Cap 01. O brincar em Freud
2.3 A descoberta do brincar
A sistematização da técnica do brincar em Klein começou a ser realizada a partir de 1926 com uma série de artigos que aparecem em Princípios psicológicos da análise de crianças
pequenas (1926) e Simpósio sobre análise de crianças (1927). Neste período o trabalho de
Melanie Klein está apoiado na análise de diversas crianças que surgem como ilustrações clínicas dispersas nos artigos. São elas Erna, Trude, Rita e George.
A retomada da questão sobre a aquisição do sentido de realidade e sua relação com a onipotência ganha nova precisão. O ponto fundamental, critério para a adaptação à realidade, está relacionado à tolerância à frustração que resultam da situação edipiana. Klein aponta como um dos objetivos da análise de crianças a conquista de um sentido de realidade que pode ser veementemente recusado pela criança sob formas distintas daquelas apresentadas pela neurose, representadas até mesmo pelo excesso de adaptação e docilidade. A expressão da angústia em idades muito pequenas, como ocorre, por exemplo, no pavor noturno, é tomada como um indício precoce da situação edipiana e que como, sabemos, será considerada por Klein como presente desde o início da vida psíquica.
Após seis anos do uso da técnica do brincar na análise de crianças Klein já apresenta um fragmento de caso que coloca a brincadeira no centro da narrativa. Trata-se de Trude, que na idade de quatro anos e três meses, brincava de ser noite na sessão analítica e obrigava tanto ela quanto Klein a dormir. A menininha saia do seu “quarto” e ameaçava cortar a garganta da analista, atira-la no quintal, queima-la ou entrega-la ao policial, tentando amarrar seus pés e suas mãos ao dizer que fazia “po-kaki-kucki” (que ela traduz do alemão como sendo o correspondente a nádegas, fezes e olhar). Batia na barriga da analista procurando a “caca”,
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equivalente simbólico de crianças, dizendo que as retiraria e deixaria pobre. Na sequência do ataque ela pegava repetidamente as almofadas (que para ela eram crianças), escondia-se atrás do sofá, onde se agachou com medo, se cobriu, chupou o dedo e fez pipi. Melanie Klein vai associar a cena ao pavor noturno que a levava até a cama dos pais, sem saber por quê. Depois de alguns meses, quando sua irmã nasceu, análise conseguiu revelar o conteúdo daquela ansiedade: o desejo de roubar os filhos da mãe, matá-la e tomar seu lugar na relação sexual com o pai. A cena atesta duas hipóteses kleinianas fundamentais: a primeira que coloca o sentimento de culpa precoce e antecipa o édipo na cronologia do desenvolvimento psíquico e a segunda que atribuiu ao brincar a condição técnica que favorecerá o acesso a estes sentimentos muito iniciais da vida psíquica.
Através da brincadeira Klein observa a existência de uma mãe introjetada com a qual a criança se identifica e que exerce uma influência direta sobre a vida mental, assumindo autonomia no psiquismo em relação à mãe real.
Aos dois anos e quatro meses, quando brincava de boneca, costumava afirmar que não era a mãe da boneca. A análise revelou que ela não ousava fingir que era a mãe porque a boneca em forma de bebê simbolizava, entre outras coisas, o irmãozinho que quisera tirar da mãe já durante a gravidez. Neste caso, a proibição do desejo infantil não vinha mais da mãe real, mas de uma mãe introjetada, cujo papel a menina representava diante de mim de diversas maneiras e que exercia sobre ela uma influência mais severa e cruel do que a mãe real.(Klein, 1926, p. 156)
A técnica consistia em descarregar através da brincadeira essas identificações e determinações que agem dentro da criança acessando principalmente o sentimento de culpa. Esta compreensão do mundo psíquico infantil implica no reconhecimento de um superego precoce, derivado da elaboração do complexo de Édipo, que apresenta exigências mais radicais do que o superego dos adultos e crianças maiores. O procedimento da análise passa a ser a atenuação destas exigências para que a criança acesse, por fim, às exigências da realidade sem grandes sofrimentos. O prazer obtido pela brincadeira está associado à liberação da energia empreendida pela repressão após a interpretação.
Embora estas considerações alterem radicalmente a proposta freudiana, em um primeiro momento, e vão de encontro ao que vinha sendo proposto por Anna Freud como possibilidade de análise de crianças, Melanie Klein ancora sua posição ética teórica e clínica na psicanálise freudiana a partir da equivalência entre a teoria do sonho e do brincar como bem sintetiza nesta passagem:
Ao brincar as crianças representam simbolicamente suas fantasias, desejos e experiencias. Elas empregam então a mesma linguagem, o mesmo modo de expressão arcaico, filogeneticamente adquirido, que já conhecemos dos sonhos. Ela só pode ser entendida por completo se for estudada com o mesmo método que Freud utilizou para interpretar os sonhos. O simbolismo é apenas parte desta linguagem; se quisermos entender corretamente a brincadeira da criança em
85 conexão com o resto do seu comportamento durante a sessão analítica, temos que levar em consideração não só o simbolismo que muitas vezes aparece com tanta clareza em seus jogos, mas também todos os meios de representação e os mecanismos empregados no trabalho do sonho. Também não se pode jamais esquecer toda a cadeia de fenômenos. (Klein, 1926, p. 159)
Klein chama a atenção para o aspecto sobredeterminado das escolhas do material, da maneira como a criança brinca, o motivo por que passam de uma brincadeira à outra e o meio que escolhem para as suas representações, se dramatizadas pela própria pessoa ou através do brinquedo, por exemplo.
