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CAPÍTULO I. DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL Art.1º Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional

MEMÓRIA Transformação dos saberes

4.1 A descoberta do ouro e o surgimento de Minas Gerais

A exploração de ouro no Brasil Colônia, até o final do século XVII, havia sido uma atividade insignificante. Voltados para a produção de cana-de-açúcar no litoral do Nordeste, os portugueses deixaram em segundo plano aquilo que tinha sido um dos principais elementos propulsores da expansão marítima europeia e da ocupação da América: a busca de metais preciosos. Pequenas investidas na mineração, entendidas muito mais como tentativas do que como explorações sistemáticas bem sucedidas, foram efetuadas nas regiões próximas ao litoral dos atuais estados de São Paulo e Paraná, o suficiente apenas para não deixar morrer nos colonizadores a esperança de um dia encontrar o tão sonhado ‘Eldorado’442.

Na segunda metade o século XVII, porém, a produção açucareira entrou em declínio, e a Coroa Portuguesa se viu compelida a incentivar os colonos a se dedicarem mais eficazmente às buscas pelo ouro no interior do Brasil. Os paulistas, que não possuíam senão uma parca agricultura, embrenharam-se pelo sertão em expedições conhecidas pelo nome de ‘bandeiras’, grupos paramilitares nos quais havia um único chefe (branco ou mameluco) e, sob seu comando escravos indígenas que atuavam como guias, carregadores, batedores e coletores de alimentos. A presença de um capelão era obrigatória443.

Em 1672 já não havia lucro na caça aos índios, pois a Igreja Católica havia desenvolvido uma forte campanha de proteção a esses povos, alterando o foco de escravos para cristãos. O comércio das ‘drogas do sertão’444 também estava se

reduzindo e, assim, os bandeirantes se voltaram à busca pelo ouro. Nessa época, já havia alguma mineração de lavagem incipiente na capitania de São Vicente, SP, mas

442 GORCEIX, Henri [1876] (1996). Minas é um coração de ouro em peito de ferro. In: MINERAÇÃO MORRO VELHO. Morro Velho: história, fatos e feitos. Nova Lima, MG: p.25-38.

443 DEOTTI, Alessandra (2007). Evolução arquitetônica e ocupação espacial nos séculos XIX e XX na Mina de Morro Velho / Nova Lima, MG. Nova Lima: Anglogold Ashanti.

444 As chamadas ‘drogas do sertão’ abarcavam uma série de produtos como guaraná, anil, salsa, urucum, noz de pixurim, pau-cravo, gergelim, cacau, baunilha e castanha-do-pará. Todas essas especiarias tinham alto valor de revenda no Velho Continente.

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o ouro extraído toscamente dos leitos dos rios registrava quantidade ínfima. Simultaneamente, a descoberta de metais preciosos na América Espanhola trazia esperanças à Coroa Portuguesa, pois se considerava que a mina de Potosí, no vice- reinado Peru, e que impressionava pela abundância de prata, se localizava perto da fronteira com o Brasil colônia. Havia todo um imaginário em torno dessas riquezas ‘fabulosas’, que apenas estavam esperando para serem descobertas445.

No circuito do movimento bandeirantista e utilizando uma antiga trilha indígena, mamelucos paulistas atravessaram a região da futura Capitania de Minas Gerais e alcançaram as terras da Bahia e de outras capitanias do Norte, tanto em busca de índios para escravizar (que eles denominavam ‘negros da terra’) quanto em expedições contratadas pelas autoridades coloniais para combater os ‘bárbaros’ (tribos tapuias rebeladas nos sertões baianos e capitanias adjacentes) e os negros aquilombados446.

Com a descoberta do ouro pelos paulistas nessa região de passagem para as capitanias do Norte, até então sem limites determinados, construiu-se, progressivamente, um território a partir da ocorrência do ouro no entorno do Caminho Geral do Sertão, cuja fronteira foi sendo deslocada no decorrer de todo o período colonial447.

O primeiro núcleo de povoamento do ‘território mineiro’ foi o Sertão dos Cataguases, região em que se localizam as minas do ribeirão de Nossa Senhora do Carmo e de Ouro Preto, cuja descoberta provocou, de imediato, a vida de uma primeira grande leva de população atraída pela fama de se achar ouro ‘à flor da terra’. Conforme Resende448, foi devido ao fato do trânsito de pessoas em qualquer direção

especificamente nas minas dos Cataguases que surgiu a expressão ‘minas gerais’. Maria Efigênia Lage de Resende cita o jesuíta João Antônio Andreoni (identificado

445 DEOTTI, Alessandra (2007). Evolução arquitetônica e ocupação espacial nos séculos XIX e XX na Mina de Morro Velho / Nova Lima, MG. Nova Lima: Anglogold Ashanti, p.11.

