A Formação do Rio Grande do Sul é um livro planejado metodologicamente. Salis
Goulart desenvolve suas teses a partir do que define como leis tendenciais onde joga com três elementos: geografia, raça e forças sociais. Escrevendo no final da década de 1920, o poder explicativo das teorias deterministas já não possuía a mesma força do início do século, Salis Goulart afirma que, em sociologia, tendências e possibilidades têm mais capacidade elucidativa das formações sociais do que a dura determinação. O princípio de possibilidades geográficas toma de Vidal de La Blache, portanto, em teoria, opondo-se à determinação geográfica do final do século XIX, defendida por Friedrich Ratzel e Henry Thomas Buckle. As leis sociológicas que propõe as pretende como tendenciais e de acordo com “o moderno conceito da Sociologia”. Na contramão do discurso, pretendemos mostrar que categorias deterministas marcam regularmente as análises desenvolvidas no livro.
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MARTINS, 2011, p. 116 e 117.
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Procurando flexibilizar o caráter determinista de um ou outro aspecto social ou natural, Salis Goulart manipula esses elementos de forma que, por diferentes combinações, exerçam diferentes resultados.
I – quando as forças sociais ou raciais atuam no mesmo sentido que as possibilidades geográficas, a sua influência se torna real e máxima.
II – quando as forças sociais ou raciais são antagônicas com as possibilidades geográficas, podem dar-se dois resultados: a) as forças sociais ou raciais anulam totalmente as possibilidades geográficas; b) as forças sociais ou raciais não anulam as possibilidades geográficas e do seu encontro se origina um fato que participa tanto das forças sociais ou raciais como das aludidas possibilidades.9
Nessas proposições tenta quebrar a dureza das determinações específicas de um ou outro fator separadamente. Amplia essa justificativa salientando a plasticidade e as possibilidades de oposição e combinação de suas leis tendenciais. Critica “o velho pensamento de Comte”, elogiando a “moderna geografia social”.
Para o nosso tema é importante ver o sentido mais profundo das proposições de Salis Goulart, enquanto tese sociológica explicativa de formação do Rio Grande do Sul. Nesse aspecto, apesar da alegada flexibilidade ou do caráter tendencial, o importante é percebermos que tanto geografia, quando raça, quanto forças sociais (onde estariam moral, organização política, progresso material e imaterial e a cultura) determinam! A determinação da lei predomina sobre a possibilidade da tendência.
Quando Salis Goulart fala de povoamento não se atém a discriminar os diferentes tipos étnicos – como fazem Assis Brasil e Alcides Lima, que priorizam o colonizador europeu e eurodescendente, minimizando o indígena e ocultando o cativo negro – que compuseram a sociedade sulina, nem descreve, numa metodologia historiográfica, períodos de colonização. Sua análise é sociológica. De forma central, a tese é explicar o povoamento do território amparado na influência geográfica e racial. Para Salis Goulart, algo de peculiar aconteceu no Rio Grande do Sul, onde, diferentemente de outros lugares, foi o povoamento continental, e não litorâneo, que obteve sucesso. O litoral, praticamente sem portos e ancoradouros, empurrou o colonizador para o interior, onde os rios Jacuí, São Gonçalo e Guaíba funcionaram como “grandes estradas da civilização rio-grandense”.
O autor mostra que o povoamento ocorreu no interior e aponta para uma tentativa de explicação sociológica da forma como o território foi ocupado. Para ele, “duas classes sociais”, agricultores e fazendeiros – e vejamos que considera categorias sociais como classes, portanto não vê o conceito na óptica da luta de classes – definiram o caráter
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GOULART, Jorge Salis. A formação do Rio Grande do Sul. 4. ed. Porto Alegre: Martins Livreiro; Caxias do Sul: EDUCS, 1985 [1927]. p. 9.
