Capítulo I: O problema da realização econômica
II. CONSIDERAÇÕES FINAIS
III.2 Decisões de Produção e de Demanda
III.2.2 A determinação do poder de compra agregado distribuído (Rd)
Nesta seção, analisa-se a determinação do poder de compra agregado distribuído ex-ante (Rd). Conforme apresentado no primeiro capítulo, quando se discutiu o problema de realização econômica do tipo I, existe um poder de compra que não é distribuído no momento da produção, gerado pelos gastos autônomos – o custo que não distribui poder de compra ex-ante será debatido na próxima subseção.
De acordo coma Figura III.5, a determinação do nível de produção Q, gera uma distribuição de poder de compra equivalente ao pagamento dos custos variáveis – conforme já levantado no capítulo 1, por se tratar de uma análise macroeconômica, deve-se desconsiderar os bens intermediários para não incorrer no erro de uma dupla contagem. Vale apontar que o Preço de Oferta agregado pode ser representado pela área do retângulo, cuja base é o nível de produção (Q) e a altura é o preço (P), enquanto o poder de compra distribuído agregado pode ser representado pela área de outro retângulo, cuja base é o nível de produção (Q) e a altura é o custo variável (CV). Caso se considere, num primeiro momento ao menos, que todo esse poder de compra – distribuído ex-ante – seja gasto e, portanto, utilizado para realizar uma parte da produção, pode-se considerar que esse poder de compra cria uma demanda induzida pela própria produção.
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Figura III.5
Poder de Compra Agregado Distribuído (Rd) = Custo variável Total
Fonte: elaboração própria;
Notas: P = preço; CV = custos variáveis
A partir da Figura III.5, observa-se que existe uma lacuna entre o preço (P) e o custo variável (CV). Tal análise nos remete à questão do custo que não distribui poder de compra ex- ante, que será debatida na próxima subseção.
Diante dessas colocações, cabe esclarecer o que determina o montante de poder de compra distribuído ex-ante vis-à-vis do Preço de Oferta agregado da produção. A ponderação principal é que essa relação será assentada pelo nível de emprego e pelo salário real. Como ideias subsidiárias, considera-se que o nível de emprego é determinado no mercado de bens e serviços e a distribuição do excedente social é definida a partir da luta de classes. Para que se chegue nessa construção, o caminho percorrido será: (i) a apresentação dos postulados da economia clássica de sua teoria do emprego, de acordo com a visão de Keynes, e como o autor rejeita essa teoria; (ii) mostrar como Keynes determina o nível de emprego no mercado de bens e serviços, por meio do Princípio da Demanda Efetiva; (iii) discutir a distribuição do excedente social ampliado,176 ou seja, de que forma a disputa política entre trabalhadores e empresários influencia o poder de compra que é distribuído ex-ante.
176 Conforme introduzido no segundo capítulo, mas que será aprofundado somente adiante, propõe-se uma definição
diferente do excedente, que deixa de ser aquilo que sobra depois do pagamento dos salários (e demais custos de produção), passando a ser considerado como a diferença entre o produto total e o produto necessário para manter os trabalhadores vivos, significando, portanto, que os trabalhadores podem ficar com uma parte do excedente social ampliado.
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Partindo por (i), o motivo pelo qual se inicia a discussão pelos clássicos, conforme mostrado no capítulo I, é porque a ortodoxia moderna usa, em essência, os mesmos pressupostos teóricos utilizados por essa escola. O ponto principal da questão, segundo Keynes (2009), de porque os clássicos afirmavam que não existiria desemprego involuntário, é a aceitação da Lei de Say, ou seja, de que a oferta geraria sua própria demanda.177 Neste cenário, os empresários não teriam preocupação em relação à venda de sua produção,178 mas apenas com o nível e a evolução de seus custos.
Dessa forma, quando o produto gerado pela contratação de um trabalhador a mais fosse maior do que o custo dessa contratação, necessariamente haveria o aumento do emprego. As contratações, de acordo com esse arcabouço, persistiriam até o ponto em que esses dois valores179 se igualassem180. Portanto, na ausência de preocupação com as vendas dos produtos, o volume de emprego seria definido por fatores ligados apenas à produção e seus custos, sendo determinado no mercado de trabalho.
