Capítulo I O processo de formação do conceito cartesiano de substância
2. A descoberta da substancialidade divina ou Deus como um tipo privilegiado de
Após compreender que a alma é uma substância cuja natureza subsiste apenas no pensar, Descartes se põe a investigar se há outras coisas realmente existentes além das res cogitans. Para tanto, pesquisa a partir das ideias que encontra em seu pensamento se há outras substâncias. Para encontrar outras substâncias e assim poder emitir outros juízos de existência, o parâmetro e exigência de substancialidade foi adquirido na Segunda Meditação.
A Terceira Meditação é iniciada Descartes revelando que se esforçará em ampliar o puro” é um eu individual, pessoal e concreto que ainda não é considerado ou existe para a ciência cartesiana. Por isso, como a primeira certeza é a da alma, na medida que ela é reconhecida substância como tal, sua singularidade é igualmente vista como inerente à todas as outras substâncias pensantes individuais, ou seja, diz respeito à espécie. É precisamente isto que o conhecimento da Segunda Meditação nos dá: “o eu posto aqui como indubitável é apenas esse eu comum a todo homem, forma específica fundando a diferença entre o homem e o animal (a saber, a razão); mas não fundando de modo algum a diferença entre os homens, quer dizer, não contendo o princípio de sua diferença individual” (1968 a, p. 59).
conhecimento que tem de si, em conhecer-se melhor, visto que adquiriu o conhecimento verdadeiro de sua existência e natureza como substância puramente pensante e por isso, tomando consciência de que duvidando da existência de tudo o mais não poderia duvidar de sua existência manifestada neste ato. Assim, por ser ele um modo do pensamento, concebeu exclusiva e essencialmente no ato de pensar: penso, logo existo33. No limiar da Terceira Meditação, portanto, pensando e olhando tão somente sobre si mesmo, nada tem a dizer sobre sua existência e natureza, a não ser que essencialmente é por si mesmo subsistente como puro espírito, intelecto, entendimento, razão, mente ou espírito sujeito único de seus modos e que não tem a necessidade de nada do que pode atribuir e concebe das coisas materiais:
Eu, eu sou coisa pensante, isto é, coisa que duvida, que afirma, que nega, que entende poucas e ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer, que não quer, que imagina também e que sente. Pois, como antes fiz notar, embora as coisas que sinto e imagino fora de mim talvez não sejam nada ali, todavia, os modos de pensar que chamo sensações e imaginações, na medida em que são somente certos modos de pensar, tenho certeza de que eles estão em mim. E essas coisas por mim recenseadas são todas as que verdadeiramente sei, ou, pelo menos, de que me dei conta de saber até agora (DESCARTES, 2004, p. 69)34. A Terceira Meditação começa já com o conhecimento de que a alma é uma substância. Ainda que não tenha mencionado explicitamente isso, ele fez uso do conceito que construíra e já traz consigo nesta etapa as duas definições de substância que encontrou na Segunda Meditação: “mas, como toda ideia é uma obra da mente, a natureza dessa ideia é tal que ela não exige por si mesma nenhuma outra realidade formal além da que recebe de meu pensamento ou de minha mente, da qual é um modo, isto é, uma maneira ou feitio de pensar”. A alma é coisa pensante verdadeiramente existente e puramente imaterial concebida por si e em si mesma à medida que o pensamento é o atributo principal reconhecido como sua essência e por ou com ele não precisa da existência de outra coisa (do que é corporal) afora para ser o que é – dado que por hora não há conhecimento sobre a existência de nada mais além de si mesmo – e que este mesmo pensamento é o suporte ou sujeito cujas modificações do ato de pensar referem-se e dependem dele. Pensamento, portanto, é a atribuição essencial que define a natureza da alma. É porque a alma não tem a necessidade para existir de nada que se refira ao corpo, que Descartes a reconhece como substância: não precisa de outra coisa para existir a não ser o pensamento. Portanto, nesta relação
33. “Não obstante todas as mais extravagantes suposições, não nos saberíamos impedir de crer que esta conclusão Eu penso, logo existo, não seja verdadeira e por consequência a primeira e a mais certa que se apresenta àquele que conduz seus pensamentos por ordem” (Princ.Filo. Part I, art. 7: AT IX-2, 27)
entre estas coisas, não haver necessidade da outra para existir é o que as demarca como substâncias. Daí já encontramos sua crítica à concepção aristotélica de substância, a qual é composta por dois elementos simples: a forma e a matéria. Para Descartes a substância se constitui com uma única natureza simples. E é precisamente esta definição de substância que extrai da verdade do cogito: “uma substância ou uma coisa apta a existir por si” (DESCARTES, 2004, p. 91), quer dizer, que pode “subsistir por si mesma” (Prin. Filo. Part I, Art. 64: AT IX-2, 54).
