CAPÍTULO III : O PROJETO EM AÇÃO
4.5 A descoberta da importância de uma comunidade
Das lições dessa experiência, uma das mais significativas foi a descoberta da importância de constituir comunidades. Comunidades afetivas, colaborativas. Recorro a King e Brownell (1976, p. 68 e ss.) que ressaltam uma série de dimensões do conhecimento nas disciplinas. E gostaria de destacar o que ele apresenta em último lugar.
- Um campo de conhecimento é, antes de mais nada, uma comunidade de especialistas e professores que compartilham uma parcela do saber ou um determinado discurso intelectual, com a preocupação de realizar contribuições para o mesmo. Não estamos frente a uma visão acabada ou frente
à crença de estar diante de algo dado e monolítico, mas, pelo contrário, frente a uma comunidade que tem dimensões internas e onde seus membros realizam tarefas que diferem entre si: uns se dedicam aos fundamentos, outros contribuem com novos elementos que a fazem crescer, outros discutem sua validade, outros criticam seus métodos e muitos outros se dedicam a seu ensino. O domínio do campo, por parte da comunidade, implica todo um espectro que vai desde uma minoria que cria novas direções no desenvolvimento do campo, outras que trazem contribuições importantes e uma grande maioria que ensina em instituições escolares. Nessa comunidade com diferentes encargos se produzem desconexões e falta de comunicação importantes. Não é fácil encontrar referências nos currículos a esse caráter vivo, histórico e nem sempre coerente dos saberes como campos de atividade humana.
- Uma área de conhecimento é também uma certa capacidade de
criação humana, dentro de um determinado território especializado ou em facetas
fronteiriças entre vários deles, cuja dinâmica se mantém seguindo certos princípios metodológicos, mas que também se alimenta de impulsos imaginativos súbitos e oportunos.
- Uma disciplina ou campo especializado de conhecimento é um
domínio, um território, mais ou menos delimitado, com fronteiras permeáveis, com
uma certa visão especializada e, em muitos casos, egocêntrica sobre a realidade, com um determinado prestígio entre outros domínios, com conflitos internos e interterritoriais também, com uma determinada capacidade de desenvolvimento num determinado momento histórico, etc. O papel de cada um deles é variável na história e suas funções diversas.
- Um campo de conhecimento é uma acumulação de tradição, tem uma história. É um discurso laborioso elaborado no tempo através do qual acumulou usos e tradições, acertos e erros, tendo passado por uma série de etapas evolutivas, nas quais sofreu cortes, iluminou novos campos de saber, etc. O que esse campo é num dado momento se explica por uma dinâmica histórica afetada múltiplos fatos, contribuições e circunstâncias diversas. A relativização histórica do saber costuma estar ausente nas visões escolares do mesmo.
- Um âmbito de saber está composto por uma determinada estrutura
conceitual, formado por idéias básicas, hipóteses, conceitos, princípios,
generalizações aceitas como válidas num momento de seu desenvolvimento. São os que Schwab (1973, p.4) chamou de estruturas substanciais, que determinam as perguntas que podemos nos colocar, reclamam os dados que queremos encontrar e que caminhos de indagação seguiremos, condicionando, assim, o conhecimento que se produz. Algumas dessas estruturas substanciais são vizinhas do conhecimento não demasiado especializado (órgão e função em fisiologia, por exemplo) e outras exigem níveis de compreensão e domínio mais elevados ( partícula e onda na estrutura atômica ). São estruturas que evoluem, são limitadas, incompletas, etc., embora no ensino, em muitos casos, apareçam como elementos estáticos para memorizar.
- Uma área de saber é uma forma de indagar, tem uma estrutura
sintática. O campo é composto de uma série de conceitos básicos ligados por
relações entre eles. Se os diferentes campos de conhecimentos ou disciplinas perseguem o conhecimento através de estruturas substanciais diferentes, haverá também diferenças quanto à forma como cada uma delas se desenvolve e como verifica o próprio conhecimento (Schwab, 1973, p.7). A menos que imponhamos o conhecimento dado como algo acabado e indiscutível, é fundamental, na educação, trabalhar estas estruturas sintáticas no nível que se possa em cada caso.
- Os campos de saber supõem linguagens e sistemas de símbolos especializados, que criam mundos de significações próprias, em diferentes graus segundo as disciplinas de que se trate, com a facilitação conseqüente da comunicação precisa que esses códigos permitem e com a dificuldade de aproximar o conhecimento aos que não o possuem. Boa parte de dificuldades no ensino provém de se pretender aproximar esses significados precisos à linguagem comum dos alunos, para que sua aquisição não resulte numa aprendizagem de memória.
- As diferentes esferas do saber constituem uma herança, ou acumulação de informações e contribuições diversas materializadas em tipos diversos de suportes que representam as fontes essenciais para a continuidade
do próprio campo. Sua acessibilidade, os meios de comunicá-la aos demais são fundamentais para o desenvolvimento do saber e para aproximar os estudantes às sua origens. Em cada campo, diferem em sua materialidade, localização, forma de obtê-las, etc. Relacioná-las aos alunos com variedade de fontes, iniciá- los em seu manejo e tratamento é importante para sua educação e sua vida fora das aulas.
- Uma disciplina é, inclusive, um ambiente afetivo que não se
esgota na experiência intelectual. Expressa valores, formas de conceber os problemas humanos e sociais, um tipo de beleza; tem ou poderia despertar um certo dinamismo emocional, possui também uma dimensão estética. Esse componente é inerente à criação do saber e deveria ser considerado nas experiências para seu ensino, cultivando atitudes, etc.
Considero que essa formação aqui descrita e analisada construiu esse ambiente afetivo que para mim, constituiu uma grande aprendizagem.
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