A partir desse ponto, mostra-se necessário explicar porque não haveria desemprego involuntário para os clássicos. Sua teoria do emprego baseou-se, segundo Keynes (2009), em dois postulados: de acordo com o primeiro, “o salário é igual ao produto marginal do trabalho (KEYNES, 2009, p. 25)”; e o segundo considera que “a utilidade do salário, quando se emprega determinado volume de trabalho, é igual à desutilidade marginal desse mesmo volume de emprego (KEYNES, 2009, p. 25).”
Outra hipótese importante de ser mencionada, e que é aceita por Keynes (2009), é a tendência de que a produtividade do capital e do trabalho seja decrescente, ou seja, o produto marginal diminui conforme se aumenta a produção.
O primeiro postulado, de acordo com Keynes (2009), significa que o salário de uma pessoa empregada é igual181 ao valor que se perderia se o emprego fosse reduzido de uma unidade, ou seja, pela produtividade do último trabalhador contratado. Isso, aliado à hipótese do
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“[...] isto significa de modo expressivo, mas não claramente definido, que o total dos custos de produção deve ser gasto por completo, direta ou indiretamente, na compra do produto [...] (Keynes, 2009, p. 34)”.
178 Essa não preocupação deve ser pensada no plano macroeconômico, já que a oferta gera um poder de compra
equivalente ao valor da produção. Entretanto, é evidente que existe uma preocupação em termos microeconômicos, já que o nível de oferta deve respeitar as preferências da demanda.
179 Medidos, segundo Keynes (2009), em salários reais.
180 Na sequência será demonstrado que o aumento da produção apresenta produto marginal decrescente e os custos
marginais crescentes, fazendo com que em algum ponto (no nível de emprego de equilíbrio para os clássicos) as duas curvas se cruzem.
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produto marginal decrescente, significa que os salários também diminuem conforme se aumenta a produção.
Já em relação ao segundo postulado, entendendo por desutilidade do trabalho um valor mínimo que o trabalhador exige receber em decorrência dos aspectos negativos associados a qualquer atividade laboral, – e que se não for o valor oferecido induz os trabalhadores a recusarem trabalho ao invés de aceitar o salário proposto – ele significa que “[...] o salário real de uma pessoa empregada é exatamente suficiente (na opinião das próprias pessoas empregadas) para ocasionar o volume de mão-de-obra efetivamente ocupado [...]” (KEYNES, 2009, p. 25).
Dessa forma, o primeiro postulado pode ser considerado uma curva de demanda por mão- de-obra. E o segundo postulado, uma curva de oferta, conforme se nota na Figura III.6. Para a teoria clássica, a economia tenderia a operar sempre no pleno emprego (E*), já que, sempre que o produto marginal gerado pela contratação de um trabalhador adicional estiver maior do que esse salário “mínimo” exigido pelo trabalhador (como, por exemplo, no nível de emprego Na da
Figura III.6), haverá aumento do nível de emprego, até o ponto em que essas duas curvas se igualem, atingindo o pleno emprego e o nível de equilíbrio (na Figura III.6, essa situação equivale ao nível de emprego N*, ponto em que a utilidade do produto marginal iguala a desutilidade marginal do trabalho àquele nível de emprego). Portanto, o desemprego aparente – dos trabalhadores que não encontram emprego, em situações além de N* – seria fundamentalmente devido à recusa dos fatores não empregados em aceitar uma remuneração correspondente à sua produtividade marginal, e classificado como sendo de caráter voluntário – além disso, os clássicos aceitam também a ideia de desemprego friccional.182
Dessa forma, segundo Keynes (2009), haveria apenas quatro maneiras de aumentar o emprego de acordo com a teoria clássica: 1) melhora da organização, que diminua o desemprego friccional; 2) redução da desutilidade marginal do trabalho em salários reais, de modo que diminua o desemprego, ou seja, essa condição significa que se os trabalhadores aceitassem um salário real menor, o nível de emprego seria maior; 3) aumento da produtividade marginal do
182 De acordo com Keynes (2009), o desemprego friccional é decorrente de certas imperfeições de ajustamento do
mercado de trabalho, ocorrendo apenas momentaneamente, no intervalo em que se encontra uma pessoa entre um posto de trabalho e outro.