Existir ou – os termos são sinónimos – subsistir, eis a substancialidade.
Poderemos também dizer: ser pura e simplesmente; e eis porque Descartes, incluindo na lista das noções primitivas, emprega indiferentemente a palavra
substância e a palavra ser. Ou querendo especificar que ele não é somente um
pensamento, mas uma coisa pensante, ele escreve: “eu sou, eu existo” (ego sum,
ego existo) e, de modo mais expresso ainda: “eu sou, quer dizer, eu existo: ego sum sive existo” (LAPORTE, 2000, p. 189)
Substância ou ser tem como caráter distintivo a “existência”, ser capaz de existir “de si” e “em si mesmo”, o que quer dizer, subsistir em relação a outra coisa: não precisar de outra coisa para existir (AT VIII, 348. Part II). Tudo o que existe ou pode existir completa, separada e independentemente de outra coisa é uma substância (Resp. 6 obj. nº VII). Eis o que precisamente Descartes diz: “quando nós concebemos a substância, nós concebemos somente uma coisa que existe de tal modo que ela apenas tem necessidade de si mesmo para existir” (Princ. Filo. Part I, art. 51: AT IX-2, 47). Esta foi a exigência prospectada com o conhecimento da existência e natureza da alma.
Portanto, em se tratando do processo de constituição do cogito, ele se sabe substância porque, para ser e existir, ele não “tem a necessidade da extensão, da figura, de ser em algum lugar nem de nenhuma outra tal coisa que podemos atribuir ao corpo e que nós somos por isso apenas aquilo que pensamos” (Princ. Filo. Part I, art 8: AT IX-2, 28). É esta mesma exigência e critério de substancialidade que Descartes apresente a Mesland ao falar que a alma ou o pensamento é independente do corpo ou extensão: “eu digo que esta ideia a representa a mim como uma substância que pode existir ainda que tudo o que pertença ao corpo seja excluído dela, de onde eu formo um argumento positivo e concluo que ela pode existir sem o corpo. E esta exclusão da extensão se vê muito claramente na natureza da alma” (a Mesland, 2 de maio de 1644: AT IV, 120).
que apresentada para provar a existência de Deus, como concorda Marion, não foi cunhada de modo impreciso por Descartes – como diz ele. Assim, diferentemente deste comentador, almejaremos mostrar que a Terceira Meditação mesma pode resolver a dificuldade clássica sobre a analogia do ser (a comparação entre a substancialidade de Deus e das criaturas) porque construindo seus conceitos segundo a ordem das razões Descartes define o que entendem por substância para Deus e para a alma e o corpo: “a Meditação III utiliza então um conceito capital, “substância”, que ela não define muito rigorosamente para o uso que ela pretende fazer dela... A questão se põe a partir de então em saber se os artigos 51-54 da Primeira Parte dos Principia conseguirão decidir enfim entre a univocidade ou a analogia do conceito de ‘substância’” (MARION, p. 89). E para nos posicionarmos do outro lado de onde se põe Marion, usaremos a sua interpretação do tratado da substância presente nos artigos 51-54 da Primeira Parte dos Princípios para mostrar que tudo isso que comenta sobre este livro já está presente e pode ser dito paras as Meditações.
Porém, como bem notamos a partir do que disse Gilson, a substancialidade se dá numa relação particular entre o que seria (e será) os dois tipos básicos de existência na dimensão da finitude. Descartes muito didaticamente explica o que entende por “substância”, depois por “substância finita” para então, a partir das ideias que encontra em seu pensamento, apresentar a noção de “substância infinita” e quem é ela – emitindo por conseguinte o segundo juízo de existência.
