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A despedida de Luiz Gama, entre a morte e a luta

No documento GRIOTS LITERATURAS E DIREITOS HUMANOS (páginas 87-92)

Fazer o estudo das cartas de Luiz Gama é tão importante quanto analisar suas poesias, pois os textos epistolares, além do seu valor como fonte histórica e autobiográfica, “constituem um gênero no qual se entremeiam o depoimento, a visão particular sobre um fato, uma época, um criação artística, ou ainda a visão sobre si mesmo” (FERREIRA, 2011, p. 183). A partir das correspondências escritas por Gama, foi possível compreender de que maneira esse intelectual negro conseguiu impor sua voz naquele contexto de escravidão e desumanização do africano e seus descendentes.

Autodidata, Luiz Gama passou a exercer a profissão de advogado, por intermédio da qual, com base na Lei 07 de novembro de 1871, que dava liberdade aos filhos de escravos nascidos a partir da sua edição, devolveu a liberdade a centenas de africanos. Tal atuação, se, por um lado, o fez conquistar amizades, por outro, ao longo de sua militância pró-abolicionista como rábula, também o levou a colecionar vários inimigos, os quais o ameaçaram de morte mais de uma vez.

Em uma dessas circunstâncias, antes de se ocupar com algum processo envolvendo propriedades de um possível figurão escravocrata brasileiro, em 23 de setembro de 1870, Luiz Gama escreve ao seu único filho, Benedito Graco Pinto da Gama. A correspondência referida, segundo Lígia Ferreira (2011), é um dos parcos escritos em que Gama faz referência a membros de sua família. Nesse caso específico, temendo que não voltasse para seus entes, o advogado deixou conselhos que sintetizam seus principais valores, crenças e filosofia de vida, tal qual se pode notar:

Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.

Tu evita e a amizade e as relações dos grandes homens; [...]

[...] Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame Estados Unidos do Brasil. Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te alies jamais a seita alguma religiosa.

Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de Jesus por Ernesto Renan. [...] Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compai- xão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.

Teu pai

Luiz Gama (FERREIRA, 2011, p. 193).

Considerando serem estas suas últimas palavras, Luiz Gama recomenda a sua esposa, a negra Claudina Fortunato Sampaio, que mantenha os princípios morais da honradez e da honesti- dade como fizera até aquele momento. Embora fosse advogado, Gama não era homem de posses, pois, em consonância com Sud Menunucci (1938), ele fez da advocacia um sacerdócio a favor dos desfavorecidos, não podendo, consequentemente, essa profissão servir-lhe de esteio econômico. Por isso lega à família a extrema pobreza, mas assegura que a miséria não é um demérito, porém o mais importante atributo para uma vida virtuosa.

Conforme sinaliza Jair dos Santos (2014), Luiz Gama escreve a carta como quem tece um manual educacional. Prescrevendo condutas éticas e pedagógicas a serem seguidas pelo filho Graco, medidas estas imprescindíveis à sábia sobrevivência, Gama o aconselha a se manter distante dos homens poderosos. Essa advertência denota a preocupação paterna com o risco de que se reproduzissem na vida de seu rebento “as relações de dependência experimentadas por ele mesmo” (AZEVEDO, 2005, p. 99), devido à necessidade de negociação com a classe dominante para que ele,

enquanto sujeito marginalizado, pudesse adentrar os espaços nos quais assumiria uma posição de poder.

Republicano ferrenho, o abolicionista baiano desejava que as ações do filho Benedito de algum modo contribuíssem para que o Brasil viesse a ser um país sem reis e sem escravos, mas, sim, uma república, cujo povo perante a lei vivenciaria a igualdade de direitos, sonho ainda não concretizado, pois a desigualdade perpe- trada na sociedade brasileira impossibilita que todos os brasileiros nasçam “livres e iguais, em dignidade e direitos, como preceitua a Declaração Universal de Direitos Humanos” (COMPARATO, 2009, p. 11).

