4.2 Emirados Árabes Unidos
4.2.6 A desigualdade social e a desigualdade de gênero
Embora não haja nos EAU uma Copa do Mundo, como no Catar, para expor as questões sociais do país, existe a questão de desrespeito aos direitos humanos de trabalhadores imigrantes. O país apresenta uma elevada taxa de depressão e suicídio entre esta porção da população. Há uma migração significativa de trabalhadores de Bangladesh que, em busca de melhores condições de vida, vão para os EAU como uma mão-de-obra muito barata. Lá, os trabalhadores são recebidos num país onde há muito capital e pouca oportunidade para eles. Além
disso, a união entre os trabalhadores para reivindicação de direitos é reprimida pelos riscos de prisão ou deportação dessas pessoas, o que representa uma condição de subordinação (JAMIL; KUMAR, 2021).
Devido a barreiras linguísticas e culturais, os bangladeshianos acabam sendo marginalizados e explorados pela população nativa. Como os EAU promovem fortemente o turismo em seu território através de grandes obras, muitos destes trabalhadores acabam se expondo a posições de trabalho perigosas para a saúde. A insegurança alimentar é outra questão frequente na vida destes trabalhadores. A preocupação em relação à água é mais um ponto de extrema relevância cotidiana destes cidadãos, dado que se trata de um país amplamente coberto por áreas desérticas. Muitos destes bangladeshianos precisam juntar entre 3500 a 4500 dólares para entrarem nos EAU, levando-os a vender tudo o que possuem em seu país natal e frequentemente adquirindo empréstimos pelos quais não podem pagar.
Quando comparados aos problemas enfrentados pelos trabalhadores imigrantes no Catar, é possível perceber a repetição de muitos dos problemas dessa população de baixa renda que migra para os EAU (JAMIL; KUMAR, 2021).
Soma-se a essas condições uma temática muito presente nos países do GCC: a diferença de oportunidades de trabalho entre homens e mulheres. Apesar de alguns esforços do governo para aumentar a participação das mulheres no empreendedorismo, o potencial de participação da mulher neste setor continua inexplorado de forma significativa por conta de diversas barreiras culturais do país.
Uma destas barreiras é a própria visão do governo e sociedade que coloca o papel da mulher no âmbito doméstico. Sociedades patriarcais como a dos EAU costumam enfatizar papéis de cada gênero e estereótipos, como os de que o homem é quem deve ganhar o pão e de que a mulher cuida do ambiente doméstico. Dessa maneira, as atribuições da mulher ficam muito restritas, restando apenas ao homem a possibilidade de empreender. Estes ideais têm origem na religião islâmica, a qual apesar de encorajar e aceitar a ideia da mulher empreender, reforça os estereótipos relacionados ao gênero. Assim, o islamismo acaba impondo a autoridade do homem perante a mulher em diversas áreas da sociedade (TLAISS, 2014).
A falta de apoio da própria família é considerada uma barreira para a mulher adentrar ao empreendedorismo. Este apoio pode ser de diversos aspectos, como
financeiro, emocional e instrumental. Muitas vezes, na cultura de países do Oriente Médio, a mulher que procura empreender é vista de maneira negativa, ocorrendo uma automática impressão de que esta mulher não é capaz de gerir as responsabilidades da família. Assim, em sociedades onde a mulher possui a obrigação de somente zelar pela família, a falta de confiança acaba se tornando uma característica inerente à mulher. Soma-se a este fato a dificuldade de acesso a capital para começarem seus próprios negócios. Bancos e instituições financeiras costumam favorecer aos homens e esta prática é justificada através dos estereótipos de gêneros (TLAISS, 2014).
Segundo estudo de Tlaiss (2014), as mulheres dos EAU apontam o acesso ao capital como a maior barreira a ser superada para entrarem no empreendedorismo.