Tendo o conhecimento da primeira substância percebida, comentando esta autossuficiência da alma ou da substância por serem pensadas, percebidas, concebidas clara e distintamente em todo o seu ser sem ter necessidade do corpo, Gueroult diz que
sem dúvida o Cogito, a título de substância – no sentido epistemológico – é ele, segundo a terminologia cartesiana, um 'concreto', um completo. Mas esse termo não deve nos abusar, porque Descartes se serve dele somente para exprimir esse caractere da substância se bastar a si mesma e de poder ser pensada clara e distintamente separadamente de toda outra coisa (1968a, p. 54).
A alma é pensamento, pensar, ato de pensar: é coisa-pensamento, coisa pensante desde a sua criação. Ela é pensada separadamente e como independente do corpo. Ela é uma coisa concreta e completa. E para reconhece-la como tal, o critério para conceber uma substância é a percepção clara e distinta do atributo principal e isso basta para que uma coisa seja entendida
como completa. Para conceber a substancialidade da alma, apenas foi necessário perceber que ela só precisa do pensamento (uma natureza simples) para ser e, que portanto, sua concepção de substância se faz sem que uma coisa tenha necessidade de se unir à outra. Tal é a descoberta do cogito como substância completa, porque é substância à medida que somente o pensamento lhe define essencialmente e, por conseguinte, não é da essência da alma estar unida a um corpo para ser uma substância (cf Respostas às IV Objeções: AT IX-1, 171-173):
o que eu conheço ser em mim me basta para subsistir com isto apenas, eu sou seguro que Deus me podia criar sem as outras coisas que eu não conheço ainda, e portanto, que essas outras coisas não pertencem à essência de meu espírito. Pois me parece que nenhuma das coisas sem as quais uma outra pode ser não está compreendia em sua essência; e ainda que o espírito seja a essência do homem, entretanto, não é propriamente falando da essência do espírito que ele seja unido ao corpo homem (AT IX-1, 171).
Eis claramente o posicionamento cartesiano sobre sua definição de substância como subsistência, do qual fala aqueles artigos da Primeira Partes dos Princípios. Eles dizem, lembremos, que uma substância se define por sua não-indigência, capacidade de bastar a si mesmo por sua própria necessidade: não dependem de nada para existir. A substância não se define por sua relação: a alma não se define por sua relação com o corpo, pois ela não precisa dele para existir. Somente o pensamento basta para que a alma subsista enquanto coisa puramente imaterial e pensante. a autossuficiência de sua natureza lhe dá a completa independência em relação ao corpo: a sua essência é identifica ao pensamento e ela excluir de si mesma, da constitui e concepção de si mesma, tudo o que é extenso e material:
“A não-indigência retoma aqui um caráter reconhecido antes pela substancialidade dada por Suarez, o mais influente de seus mestres na Escolástica”. Mas Descartes não hesitou como Suarez em concebeu a tese da não-indigência das criaturas afirmadas no artigo 52. Segundo Marion, por isso, a não-indigência “permite antes de tudo formular o conceito de substância” (p. 92) na filosofia de Descartes.
Marion aponta que esta independência e não-indigência não bastam para o acabamento do conceito cartesiano de substância. E é claro que, segundo a primeira definição, é substância aquilo que é apto a existir por si, o subsistente ou o não ter necessidade de outra coisa a não se sua própria natureza para existir (a Regius, jan de 1642: AT II, 456, 16; Princ. Philo. Part II, art. 7): “a definição pela independência equivale, ao menos para Descartes, àquelas da perseidade e pela
subsistência. As Responsiones IV observam já nitidamente esta dupla equivalência” (MARION, p. 93), donde se segue que a noção de substância as traz consigo. Reconhecendo que, ao pôr este critério para uma coisa ser substância, Descartes em contra partida, pôs-se também no problema dos sentidos do ser no que se refere ao criador e às criaturas:
assim, sob três notas distintas – não-indigência, perseidade e subsistência – se constitui de um único e mesmo conceito de substância. Esse conceito cartesiano guarda eco do léxico de Suarez e sofre ao mesmo tempo de uma indeterminação entre univocidade e analogia referente ao que ele diz sobre o finito e o infinito (p. 93).
