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A desjudicialização do sistema de precatórios

No documento ALTERNATIVAS PARA O SISTEMA DE PRECATÓRIOS (páginas 16-21)

4. ALTERNATIVAS PARA O ATUAL SISTEMA DE PRECATÓRIOS

4.4 A desjudicialização do sistema de precatórios

O intento desse capítulo é analisar a viabilidade da implementação de técnicas alternativas de resolução de conflitos nos litígios contra a Fazenda Pública, permitindo que sejam resolvidos em tempo razoável, de maneira efetiva e justa. A própria Constituição Federal, em art. 5°, inciso LXXVIII, orienta que “deve ser assegurado os meios que garantam a celeridade da tramitação dos processos judiciais e administrativos” (BRASIL, 1988).

As técnicas alternativas visam à resolução prévia dos conflitos que uma vez solucionados, contribuirão para o enxugamento do judiciário, o que não representa sua substituição, mas oferecer formas aliadas de solução de demandas, em razão

das constantes modificações sociais, que requerem mais que um único ente capaz de tutelar os direitos dos jurisdicionados.

O princípio da indisponibilidade do interesse público muitas vezes é apresentado como um dos obstáculos para a utilização da conciliação nas ações de interesse público, deparando-se com a impossibilidade de transigir sobre interesses que são alheios (público), indisponíveis, assim, indo de encontro às regras instituídas pela resolução n° 125 / 2010 do CNJ.

Todavia, é possível admitir a relativização e uma reconfiguração da forma de interpretar o princípio da indisponibilidade, classificando-o em primário e secundário.

O interesse público primário sintetiza-se na essência do Estado, nos fins que cabe a ele promover: por exemplo, justiça, segurança e bem-estar social. Já o interesse público secundário é o interesse restrito da pessoa jurídica de direito público parte de uma determinada relação jurídica. Dessa forma, legitima a conciliação nas ações de interesse público secundário, em especial nas ações com a Fazenda Pública.

Já existem alguns dispositivos legais que garantem a aplicação de soluções consensuais em demandas que envolva a Administração Pública, como a Lei de Mediação de 2015, que trata da criação de câmaras de prevenção e resolução de conflitos. Mas, faz-se necessário estender tais assensos legais para os precatórios, concedendo maior poder decisório às autoridades administrativas nesses casos, desde que, haja mecanismos com força coercitiva para cumprimento dos pagamentos.

A adoção dessa forma extrajudicial de solução de conflitos no âmbito administrativo, pode proporcionar mais celeridade na resolução de litígios, sem ter que utilizar a jurisdição como forma exclusiva de solução. Apenas nos casos de não haver autocomposição entre as partes, ai sim, segue para a via judicial como última alternativa, de caráter definitivo.

A conciliação, é uma forma autocompositiva de solução de conflitos em que um terceiro imparcial – o conciliador – auxilia as partes em litígio a chegarem a um consenso, podendo o conciliador sugerir alternativas para a realização do acordo.

Tal método é indicado quando não há um vínculo anterior entre as partes. É um instituto há muito tempo presente no ordenamento jurídico brasileiro, já previsto no Código de Processo Civil de 1973 (incorporado em 1991), na lei n° 9.099 de 1995

(juizados especiais estaduais), bem como na lei n° 10.259 de 2000 (juizados especiais federais).

A conciliação já é utilizada nas ações em que a administração pública é parte, mas, ainda de forma tímida. Isto decorre, segundo Nunes (2018)10, por conta das características peculiares que envolve a Fazenda Pública. Além do princípio da indisponibilidade do interesse público, há outros obstáculos, como a ausência de respaldo institucional imposto pelo próprio órgão fazendário, ou seja, por meio de súmulas e portarias internas, delimitando as hipóteses em que o ente público pode propor ou aceitar acordos em sede judicial.

Outra forma alternativa de solução de conflitos é a Negociação, uma forma consensual de solução de conflitos em que as partes litigantes, constroem uma solução para o seu problema, a qual pode ou não ser intermediada por um terceiro facilitador. A inovação trazida pela Escola de Harvard é que a negociação passa a ser baseada em concessões mútuas.

A Negociação não tem previsão legal no ordenamento jurídico brasileiro. Em 2017 a Escola da Advocacia-Geral da União publicou o “Manual de Técnicas de Negociação”, visando apresentar a teoria aos membros e servidores da instituição, bem como fornecer esclarecimentos aos operadores do Direito sobre essa nova perspectiva de resolução de conflitos bastante interessante.

Imagina a possibilidade da Administração Pública poder oferecer uma proposta de pagar imediatamente o débito, seja a vista ou diluída em parcelas de curto prazo, nunca superior a 1 ano, exigindo como contrapartida do credor uma redução do seu crédito, assim, através de concessões mútuas, apresentando-se como alternativa à morosa e custosa via judicial. Ou então, imagina a parte credora ter à sua disposição a opção de compensação do seu crédito em dívidas que tenha ou venha a ter com o respectivo ente federado, ou seja, mais uma vez a aplicação de concessões mútuas. São fartas as possibilidades que se abrem.