446 TAUNAY, Affonso de E. (1961) História das bandeiras paulistas. São Paulo: Melhoramentos, vol.1, p.167-169.

447 RESENDE, Maria Efigênia Lage de (2007). Itinerários e inerditos na territorialização das Geraes. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. (org.) As Minas Setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, p.25-53.

448 RESENDE, Maria Efigênia Lage de. (2007) Itinerários e inerditos na territorialização das Geraes. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. (org.) As Minas Setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, p.28.

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posteriormente como Capistrano de Abreu) que, em sua obra ‘Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas’, de 1711, refere-se às ‘minas do ouro que chamam gerais’, e ‘há poucos anos que se começaram a descobrir as minas gerais dos Cataguases’449 (Figura 5).

Figura 5 – Penetração do sertão da Bahia e de São Paulo

No detalhe, a região do Sertão dos Cataguases (adição do autor) Fonte: RESENDE; MORAES, 1987450.

A denominação ‘minas gerais’ já aparece em documentos de 1700 e 1701 grafada, talvez, pela primeira vez em mapa do padre jesuíta Jacó Cocleo, existente na Diretoria do Serviço Geográfico do Exército, datado de 1700, pelo cartógrafo F. de Mesquita. Contudo, o nome ‘Minas’ constava de várias referências da época. A fixação ‘Minas Gerais’ como topônimo aplicado à Capitania ocorreu por volta dos anos de 1730, com a nomeação, em 1732, do Conde de Galveias – André de Melo e Castro – governador e capitão general das Minas Gerais451.

Uma hipótese bastante aceita entre os historiadores e defendida na obra ‘A idade de ouro no Brasil’, de C. R. Boxer452, baseia-se no fato de que, no período entre 1693 e

449 Sua obra, depois de impressa com as licenças exigidas, foi confiscada por ordem da Coroa por revelar as riquezas do Brasil e, assim, potencialmente ser capaz de despertar a cobiça de nações esrangeiras. Foram registradas, na ápoca, o saque ao Rio de Janeiro por corsários franceses e os conflitos de fronteira entre franceses e espanhois, reflexos da Guerra de Sucessão da Espanha. 450 RESENDE, Maria Efigênia Lage de; MORAES, Ana Maria de (1987). Atlas histórico do Brasil. Belo

Horizonte: Vigília, 94p.

451 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais (1971). Belo Horizonte: Imprensa Oficial, p.288-290.

452 BOXER, Charles R. (1969). A idade de ouro do Brasil: dores do crescimento de uma sociedade colonial. São Paulo: Nacional.

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1765, o ouro foi encontrado na capitania de Minas Gerais e em diversas localidades ao mesmo tempo. Antônio Dias, João de Farias de Bueno e Bento Rodrigues foram alguns dos descobridores mais famosos453.

O território das Minas Gerais alargou-se progressivamente, em especial devido ao fato de uma atividade comercial intensa, à movimentação das tropas e dos tropeiros, ao contínuo combate aos quilombolas e ao surgimento de novas fronteiras agrícolas em terras tomadas aos quilombolas454. Essas são as bases do formato do mapa atual de

Minas Gerais (Figura 6).

Figura 6 – Marcha aproximada da bandeira de Fernão Dias Fonte: RESENDE; MORAES, 1987455

Por consequência, os achados auríferos atuaram como polarizadores de população. Com o ouro das Gerais, esse processo se repetiu no Brasil, em que imensa corrente de pessoas, de todas as condições sociais, originárias tanto de outras regiões da colônia quanto da Metrópole e de seu Ultramar, se mobilizou na expectativa de um novo Eldorado456.

453 DEOTTI, Alessandra (2007). Evolução arquitetônica e ocupação espacial nos séculos XIX e XX na Mina de Morro Velho / Nova Lima, MG. Nova Lima: Anglogold Ashanti, p.11.

454 SOUZA, Laura de Mello e (1999). Norma e conflito: aspectos de Minas no século XVIII. Belo Horizonte: Editora UFMG.

455 RESENDE, Maria Efigênia Lage de; MORAES, Ana Maria de (1987). Atlas histórico do Brasil. Belo Horizonte: Vigília. 94p.

456 RESENDE, Maria Efigênia Lage de. (2007) Itinerários e inerditos na territorialização das Geraes. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. (org.) As Minas Setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, p.29.

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Nesse contexto, marcado por um trânsito volumoso e desordenado de pessoas e de mercadorias, teve início, de forma precoce e bastante extensa, a ocupação das terras de mineração, em que, a uma “sede insaciável do ouro”457, correspondeu, com

enorme rapidez, à formação de grandes fortunas e uma desordem perigosa, regulada a balas de chumbo458.