Suarez concebe a substância como perseidade. Sua definição diz que é substância aquilo que é subsistente por si. É preciso, pois, ler o artigo 62 da Prirmeira Parte dos Princípios consciente de que, “para Suarez, antecipando assim sobre Descartes, a substância se define como o ens per se, então pela subsistência – o fato de durar (imorari) como uma coisa ‘firme e constante’, no sentido onde Descartes define que ‘... substantia quaelis, si cessat durare, cessat etiam esse’” (MARION, p. 94). Lembremos que para Suarez somente Deus merece o nome de substância, uma vez que esta se define por subsistência por si e ele é o único que persiste e dura sem recorrer a nada que lhe é exterior: é independente e não-indigente. Somente Deus é substância completa e essencialmente subsistente, não-indigente e absolutamente perfeito porque é por si mesmo.
Descartes não vê problema em falar sobre esta realidade absoluta de Deus. E é justamente por isso que vai tratar de definir, diferente do que concebia Suarez, a substancialidade finita depois que conheceu a alma como primeira substância. Como mostra Marion, Descartes não aceitou a noção de substância incompleta que pedia uma composição com um outro termo (único subsistente) e que por isso ela segue uma maneira de substancialidade subsistente acidental à medida que o ato de subsistência não advem para a substância por sua essência própria, mas por um ato por assim dizer externo do qual ela não possui a energia, mas somente a aptidão, que ela não produz, mas recebe” (MARION, p. 95).
Ao que nos parece não há mais nada a ser acrescentado à natureza da alma. Diante de seus olhos, somente a ideia de si mesmo enquanto pensamento reluz na autopercepção. Sua análise lhe mostrou aquilo que ela mesmo é e não pode deixar de ser: o conhecimento primeiro é também a primeira ou primitiva ideia de si, o pensamento. Porém, Descartes quer muito mais:
“inspecionando-me mais a fundo, esforçar-me-ei por me tornar paulatinamente mais conhecido de mim e mais familiar a mim mesmo” (DESCARTES, 2004, p. 69). Entre os dados que encontra em seu pensamento, urge saber o que eles dizem mais minuciosamente sobre a alma e sobre Deus e o mundo. Como a verdade desta ideia é tão manifesta, é a partir dela, tendo-a como parâmetro e norte, que Descartes busca outras percepções verdadeiras, outros conhecimentos indubitáveis.
Sabendo agora tudo aquilo que é e é capaz de fazer, a ruminação de sua interioridade o faz expressar uma limitação. Notemos a presença dos advérbios de quantidade – que grifamos acima – quando ainda no primeiro parágrafo da Terceira Meditação ele repõe a verdade do cogito: “eu, eu sou coisa pensante, isto é, coisa… que entende poucas e ignora muitas coisas”. Esta passagem é uma retomada da primeira verdade intuída e apresentada na Segunda Meditação. Todavia, ali Descartes nos revela tal conclusão sem os quantificadores “poucas” e “muitas”: “mas, que sou, então? Coisa pensante. Que é isto? A saber, coisa que duvida, que entende, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente” (DESCARTES, 2004, p. 51). Ai Descartes apresenta as exigências para ser substância que vão se expressar num sentido mais próprio na descoberta da veracidade divina, porém sem ser exclusiva.
Ora, Descartes adiciona estas sutilizas diante do atributo principal da alma, ou seja, naquilo que até então sabe sobre a sua natureza e essência: “eu, eu sou coisa pensante, isto é, coisa que duvida, que afirma, que nega, que entende poucas e ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer, que não quer, que imagina também e que sente” (DESCARTES, 2004, p. 69). Por que faz isso? Com que propósito especifica aí tais características no ato de pensar, essência e natureza da substância pensante? O que elas contribuirão no conhecimento que tem sobre a res cogitans? Por que tal avaliação e inserção foi posta aí tão somente naquela atribuição responsável pela intelecção? Sabemos que o entendimento é o que propriamente define a alma. Então, o que revela Descartes ao pôr um dado gramatical que condiciona o atributo essencial?
