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1.4 TRABALHOS DIALETOLÓGICOS REALIZADOS NOS DEMAIS ESTADOS DO BRASIL

1.4.3 A Dialetologia Monodimensional ou Tradicional

Thun (1998 apud ALTINO, 2007, p. 31) “propõe uma classificação dos atlas linguísticos em monodimensionais, bidimensionais e pluridimensionais. Os atlas monodimensionais estão focados na dimensão espacial, por isso permitem a identificação do uso da língua dentro de uma determinada área geográfica”. Eles consistem, portanto, em estudar as particularidades de uma língua de uma determinada área, em seu espaço geográfico. O espaço geográfico, por sua vez, “evidencia a particularidade de cada terra, exibindo a variedade que a língua assume de uma região para outra, como forma de responder à diversidade cultural, à natureza da formação demográfica da área” (CARDOSO, 2010, p. 15). Por esta razão, a importância desse tipo de atlas se assenta sobre o fato de analisarem, estudarem e trazerem em sua metodologia também os dados linguísticos mais antigos e não influenciados da língua na localidade, tendo como seu intuito primordial descrever os dialetos.

Com o advento da Geolinguística fica exequível a elaboração dos atlas dialetais, f a t o q u e f e z d e s t e s a característica mais significativa para os registros linguísticos de uma localidade. “A dialetologia tradicional estava ocupada da distribuição geográfica dos dialetos: uma das atividades mais clássicas era a proposição de isoglossas (linhas imaginárias) que delimitam dialetos ou falares próprios de uma determinada região” (RAZKY ; GUEDES, 2013, p.54).

O termo isoglossa foi utilizado inicialmente por Bielenstein, em 1892, e significa “língua (glossa) igual (iso) ”. Significa um limite virtual de variantes linguísticas ajustando-se ao espaço geopolítico, servindo como um aporte das delimitações dialetais. Aliás, as isoglossas são as linhas que marcam as fronteiras de uma região para a outra, dessa forma essas regiões se diferenciam pelos seus aspectos linguísticos.

Ainda nessa reflexão sobre o conceito de isoglossas, Margotti (2004, p.83) informa que “a definição de isoglossas permite definir o dialeto como um feixe de isoglossas, ou seja, um conjunto de isoglossas que, somadas, formam uma relativa homogeneidade dentro de uma comunidade linguística em confronto com outras”. Porém, como toda língua passa por

processos históricos e se constitui de dialetos, a homogeneidade faz com que não se tenham limites dialetais de um lugar para outro, uma vez que uma pessoa pode ser de um lugar (espaço geográfico) e migrar para outro lugar. Desse modo, o indivíduo precisará não somente conviver com outros tipos de dialetos, mas também aprender e compartilhar o seu modo de falar.

A figura abaixo refere-se à discussão da divisão dialetal do português brasileiro proposta por Nascentes, em 1953, mostrando os traços de isoglossas que dividem o país em dois grupos de falares: o do Norte e o do Sul. Neste último estão inseridos os falares Baiano, Fluminense, Mineiro e Sulista; enquanto naquele, os falares Amazônico e Nordestino (AGUILERA; ALTINO, 2012, p. 877).

Figura 1: Isoglossas no Brasil segundo Nascentes (1953, p.18) Fonte: AZEVEDO, 2013, p.65 15

Num mapa linguístico, além de demarcarem os limites dialetais, as isoglossas podem diagnosticar as diferenças, bem como suas possíveis semelhanças, as quais vão além das variações diatópicas:

Diferenças linguísticas de natureza sociocultural (isoglossas diastráticas) e de diferenças de estilo (isoglossas diafásicas). As isoglossas recebem ainda outra classificação quanto à natureza dos fatos linguísticos, podendo ser de caráter lexical (isoléxica) como as variantes lexicais empregadas na definição de “mandioca” entre a região norte e nordeste do Brasil, fônica (isófona) (MARGOTI, 2004, p. 84).

É possível encontrarmos, pois, diferenças dialetais entre os diferentes segmentos da sociedade, antes esquecidos na Dialetologia tradicional ou diatópica. Além da

representatividade de atitudes linguísticas, variantes fonéticas, variantes morfossintáticas, variantes semântico-lexicais em um mapa dialetal, existe também a possibilidade de traçarmos isoglossas para demarcar os limites das variantes linguísticas.

Para Altino (2007), “um Atlas linguístico fornece uma imagem multidimensional, ele mostra onde e como se dão as variações no espaço físico e social”. Daí o fato de um atlas ser considerado como monodimensional: porque possui o interesse de cartografar apenas na dimensão diatópica, uma vez que os indivíduos se estabelecem nos espaços geográficos, constituindo, dessa forma, vínculos linguísticos conforme suas práticas culturais.

A Dialetologia tradicional priorizava apenas um único tipo de informante, primordialmente: um homem adulto, com uma certa idade, de baixa escolaridade, residente principalmente da área rural, nascido e criado no lugar.

O pressuposto básico é que esse informante conhece melhor a cultura da comunidade e, consequentemente, pode ser o legítimo representante da variação do lugar. A baixa escolaridade é um critério que se justifica por conta de o informante ter menos capacidade de monitorar sua própria fala. Justamente por tomar o espaço areal como contexto para a investigação da fala, a dialetologia apresenta quadros multiformes da realidade linguística, em que a descrição da fala nos espaços geográficos constitui verdadeiros documentos do registro dos elementos que se unem à história, à cultura, aos percursos, aos trajetos no espaço e aos contatos entre as diferentes culturas. À Geolinguística ou geografia linguística cabe a tarefa de ser um método utilizado pela dialetologia (CORREA, 2012, p. 3).

Mediante esses aspectos relativos à dimensão tradicional, a escolha para alguns tipos específicos de informantes, tais como uma certa preferência pelos núcleos com redes de pontos para área rural, localidades em que se encontra a mais antiga das formas de tratamento linguístico ─ pois possuem pouca escolaridade e são pouco viajados ─, pode ser explicada pela possibilidade de eles poderem exprimir a forma lexical mais verdadeira, posto conhecerem melhor a cultura daquela localidade. Como exemplos de atlas monodimensionais podemos citar o APFB (Atlas Prévio dos Falares Baianos) e o EALMG (Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais), listados por Romano (2013, p. 217), pois “não apresentam na cartografia variáveis sociais, privilegiando a dimensão diatópica”.