Trata-se de uma aposta no acesso direto às experiencias traumáticas e fixações que no caso do adulto só poderiam ser reconstituídas na relação transferencial com o analista. É o caso da menininha Ruth, exemplifica Klein, que brincava com a pia, abrindo a “torneira de leite” que escorria bem pouquinho para a boca. A insaciedade oral da menininha ganha sentido quando Klein nos informa que quando bebe ela foi privada de leite em função de uma dificuldade da mãe, chegando a passar fome.
No caso de Erna, publicado em 1929, Melanie Klein já apresenta uma leitura clinica totalmente apropriada da teoria do brincar que acabara de desenvolver. Erna brincava em sessão de colocar a analista no papel de criança enquanto ela assumia o papel de mãe ou professora que passava por grandes torturas e humilhações. Apareciam traços paranoicos em que o pai ou o professor em conluio com a mãe, perseguiam e espionavam a analista ou as vezes a analista era colocada na posição de aborrecer e espionar os outros. Quando a menina assumia o papel da criança conseguia fugir dos seus perseguidores e ficava rica e poderosa, transformando-se numa rainha que vingaria os anos de tormento que viveu. O sadismo aparece dissolvido nestas fantasias que eram seguidas de depressividade e desvitalização.
O conflito intrapsíquico aparece personificado a partir do uso maciço dos mecanismos de projeção e deslocamento. Na brincadeira “o ego tentava influenciar ou enganar o superego a fim de impedir que este começasse a sobrepujar o id, como costumava fazer. O ego procurava aliciar o id extremamente sádico da menina e colocá-lo a serviço do superego, fazendo com que os dois combinassem na luta contra um inimigo comum ”(Klein, 1929, p. 230) A ansiedade era reduzida a partir desta formação de compromisso entre as instâncias
A pequena Rita de dois anos e três meses sofria com uma neurose obsessiva grave e grande inibição do brincar. A menina oscilava entre um comportamento excessivamente prudente e uma maldade descontrolada. Com baixa tolerância à frustração ela reagia com ataques de fúria e abatimento às vezes em que era contrariada. Rita apresentava dificuldade para se alimentar, ter apetite e tinha um sintoma obsessivo que consistia em um ritual para dormir bem criterioso: ela exigia que tanto ela como a boneca fosse fortemente enroladas na
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coberta para evitar que um camundongo penetrasse em seu quarto pela janela para arrancar seu órgão genital com uma dentada. A chegada do irmão, quando ela estava com dois anos, foi marcada pela intensificação dos sintomas e o desenvolvimento de uma fobia de animais. Nesta ocasião as brincadeiras de Rita empobreceram tornando-se estereotipadas e compulsivas: passava grande tempo trocando a roupa das bonecas sem nenhum conteúdo imaginativo.
Os atendimentos aconteceram na casa da menina e a primeira sessão, transcrita anos depois, produziu uma célebre passagem do estilo kleiniano. Rita ficou ansiosa em permanecer a sós com a analista no quarto e pediu para ir ao jardim. Klein interpreta que ela estava ansiosa em relação ao que imaginava que ela pudesse fazer com ela sozinha no quarto e, relembrando dos seus terrores noturnos, disse que ela a sentia como uma estranha hostil como a mulher má que pudesse atacá-la quando estivesse sozinha à noite no quarto. Esta fantasia, condensada em terror noturno, se desdobra em outros momentos da análise como brincadeira que vai sendo cada vez mais elaborada.
Durante uma sessão Rita encena um ritual em que sua boneca era posta para dormir e ao seu lado, um elefante. Sua fantasia era de que o elefante colocado ao seu lado impediria a boneca a se levantar, caso contrário entraria escondida no quarto dos pais e lhes faria mal. Na sua fantasia o elefante assumia o papel do pai que faria a interdição e revelava o medo da menina de ser punida pelos desejos incestuosos e pensamentos destrutivos.
A brincadeira evolui e se amplia numa narrativa que apresentava, mais ou menos, a mesma estrutura: Rita iria viajar com seu urso de pelúcia para visitar uma senhora boazinha que lhes ofereceria presentes. A viagem que, às vezes, terminava bem e, às vezes, mal, era perturbada por uma mulher má. Rita queria, ela mesma, dirigir o trem e era impedida pelo maquinista que sempre voltava. Ao chegar no destino era surpreendida pela presença de uma senhora maldosa, no lugar da boazinha. As brincadeiras seguem sendo compreendidas como a expressão dos desejos incestuosos e também do desejo de ter um pênis para poder satisfazer a mãe. Um tempo depois, Rita pega um jogo de construção, um material alongado e uma caixa de papelão. Com o “martelinho” ela batia na caixa até furá-la ao mesmo tempo que dizia: “quando o martelo bateu com força, a mulherzinha ficou tão assustada”( Klein ,1926 p.157) Para Klein a situação era a expressão da cena primária, onde ela a mãe e o pai estão representados. Rita desmontou, a partir daí, o ritual que utilizava para dormir e passou a expressar sentimentos cada vez mais ternos com o seu urso dizendo que não se sentia mais tão infeliz porque agora tinha um bebezinho que gostava muito. Os sintomas obsessivos e a
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angústia desapareceram de forma permanente e a menina adquiriu uma maior capacidade de tolerância à frustração.