Na Segunda Meditação, Descartes adquiriu a verdade de sua natureza e existência que saltou da dúvida: se por um lado a dúvida foi pega pelas costas e pôde nela afirmar a existência da alma ou pensamento enquanto negava a existência de tudo, é esta realidade expressa na “dúvida” que lhe indica algo a mais de si mesmo agora considerando uma outra ideia que percebe entre os seus pensamentos. Pois, se ainda sim duvida e ignora conhecimentos, isso se deve a uma condição própria de sua natureza expressa também nela, em um modo do seu pensamento, em seu
pensamento portanto. O pensamento refletindo sobre si mesmo agora considerando também a ideia de Deus e do perfeito, percebe-se e formula a noção de substância finita à medida que põe em revelo a sua limitação e finitude substancial de sua essência.
A trajetória que seu espírito empreende mostrou-lhe a verdade do cogito. Agora, retomando este percurso simplificando ao máximo (cf. DESCARTES, 2004, p. 71-73), põe a presença e consciência da autopercepção de si para tentar ver se no processo de constituição do cogito pode ser apreciado algo a mais. A Terceira Meditação então apresentará o seu tema a partir da explicitação da condição substancial da alma. Não que ela não estivesse já presente na Segunda Meditação. Ali ela não foi totalmente visada, ou seja, o que fora tematizado foi a substancialidade da alma e não a condição da substância pensante.
É isto também que pensa Guéroult ao dizer que a intuição da ideia do infinito e do perfeito, de Deus, enfim, se prefigura ou está embutida lá na Segunda Meditação35, porém aí
Descartes não se preocupa em saber sua condição quando investiga a existência do cogito:
no conhecimento de minha existência pelo Cogito, eu não me preocupo em saber se eu sou perfeito ou imperfeito, infinito ou finito, mas simplesmente de saber se eu penso e, por consequência, que eu existo. Porque a ideia de perfeito é a condição do conhecimento de meu ser pensante enquanto finito e imperfeito, não enquanto ele existe, não é ilegítimo fazê-lo a condição de possibilidade do Cogito, o qual não requer outro princípio que o axioma 'para pensar é preciso ser'?
É certo que a essência da substância pensante e sua existência são percebidas na estreita medida do ato de pensar. Mas, lembramos, sua existência, com a substancialização do pensamento, donde a dúvida é um de seus modos, foi a constatação desta ligação – se há modalidade, há substancialidade – que ele se percebeu coisa pensante verdadeiramente existente. E como duvidar é uma marca da imperfeição, foi a manifestação desta sua condição que o levou ao conhecimento de si mesmo. Ali, o visado era ele mesmo, seus olhos estavam voltados para si mesmo. Portanto, não haveria como impor uma escala do ser, mas apenas este ser que se conhecia. Na Terceira Meditação, ao olhar para as ideias que encontra em si mesmo, em seu entendimento, agora sim, não há como não perceber a ideia de Deus infinitamente perfeito a partir daquilo que
35. “Na III Meditação, a substancialidade primeira do ser perfeito se anuncia desde o início da investigação metódica tornando possível de modo latente a passagem progressiva que vai das realidades objetivas das representações sensíveis às realidades objetivas mais ricas, para realizar pela realidade objetiva de Deus, que envolve a posição independente do ser perfeito” (GUÉROULT, 1968 a, p. 228).
intui de si mesmo. Olhando para fora de si mesmo, a alma percebe os graus de perfeição do ser a partir das ideias que encontra em seu pensamento.
Para Gueroult, quando Descartes faz da ideia do infinito e do perfeito o princípio e fundamento último tanto do conhecimento quanto do ser finito da alma, a III Meditação lhe confere um caractere oposto aquele apresentado e conquistado na Segunda: aqui, o cogito se vê insuficiente, inacabado, impossível de se conceber e subsistir sem o infinito (cf. GUÉROULT, 1968 a, p. 229). Todavia, ao que nos parece, o conhecimento da natureza e existência da alma revela não somente que ele é pensante, mas que ele é pensante e pensamento finito; que não só tem consciência de sua existência, mas que tem consciência de sua existência enquanto um ser imperfeito em relação a existência de um ser infinitamente mais perfeito que ele e tudo o mais que possa existir. Portanto, com o conhecimento de seu ser pensante imperfeito toma consciência da suprema e incomensaurável perfeição do ser perfeito e de seus lugares nos graus de perfeição ontológica.
É preciso especificar que a insuficiência da alma será em relação à sua origem e não à