A grande maioria das mulheres procura tomar empréstimos e não conseguem. As poucas que conseguem aprovação necessitam de um homem por trás para garantir o pagamento, mas as taxas de juros são muito altas, forçando-as a rejeitar as condições. Portanto, elas acabam sendo vítimas de valores culturais enraizados no setor bancário. As mulheres as quais de fato entram no empreendedorismo através de empréstimos têm de vender a ideia de que através da flexibilidade conquistada pelo próprio negócio, elas conseguem ser melhores esposas e mães. Também são apontadas justificativas através de exemplos do Islã para ganharem permissão para empreender, como no caso da primeira esposa do Profeta Maomé, Khadija, uma empreendedora de sucesso (TLAISS, 2014).
Talvez a circunstância mais curiosa do estudo de Tlaiss (2014) seja visão das mulheres dos EAU de que não há ligação entre o islamismo e a falta de oportunidade no mundo dos negócios. Elas não enxergam uma relação entre as barreiras culturais impostas pela sociedade patriarcal, coletivista e de cultura masculina com as práticas muçulmanas. A razão para isso está nas diferenças de interpretação da religião. A interpretação feminista do Corão é quem garante a elas a possibilidade de seguir a carreira empreendedora, justificando, assim, o acesso aos recursos financeiros, como mencionado anteriormente. Portanto, na visão das mulheres emiradenses, a religião está separada dos valores sociais e culturais do país.
Os acontecimentos expostos por Tlaiss (2014) relativos ao papel da mulher no empreendedorismo, no entanto, não devem ser extrapolados para todos os setores da economia dos EAU. O artigo Ainane et al (2019) mostra um cenário muito particular e diferente no setor de petróleo e gás do país. O estudo mostra um aumento do envolvimento de mulheres no setor petrolífero. Segundo o artigo, os EAU possuem uma das maiores taxa de mulheres em programas de engenharia, até mesmo quando comparado a nações europeias como França, Alemanha e Reino Unido. Neste estudo foram realizadas pesquisas com alunos do Petroleum Institute, uma universidade voltada à pesquisa. Patrocinado pela ADNOC e parceiras internacionais como BP, Shell, Total e Japan Oil Development Company, o PI oferece bacharelado, mestrado e doutorado em engenharia de petróleo, engenharia química, elétrica e geociências de petróleo. De 2009 a 2013, a porcentagem de mulheres estudando no PI manteve um patamar de por volta de 35% em relação ao total de alunos, número já alto se comparado aos 10% de 2006. De 2014 a 2016, este índice apenas aumentou e superou o número de estudantes homens, tendo cerca de 60% das vagas ocupadas por mulheres. Em 2020, o número subiu para 63%. Estes números contrastam com as dificuldades impostas às mulheres, por conta das obrigações familiares, condições de moradia, jornada de trabalho inconveniente e severas condições de trabalho. A título de comparação, no mundo, as mulheres compõem apenas 8% da força de trabalho setor de óleo e gás.
O curso de engenharia de petróleo é um dos cursos que mais acolhe as mulheres no PI. Em 2015, 31% dos estudantes de graduação em engenharia de petróleo do PI eram mulheres. Segundo as pesquisas de Ainane et al (2019), 37%
das mulheres do PI escolhem estudar lá devido ao interesse em engenharia.
Quando perguntadas sobre a razão de entrarem na indústria do petróleo, 46%
justificam a escolha como uma forma de servir ao país. Dentro da série de perguntas elaboradas pelos autores, a única com maior taxa de não concordância foi a pergunta que questionava a existência de igualdade nas oportunidades dentro da indústria, fato o qual diz muito sobre a temática. Em linhas gerais, através deste estudo, vê-se um cenário bastante particular na questão de participação feminina na sociedade. Além disso, apesar da maioria dos números mostrarem progresso acerca desta problemática, a percepção de desigualdade de oportunidades é um ponto
presente entre os estudantes e sendo eles quem vive, de fato, este cotidiano, trata-se de uma voz bastante legítima para ilustra o que de fato acontece no país.