Ao pedir que Graco Pinto da Gama seja cristão e filósofo, Gama coloca fé e razão lado a lado, demonstrando ao filho que ele pode acreditar em alguma divindade, sem, no entanto, pertencer aos quadros de instituições religiosas, porque estas acabam dou- trinando as pessoas à ignorância e é o conhecimento que liberta o homem de suas cavernas. O poeta recomenda duas leituras ao seu descendente, “como se por si sós enfeixassem a sabedoria necessárias e suficientes para seu aperfeiçoamento intelectual e moral” (FERREIRA, 2007, p. 280). A primeira é uma obra sagrada, a Bíblia; a segunda, trata-se de uma obra profana intitulada, Vida

de Jesus Cristo, de autoria do filósofo francês Ernest Renan.

Dois meses após o bilhete endereçado a seu filho, Luiz Gama, em 26 de novembro de 1870, escreve ao amigo José Carlos Rodrigues, relatando-lhe alguns acontecimentos políticos, além de compartilhar informações da sua vida particular. O remetente Luiz Gama, também jornalista, dá notícias sobre a formação da loja maçônica América, a qual pertencia, e sobre a mobilização dos republicanos na capital paulista. Só então, após longos comentários

a respeito das movimentações políticas ocorridas no país naquele momento, é que o destinatário toma conhecimento de assuntos relativos à família do poeta:

É plano inclinado este da política, deixá-lo-ei para tra- tar de outros fatos menos importantes e mais íntimos. Casei-me. Escuso dizer-te com quem. O Dito já fala, traduz e escreve o alemão como um filho da Germânia. Isto é dito pelo professor que todos os meses empolga 51 000 r. [réis]. Estuda ele mais dese- nho, francês, inglês e geografia. [...]

Moro à margem do Rio Tamanduateí em uma nova e excelente casa de campo. [...]

Em nossa casa, sempre pobre, mas festejada de contí- nuo pela alegria, ainda toma-se o saboroso café pelas mesmas canecas que me deste; os lampiões são os mesmos que pertenceram-te; as cortinas das janelas foram tuas. Sobre o selador de mármore, que foi teu, está o álbum que deste-me com o teu retrato, com os de outros amigos, e uma biblioteca que foi do finado Macedo (FERREIRA, 2011, p. 195-96).

Logo na primeira frase, Gama demonstra que a política era prioridade absoluta em sua vida. No entanto, deixaria de abordá-la para tratar de fatos mais íntimos. Marido discreto, Luiz Gama não revela com quem se casara, Rodrigues fica sabendo apenas que o filho do amigo, carinhosamente chamado de Dito está sendo educado formalmente. Apesar dos parcos recursos, ao contrário do pai, Graco Pinto da Gama estava tendo uma vida menos dramática e, consequentemente teria um futuro mais promissor.

O rábula lembra Rodrigues que sua família ainda utiliza as canecas, as cortinas e os lampiões que lhe pertenceram, indicando

com isso que o advogado de destaque e principal integrante da Loja América engajado pela causa abolicionista “mostrava contar com a ajuda de amigos para sanar as suas mais simples carências, ficando evidente uma enorme disparidade entre a sua projeção social e o padrão de vida de seus familiares” (AZEVEDO, 2005, p. 99).

Enriquecer nunca foi o propósito de Luiz Gama, senão teria abandonado as suas convicções para defender os interesses de quem realmente poderia pagá-lo por seus serviços de advogado. Advogar para Gama era, antes de tudo, fazer justiça aos injusti- çados pelo sistema opressor do qual também fora uma vítima. Ao contrário da maioria dos colonizados, Luiz Gama não desejou “se instalar no lugar do colono” (FANON, 1968, p. 29). Para ele, mais importante que perpetuar a opressão era dissuadi-la de modo que os oprimidos pudessem emancipar-se.

No documento GRIOTS LITERATURAS E DIREITOS HUMANOS (páginas 87-92)