de haver lugar a trocas e o mundo, que se constrói a partir daí, ser um mundo de mundos. Entre imanências que se transcendem e transcendências propícias a se tornarem imanentes, a minha consciência intencional ganha acabamento, completa-se, enriquece-se no seu próprio fluir de natureza pensante, pois eu sinto-me votado para um fluxo inesgotável de que

eu não posso pensar nem o princípio nem o fim, visto que sou ainda eu vivo que o penso e que assim a minha vida se precede e se sobrevive sempre265.

O mundo é movimento. Os outros presença. Um e outros constantes, mesmo que aparentemente ausentes, numa dimensão humana que decorre de toda esta dialéctica eu-outro, onde as vivencialidades ganham corpo de presença e se sedimentam no tempo. Nesse plano se desenvolvem as possibilidades relacionais com o mundo e os outros, bem como é nesse plano que se podem testemunhar as minhas opções, as minhas decisões, se situam as minhas determinações e eu ganho consistência nesse jogo de entrechoques com outras vivencialidades. Assim construo a minha própria história e alicerço o meu destino. Sem a palavra todo esse quadro se pintaria baço, ou melhor, nem seria quadro ilustrativo do meu ser, da minha consciência, do meu pensamento, nem o meu corpo teria oportunidade de se manifestar para lá do campo neurovegetativo e instintivo. Ela é possível porque eu existo no mundo, para o mundo, para as alteridades que o habitam e que existem para mim enquanto pólos exteriores de uma coexistência comum irrecusável.

 

265 P.P., p. 418 “Installé dans la vie, adossé à ma nature pensante, fiché dans ce champ transcendantal qui s'est ouvert des ma première perception et dans lequel toute absence n'est que l’envers d'une présence, tout silence une modalité de l’être sonore, j'ai une sorte d'ubiquité et d'éternité de principe, je me sens voué à un flux de vle inépuisable dont je ne puis penser ni le commencement ni la fin, puisque c'est encore moi vivant qui les pense, et qu'ainsi ma vle se précède et se survit toujours.”

       

Enquanto inserida no tecido social mundano, a palavra expressa pensamento e faz germinar todo um processo que se desencadeia devido a essa sua mesma natureza.

Enquanto portadora de pensamento que questiona, a palavra nos outros origina pensamentos que questionam.

Enquanto portadora de modos pessoais de pensar e ver o mundo, assim o resultado se reflecte em todos os meus pensamentos e cada palavra que se diz diante

de mim faz então germinar questões, ideias, reagrupa e reorganiza o panorama mental e oferece-se com uma fisionomia precisa.266

Desse modo visível a palavra conduz um pensamento à visibilidade mundana e, desse modo, a consciência projecta-se no mundo e aí realiza o seu destino. A palavra dá voz a essa incontornável necessidade e encontra outras vozes. A palavra não é um acto isolado. Não existe individualmente. Só tem realidade partilhada, o que implica a existência de interlocutor. De que adiantaria ser, se não reconhecida como tal? O reconhecimento existe no contributo de uma alter-existência, a realidade presencial do outro. A linguagem é pôr-em-comum algo gestualizado, dito, proferido. Sem interlocutor não será compreendida, não será comunicada, o gesto não será interpretado e toda a recuperação inexistente, porque não entendida. A palavra, lançada no mar da comunicação se não for tomada, fica a boiar numa expectativa instável, e eventualmente mergulha, afoga-se e perde-se na imensidão do incomunicável. Mas, na medida em que o interlocutor compreende o que é

 

266 P.P., p. 151 “En fait notre acquis disponible exprime à chaque moment l’énergie de notre conscience présente. Tantôt elle s'affaiblit, comme dans la fatigue, et alors mon « monde » de pensée s'appauvrit et se

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