5 CONCLUSÃO
Após estudar diversos aspectos naturais, históricos e humanos de Catar e Emirados Árabes Unidos é possível encontrar diversas semelhanças entre eles, a começar pela geografia. Ambos localizados no Golfo Pérsico, os países são caracterizados por um clima desértico que molda o dia-a-dia de quem habita a região. Além de partilharem questões climáticas, a questão geológica também se assemelha em relação à riqueza de hidrocarbonetos. Enquanto o Catar é mais privilegiado em gás natural, os EAU possuem reservas maiores de óleo. Com relação aos aspectos históricos, ambos eram domínios ingleses antes de serem considerados países independentes. A construção da riqueza a partir dos bens minerais de petróleo é outro ponto comum a ser lembrado. Com a elevação dos preços do barril de petróleo, as nações obtiveram um enriquecimento ímpar que revolucionou por completo a economia de ambos. Além disso, diferentemente do Brasil, um Estado laico, Catar e EAU possuem uma religião oficial, a islâmica.
A fé islâmica está no centro de muitas questões socioculturais dos países estudados e também de todos países do GCC como um todo. A vida nos países islâmicos do Oriente Médio acabam tendo diversos aspectos em comum, devido a não separação da fé e Estado. Nestes países, a família é colocada como ponto central da sociedade por influências da fé islâmica. A ausência de regime democrático nestes países é também uma marca comum entre eles. Assim, um Estado não laico e não democrático pode ser visto com estranheza sob uma perspectiva Ocidental. Para acabar com este tipo de visão de pré-conceitos sobre uma realidade completamente diferente vê-se o emprego de estratégias semelhantes entre os países.
O esporte, mais especificamente o futebol, é uma ferramenta usada por ambos os países para extinguir visões deturpadas sobre o Oriente Médio. Serve também como uma ferramenta de expansão de influências geopolíticas em escala global. A relação do futebol nestes países está estritamente ligada com a riqueza originada pelo petróleo. O modo de utilização desta ferramenta é que difere entre as nações.
Enquanto o Catar busca transmitir ideologias de paz, de avanços tecnológicos e promoção de qualidade de vida, os EAU veêm a modalidade esportiva como um
instrumento capaz de gerar riquezas para a nação e, consequentemente, cumprir com o objetivo de diversificação da economia estabelecido na UAE Vision 2021.
A ideia de um plano nacional de desenvolvimento da nação em 5 ou 10 anos é mais um aspecto semelhante entre EAU e Catar. Essa semelhança, porém, não é por acaso. Na verdade, o primeiro país a estabelecer uma visão nacional foi Omã ao lançar a Oman Vision 2020 em 1995. Outros 91 países do GCC adotaram a mesma estratégia, portanto, trata-se de uma questão na qual nem Catar nem EAU são pioneiros e únicos no Oriente Médio, constituindo uma prática comum nos países da região (LIVSEY, 2019).
Os países diferem bastante com relação ao sistema político adotado. Embora, a manutenção do poder entre as famílias fundadoras de cada país esteja presente, somente a divisão em emirados já constitui uma diferença considerável entre eles. A existência de diversos órgãos federais nos EAU torna mais difícil o entendimento da política local, enquanto no Catar o poder parece estar unificado na figura do emir. No caso dos EAU, embora existam mais agentes políticos, nota-se uma concentração histórica do poder nos emirados de Abu Dhabi e Dubai.
Tendo todos aspectos citados em mente e pensando no futuro do petróleo nestes países, o petróleo ainda será bastante presente no protagonismo econômico.
Embora, a tendência seja de uma dimuinuição cada vez maior da dependência do recurso energético, trata-se de um bem mineral de importância histórica para a região. A ideia progressista de desenvolvimento sustentável, através da descarbonificação das fontes de energia, faz todo sentido em escala planetária devido aos riscos que a exploração desenfreada de combustíveis fósseis pode gerar ao planeta. Contudo, é possível extrair petróleo de maneira responsável de cada poço, sem esquecer do compromisso com o meio ambiente e sem esquecer de todo progresso para a humanidade que este bem mineral continua a proporcionar.