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trabalho nas indústrias produtoras de bens de consumo de assalariados;183 4) O deslocamento das despesas dos indivíduos não assalariados dos bens salariais para os de outras categorias.184
Figura III.6
Mercado de Trabalho dos Clássicos: Determinação do Emprego (N)
Fonte: Elaboração própria;
Notas: W/P = salário real; N = número de trabalhadores; N* = equilíbrio de pleno emprego
Entretanto, Keynes não concorda com a teoria clássica do emprego, e alega que “[...] amplas são as variações por que passa o volume de emprego sem que haja qualquer mudança aparente nos salários reais mínimos exigidos pelo trabalhador ou em sua produtividade [...]” (KEYNES, 2009, p. 28).
Diante dessa discórdia, Keynes (2009) acaba rejeitando o segundo postulado, entretanto, não rejeita o primeiro postulado da teoria clássica. A implicação disso é que ele, na Teoria Geral, supõe que os salários reais sejam determinados pela produtividade marginal do trabalho. Por outro lado, o autor aponta algumas falhas no segundo postulado, já que este implicava que sua curva de oferta de mão de obra se deslocaria a cada movimento de preços, o que não é corroborado pelos fatos, afinal, um aumento dos preços dos bens de consumo, por exemplo, não faz com que trabalhadores abandonem o emprego devido à queda do salário real. Keynes completa “[...] se a oferta de trabalho não for uma função dos salários reais como sua única variável, seu argumento desmorona-se por completo, deixando totalmente indeterminada a
183 Para mais detalhes ver Keynes (2009, p. 26). 184 Para mais detalhes ver Keynes (2009, p. 26).
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questão do que será o nível efetivo de emprego [...] (KEYNES, 2009, p. 27)”. Dessa forma, o salário real não representa a verdadeira medida da desutilidade marginal do trabalho e o segundo postulado deixa de ter validez (KEYNES, 2009, p. 28).
Não obstante, Keynes (2009) apresenta uma objeção ainda mais importante ao segundo postulado, já que ele significa que as negociações185 salariais entre trabalhadores e empresários determinam o salário real, além de que essas negociações se dariam em termos monetários, deixando implícita a ideia de que os trabalhadores poderiam:
[...] se desejassem, fazer coincidir os seus salários reais com a desutilidade marginal do volume de emprego oferecido pelos empregadores ao dito salário. Não sendo assim, desaparece qualquer razão para se esperar uma tendência à igualdade entre o salário real e a desutilidade marginal do trabalho [...] (KEYNES, 2009, p. 29).
Para Keynes, essa possibilidade não existia, já que “[...] provavelmente, não existe nenhum expediente por meio do qual a mão-de-obra, em conjunto, possa reduzir os seus salários reais a uma cifra determinada, revisando as cláusulas monetárias dos acordos celebrados com os empregadores [...] (KEYNES, 2009, p. 30)”.
Dessa forma, os autores da tradição clássica:
“[...] ignorando a hipótese especial em que se baseava a sua teoria, foram levados à conclusão inevitável e perfeitamente lógica, de acordo com essa hipótese, de que o desemprego aparente era fundamentalmente devido à recusa dos fatores não empregados em aceitar uma remuneração correspondente à sua produtividade marginal [...] (KEYNES, 2009, p. 32)”.
Assim sendo, Keynes admite que a teoria clássica do emprego seja logicamente coerente, entretanto, fundada em hipóteses que não eram condizentes com a realidade. Em especial, acreditava que a lei de Say acarretava nos maiores erros, como fica evidente na passagem: “[...] a hipótese da igualdade entre o preço da procura da produção global e o preço da oferta é que deve ser considerada como o ‘axioma das paralelas’186
da teoria clássica. Admitida esta hipótese, tudo o mais se deduz naturalmente [...] (KEYNES, 2009, p. 36)”.
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“O segundo postulado decorre da ideia de que os salários reais dependem das negociações salariais entre trabalhadores e empresários (KEYNES, 2009, p. 28)”.
186 Nessa parte, Keynes está fazendo uma referência a outra passagem “[...] os teóricos da escola clássica são
comparáveis aos geômetras euclidianos em um mundo não euclidiano, os quais, descobrindo que, na realidade, as linhas aparentemente paralelas se encontram com muita frequência, as criticam por não se conservarem retas, como único recurso contra as desastrosas interseções que se produzem (KEYNES, 2009, pp. 32-33)”.