socioeconômico do Rio Grande do Sul. Sua fórmula explicativa põe como ponto importante as diferentes zonas geográficas onde cada um desses segmentos sociais se estabeleceu. Identifica a colonização pastoril nas zonas de campos, em terras privilegiadas, descampadas e planas. A agricultura desenvolveu-se nas regiões florestais e serranas do norte do estado. A explicação oferecida para o fenômeno é voluntarista e não econômica. Esses agricultores teriam optado por estas terras agrestes e hostis. Em sua explicação, não foi o latifúndio e o caráter oligárquico da formação meridional do estado que resistiram à redistribuição de terras, que definiram a ocupação do território e empurraram novos colonizadores para serras e florestas. Não foi, portanto, um problema de reforma fundiária conforme aponta a historiografia recente.10
Após alguns exemplos das dificuldades enfrentadas pelas colônias do norte do estado, o elogio ao trabalho desses agricultores assume foros verdadeiramente heroicos, o que leva o autor a afirmar ter “dúvida sobre qual teria sido a razão que os induziu a procurarem a parte mais selvagem do território.”11 Contudo, logo à frente, oferece uma resposta determinista, citando os geógrafos franceses Jean Brhunes e CamilleVallaux:
Por que motivo se verifica essa atração do homem pela floresta?“enquanto sobre a estepe o homem se encontra facilmente com o menor esforço, numa vida pastoril, semi-contemplativa, onde o leite e a carne são suficientes para as necessidades, o terreno que se conquista à floresta recompensa os desbravadores. Estes se estabelecem, constituem família e os braços disponíveis se multiplicam para realizar a melhora, lenta e contínua, do solo agrícola aonde a produção aumenta e a zona do desbravamento cresce à medida que a família se desenvolve. Queimada a floresta, teremos um solo agrícola e um adubo pronto. A floresta, com seus materiais sólidos e inesgotáveis, da ao homem os elementos de sua casa. Estabiliza-o, provoca naturalmente a formação do grupo de cabanas que se tornará, amanhã, a aldeia. Além disso, a caça e a pesca nos rios que correm por entre as matas tornam a floresta muito mais fecunda do que a estepe”.12
Como se pode perceber, algo que já é resultado do processo de adaptação a um espaço hostil, como uma região de floresta, é apresentado como a causa que levou estes homens a, espontaneamente, ocuparem tais lugares.
Um último exemplo da importância atribuída ao meio espacial à conformação das sociedades humanas aparece no sétimo capítulo, dedicado à análise do “problema das raças”. Salis Goulart chama a atenção para a importância do clima que, de acordo com a “moderna ciência”, “exerce indiscutivelmente influência sobre a civilização”. Observa, amparado no geógrafo estadunidense Ellsworth Huntington, que o Rio Grande do Sul está localizado em
10 Cf. ZARTH, Paulo Afonso. História Agrária do Planalto Gaúcho. Ijuí: Editora da UNIJUÍ, 1997. 11
GOULART, 1985 [1927], p. 21.
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uma latitude temperada, ideal para o desenvolvimento material e cultural de um povo. Alerta para a nocividade dos rigores das temperaturas muito quentes, causa de “grande parte do atraso dos trópicos”. Conclui que “ao povo do extremo sul coube um dos melhores quinhões no que diz respeito ao problema étnico e ao problema geográfico: [...] um solo rico, um clima temperado, um dos povos mais eugênicos da América do Sul.”13
O livro A Formação do Rio Grande do Sul é divido em dez capítulos. Nos sete primeiros o autor avalia aspectos da formação social e política do estado e, nos três últimos, arrisca-se em algumas previsões para o futuro desta sociedade.
Consideramos o livro de Jorge Salis Goulart uma das obras mais importantes para pensar a questão racial no Rio Grande do Sul, por dois aspectos. Em primeiro lugar, pelo fato de o autor dedicar uma atenção central ao fator racial na fórmula sociológica elaborada para explicar a formação sulina. Em segundo lugar, pelo viés explicitamente vexatório com que percebe a presença do trabalhador negro escravizado e seus descendentes e, neste passo, procura anulá-los de duas maneiras: primeiro, negando a dimensão da luta de classes, das contradições e tensões sociais do sistema escravista; e, em seguida, enquadrando o negro como raça inferior.
Ao analisar este livro, optamos por não fazê-lo de forma linear, por capítulos, e sim por assuntos importantes para o nosso tema, tratados pelo autor. Dessa forma, não abordaremos todos os temas, nem tampouco todos os capítulos. Posteriormente daremos mais atenção a dois deles: o capítulo seis, dedicado “a formação do território” e ao capítulo oito, que trata do “problema das raças”.