CONCLUSÕES

Visando superar algumas barreiras, já citadas por Nunes (2018), é importante que o próprio órgão fazendário sinalize, dentre as formas existentes, qual o melhor método de solução de conflitos a ser aplicado em ações fazendárias. Além disso, o

legislador precisa fortalecer os mecanismos alternativos de solução de conflitos em ações que envolva a Fazenda Pública, buscando meios já aplicados na Administração Pública ou se inspirando em modelos bem-sucedidos de resolução consensual de conflitos utilizados em outros países.

Os benefícios de ter o conflito solucionado de forma amigável podem ser resumidos da seguinte maneira: menor custo financeiro para as partes envolvidas;

rapidez no término do processo; implemento mais ágil da obrigação; além de conferir um sentimento de justiça para os participantes, uma vez que há concessões mútuas.

Vale ressaltar que a indisponibilidade do interesse público não implica automaticamente na inegociabilidade dos direitos e interesses defendidos pela Administração, pois há direitos indisponíveis passíveis de negociação.

Ademais, o incentivo à utilização de qualquer dos meios citados nesse trabalho tem lugar, visto que o Poder Judiciário não consegue mais julgar de forma célere os processos, necessitando, urgentemente, de reformulação do ordenamento processual. As alternativas estão expostas, basta empenho dos administradores e legisladores para inseri-las e estimular sua aplicação.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Thiago Xavier de. Execução por quantia certa contra o Estado no Direito

Comparado. Conteúdo Jurídico, 2021. Disponível em:

<http://conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/51671/execucao-por-quantia-certa-contra-o-estado-no-direito-comparado>. Acesso em: 20 de Maio de 2021.

BARBOSA, Carlos A. Souza. Solução de justiça para os conflitos – Importância dos meios alternativos de solução de conflitos para o efetivo acesso à justiça no Brasil. DireitoNet, 2011.

Disponível em: <https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/6219/Solucao-de-justica-para-os-conflitos>. Acesso em: 14 de Outubro de 2020.

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16 de Julho de 1934.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao34.htm>. Acesso em: 8 de Abril de 2021.

______. Consolidação das Leis referentes à Justiça Federal. Decreto n° 3.084 de 5 de Novembro de 1898. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-3084-5-novembro-1898-509270-norma-pe.html>. Acesso em: 8 de Abril de 2021.

______. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 8 de Abril de 2021.

______. Código de Processo Civil. Lei n° 13.105 de 16 de Março de 2015. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 8 de Abril de 2021.

FLORENCIO, Valdileia Maria Alves. Dos Precatórios: Alimentares e de Natureza Comum. Brasil Escola, 2009. Disponível em: <https://monografias.brasilescola.uol.com.br/direito/dos-precatorios-alimentares-natureza-comum.htm#indice_11>. Acesso em: 2 de Abril de 2021.

MAIA, Priscila Peixinho. Afinal: Quem inventou o precatório? Jus. Abr. 2016. Disponível em:

<https://jus.com.br/artigos/48388/afinal-quem-inventou-o-precatorio>. Acesso em: 2 de Abril de 2021 MUNIZ, Tânia Lobo; SILVA, Marcos Claro da. O Modelo de Tribunal Multiportas Americano e o Sistema Brasileiro de Solução de Conflitos. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS, Porto Alegre, vol. especial, n° 39, p. 288-311. Dezembro de 2018.

1. DEUTSCH, Morton. The Resolution of Conflict: Constructive and Destructive Processes. New Haven, CT: Yale University Press, 1973.

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3. DIAS, Maria T. Fonseca. A mediação na Administração Pública e os novos caminhos para a solução de problemas e controvérsias no setor público. Direito do Estado, 2016. Disponível em:

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4. DI PIETRO, Maria S. Z. As possibilidades de arbitragem em contratos administrativos. Conjur, 2015. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2015-set-24/interesse-publico-possibilidades-arbitragem-contratos-administrativos2>. Acesso em: 15 de Outubro de 2020.

5. VAZ, Orlando. Precatórios: Problema e Soluções. Del Rey e Centro jurídico brasileiro, Belo Horizonte. 2005.

6. Calculadora do Cidadão, Banco Central do Brasil (BACEN). Disponível em:

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7. OAB questiona no STF novo prazo para quitação de precatórios. Consultor Jurídico. 2021.

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10. NUNES, Thais. A aplicação dos meios consensuais de solução de conflito em ações envolvendo a Fazenda Pública no âmbito da justiça administrativa. Revista CEJ, Brasília, n° 74, pág. 46-55. Janeiro de 2018.

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