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Vale observar, de acordo com a Figura III.7, que a igualdade entre o preço da procura da produção global e o preço da oferta faz com que as curvas Z e D sejam sobrepostas no mercado de bens e serviços, já que a oferta gera sua própria demanda, ou seja, para os clássicos a definição dos salários reais no mercado de trabalho acaba determinando o nível do produto e do (pleno) emprego da economia.
Figura III.7
Mercado de Trabalho dos Clássicos: Determinação do Emprego, do Salário Real e do Produto
Fonte: Elaboração própria;
Notas: W/P = salário real; N = número de trabalhadores; N* = equilíbrio de pleno emprego; PMg = produto marginal do trabalho
Adentrando em (ii), como Keynes (2009) contesta a validade das hipóteses clássicas para explicar o nível de emprego da economia, só lhe resta debater a questão de uma forma diferente. Já que para o autor a Lei de Say não era válida, o nível de emprego não seria determinado pela intersecção das curvas do produto marginal do trabalho e da desutilidade marginal do trabalho, ou seja, no mercado de trabalho. Para ele, essa determinação ocorreria no mercado de bens e
serviços. E para fazer essa explicação ele utiliza o princípio da Demanda Efetiva.
Para tanto, Keynes (2009) parte do suposto de uma dada situação técnica, de recursos e de custos, que imporia ao empresário, de acordo com o nível de emprego, dois tipos de gastos: o
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primeiro é o custo de fatores, com exceção187 do que paga a outros empresários, e o do segundo tipo é o custo de uso188 e o que paga a outros empresários. A diferença entre o valor da produção e esses gastos é a renda do empresário, também chamada de lucro, que é a quantia que os empresários visam elevar ao máximo quando vão decidir qual volume de emprego vão oferecer. A renda total que é gerada pelo nível de emprego oferecido pelo empresário é igual ao lucro mais o gasto do primeiro tipo – custo de fatores. Logo, conforme se pode perceber, por esse arcabouço o poder de compra é integralmente distribuído ex-ante, o que significa, portanto, que ele é equivalente ao Preço de Oferta agregado, ou seja, não se leva em conta a possibilidade do problema de realização econômica do tipo I.
Para Keynes, “[...] o preço da oferta agregada da produção resultante de determinado volume de emprego é o produto esperado, que é exatamente suficiente para que os empresários considerem vantajoso oferecer o emprego em questão [...] (KEYNES, 2009, p. 37)”. Ou seja, pode-se considerar o preço da oferta agregada como uma curva de custos, ou a estimativa de um valor mínimo que os empresários necessitam receber para produzir a um determinado nível de emprego – como se pode notar, o lucro está incluído nesse valor mínimo.
Considerando a demanda agregada de determinado nível de emprego como o nível de receita que os empresários esperam receber da correspondente produção, Keynes (2009) alega que os mesmos resolvem produzir quando o preço de oferta se iguala à demanda agregada. Assim, os empresários se esforçam por fixar o volume de emprego ao nível em que esperam maximizar a diferença entre a receita e o custo dos fatores. Com isso, pode-se perceber uma diferença muito importante em relação aos clássicos na questão da determinação do nível do emprego, já que não se trata de uma negociação entre trabalhadores e empresários, mas fica subentendida uma decisão unilateral dos últimos.189
Mas o que faz do mercado de trabalho um mercado particular? O ponto crucial é que a quantidade do bem nele negociado é determinada fora dele. Isso porque há uma assimetria fundamental entre os dois agentes que compõem o mercado: somente o comprador tem o poder de determinar a quantidade do bem transacionado (FERREIRA, 1997, p.11 ).
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O motivo para essa exceção, tal qual já discutido no primeiro capítulo, é evitar dupla contagem, dado que se trata de uma análise macroeconômica.
188 Para mais detalhes, ver Keynes (2009, p. 37).
189 Com a restrição apenas de que os salários não fiquem abaixo da desutilidade marginal do trabalho, fato que
geralmente não ocorre, já que muitas pessoas não encontram emprego, mesmo aceitando receber um salário menor do que o vigente.
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Resumidamente, Keynes define duas funções: função de oferta agregada, Z = Φ(N), representando o preço da oferta agregada, que engloba o rendimento mínimo esperado que faça o empresário considerar vantajoso oferecer o emprego em questão, isto é, pode-se considerar o preço da oferta agregada como o custo da produção esperado, incluídos aqui os lucros, resultante do emprego de N trabalhadores; e função de demanda agregada, D = f(N), representando a receita esperada pela venda dessa produção. A partir dessas funções, vem uma das partes mais importantes da obra, sendo considerado pelo próprio Keynes (2009) como a essência da sua Teoria Geral do Emprego, mas, que gera alguma discussão por uma escolha confusa190 191 dos termos:
[...] o volume de emprego é determinado pelo ponto de interseção da função da demanda agregada e da função da oferta agregada, pois é neste ponto que as expectativas de lucro dos empresários serão maximizadas. Chamaremos demanda efetiva o valor de D no ponto de interseção da função da demanda agregada com o da oferta agregada [...] (KEYNES, 2009, p. 38).
Assim, conforme se observa na FIGURA III.8, Keynes (2009) alega que haveria um incentivo aos empresários aumentarem o valor de N, caso a expectativa de que a demanda agregada, a esse nível de emprego, seja superior ao valor de Z (na Figura III.8, isso ocorre quando o nível de emprego é N (D > Z)). Nem que para isso fosse necessário elevar os custos, com os empresários disputando os fatores de produção.
No prosseguimento de sua explanação, mais uma vez Keynes (2009) ressalta as falhas da teoria clássica, em especial quanto à “[...] lei de Say, segundo a qual o preço da demanda agregada da produção em conjunto é igual ao preço da sua oferta agregada para qualquer volume de produção, [o que] equivale à proposição de que não há obstáculo para o pleno emprego (KEYNES, 2009, p. 39)”. Isso implica que “[...] a demanda efetiva [no arcabouço clássico], em vez de ter um único valor de equilíbrio, comporta uma série infinita de valores todos igualmente admissíveis e que o volume de emprego é indeterminado, salvo à medida que a desutilidade marginal do trabalho lhe fixe um limite superior (KEYNES, 2009, p. 39)”. Assim, mais uma vez,
190 Para Chick “[...] a escolha dos termos de Keynes é muito confusa, e ele próprio não se utiliza deles de maneira
coerente [...] (CHICK, 1993, p. 71)”. Para ela, os conceitos de demanda efetiva e demanda agregada são muito parecidos. Além disso, “Demanda efetiva é um termo infeliz, pois realmente se refere à produção que será oferecida; em geral não há certeza de que ela seja também demandada [...] (CHICK, 1993, p. 72)”.
191 Mais um autor que trata do princípio da demanda efetiva é Possas (2001): “[...] em Keynes ele é em boa medida
obscurecida pela dificuldade do autor em expô-lo claramente num contexto em que pretende, paradoxalmente, enfatizar a determinação ex ante da produção e do emprego (POSSAS, 2001, p. 101)”.
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o autor demonstra sua preocupação com a necessidade de uma teoria que explicasse melhor o nível de emprego da economia, de preferência uma teoria que incorporasse a possibilidade real de que a economia operasse permanentemente abaixo do pleno emprego – conforme a Figura III.8, pode-se observar um equilíbrio em que N é menor que N*.
FIGURA III.8
Mercado de Bens e Serviços de Keynes: Determinando o Nível de Emprego (N) através da “Demanda Efetiva”
Fonte: Elaboração própria;
Notas: W/P = salário real; N = número de trabalhadores; N* = equilíbrio de pleno emprego
No terceiro capítulo da Teoria Geral, Keynes (2009, pp. 39-42) apresenta brevemente sua teoria do emprego: 1) Sob certas condições de técnica, de recursos e de custos, a renda depende do volume de emprego N; 2) A quantidade de mão-de-obra que os empresários resolvem empregar depende da soma de duas quantidades: o montante que se espera que seja gasto em consumo (D1) e o montante que se espera que seja aplicado em novos investimentos (D2). A soma
D1 + D2 = demanda efetiva; 3) O consumo (D1) depende da renda agregada, na relação chamada
de propensão a consumir, ou seja, a proporção da renda que é gasta em consumo, e esta dependerá das características psicológicas da comunidade; 4) O investimento (D2) depende da
relação entre a escala da eficiência marginal do capital192 e o complexo das taxas de juros; 5) O nível de emprego, portanto, depende: a) da função da oferta agregada; b) da propensão a
192 A eficiência marginal do capital corresponde ao valor presente dos fluxos de rendas futuras esperadas de um