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A dicotomia do Lembrar-se e do Esquecer-se – Faces da Memória

De certa forma continuamos a tratar de tempo: a memória está intrinsecamente ligada a ele, ainda que obedeça ao império da subjetividade. Contudo o Lá-Fora interage constantemente com ela, para ajudá-la em seu piedoso mister de situar as almas incautas em relação ao que se quer e o que não se quer recordar. O lembrar-se e o esquecer-se, como elementos de um ato perceptivo, aproximam o homem da noção de eternidade e do quanto as coisas permanecem em um estado cíclico: da memória nada se apaga. E essa impossibilidade de se apagar da alma aquilo que se viveu aumenta a Inquietação à qual nos referimos, faz com que o ser transite no absoluto do tempo, para acessar aquilo que permanece como aparições constantes nesta linha que muito lembra o Oroboros. O real assim, imerso nesta eternidade, aparece para Vergílio Ferreira (1978, p.88):

Mas se o absoluto do tempo é a eternidade do presente, à sua dimensão original podem aceder o futuro e o passado. Porque essa é a dimensão de todo o real que está para além do real, de todo o incondicionado que está para lá do condicionamento, de todo o mistério que está para além do inteligível. O passado e o futuro podem ser o tempo do acontecer imediato, da realidade tangível, da concreta projeção de um ―eu‖ que se projeta, como podem ser a abertura do absoluto no ontem e no amanhã.

Em suas obras como um todo a memória, ou mais precisamente, este ato de recordação e esquecimento é característica fundamental da atitude dos narradores- protagonistas que estão sempre em (des)compasso com o mundo no qual se movimentam. É praticamente a linha que anda paralela ao tempo, e tão desmantelada quanto ele, com idas e vindas, também se faz cíclica, repetitiva, fazendo com que o tempo se desmanche em si, aumentando a sensação de caos, alicerçando o absurdo. Para tentar escapar a ele corre o perigo de estar sempre inquirindo a si mesmo, uma vez que neste tempo humano Deus não comparece; então, a memória tem de ser perscrutada de forma cuidadosa para que se enfrente o dia-a-dia:

Do mesmo modo o passado pode erguer-se-nos em três zonas distintas, desde a recordação concreta à memória absoluta. No domínio prático, nas relações imediatas, é a rememoração concreta que se nos determina para o agir quotidiano. Os atos que realizo ou vou realizar abrem-se à superfície consistente do dia-a-dia e é na consistência do passado que procuram ou firmam a sua ligação. Assim recordo o que desse passado me interessa para a engrenagem do que neste momento realizo ou vou realizar amanhã. Porque não há recordação senão para uma dimensão prática. Quando a ação avulsa e determinável se esvai, quando a concreção se dissolve, o que se ergue do passado não é a recordação, mas a evocação. Quando recordo pormenorizadamente e friamente o que pensei ou fiz ou disse, é quando isso tem uma finalidade imediata para o que vou dizer ou fazer. A ―recordação‖ gratuita sem um fim imediato, desprende-se da ―realidade‖ e abre para a legenda. (FERREIRA,1978, p.92) (grifos originais)

Essa evocação que se sobrepõe à memória imediata de um mundo imediato (1978, 92) é emblemática no modo vergiliano de narrar: ele faz com que as estruturas de visibilidades e invisibilidades comecem a se estabelecer de forma mais efetiva, — conferiremos mais tarde como isso se interliga com o espaço narrativo e com outros elementos de ordem fenomenológica presentes nas obras analisadas — coordenando, ou enganando — quem sabe —, a percepção dos narradores frente ao mundo circundante. E o quanto isso representa uma perenidade trágica da memória e dos atos que muitas vezes deveriam ser esquecidos, mas que retornam à tona para uma tentativa de autojustificação frente ao que foi executado. Sobre essa manifestação presente do passado, Robert Sokolowski (2004, p.77) diz-nos que:

Uma nova mistura de presenças e ausências nasce por intermédio da memória, uma nova multiplicidade de manifestações por meio das quais um e o mesmo objeto pode ser dado em sua identidade. Na memória não reativamos apenas um objeto, mas um objeto como se manifestando lá e naquele tempo, e ainda manifestando-se aqui e agora, mas somente como passado.

A tipologia deste passado que se imiscui na eternidade lança os personagens a uma reabertura do seu parco senso de linearidade, a proximidade de terrores e fantasmas e a quase certeza de sua perdição particular. A memória nos personagens vergilianos é a própria transfiguração do presente e da eternidade, a própria identidade de seus personagens. Eles buscam a presença, como diz Merleau-Ponty (2007, p.557):

É em meu ―campo de presença‖ no sentido amplo — neste momento em que passo a trabalhar tendo, atrás dele, o horizonte da jornada transcorrida e, diante dele, o horizonte da tarde e da noite — que tomo contato com o tempo, que aprendo a conhecer o curso do tempo. O passado mais distante tem, ele também, sua ordem temporal e uma posição temporal em relação ao meu presente, mas enquanto ele mesmo foi presente, enquanto ―em seu tempo‖ ele foi atravessado por minha vida, e enquanto ela prosseguiu até agora. Quando evoco um passado distante, eu reabro o tempo, me recoloco em um momento em que ele ainda comportava um horizonte de porvir hoje fechado, um horizonte de passado próximo hoje distante.

O paradoxal em todo esse processo é a transição constante entre presente e

eternidade e que são transpassados pela memória. Vergílio se afasta um pouco dos

princípios expostos por Merleau-Ponty — que desconfia do sentimento de eternidade — mas chega ao mesmo ponto ao final do raciocínio: em suas obras a eternidade por vezes assume um aspecto de onírica incerteza que se disfarça — ou chega — aos páramos da realidade dita objetiva. Como os romances são sempre em primeira pessoa, por narradores que não têm conhecimento de tudo que passa ao redor de si o que resta para a compreensão de quem lê é o abismo de evocações que truncam os episódios, assumindo por vezes um caráter nebuloso de dúvida e ambiguidade mortal, feroz até para os sentidos dos narradores, que tentam, com as lembranças, ancorarem desesperadamente suas almas neste mesmo sentimento de tempo que sabem distante e muitas vezes inútil para suas almas presas dentro de mundos fechados e cerrados eles próprios no abismo de suas mentes. Para eles, só vale o final desta fala de Merleau-Ponty (2007, p.567-568):

O que não passa no tempo é a própria passagem do tempo. O tempo se recomeça ontem, hoje, amanhã, esse ritmo cíclico, essa forma constante pode-nos dar a ilusão de possuí-lo por inteiro de uma só vez, assim como o jato d‘água nos dá um sentimento de eternidade. Mas a generalidade é apenas um atributo secundário do tempo e só dá dele uma visão inautêntica, já que não podemos nem mesmo conceber um ciclo sem distinguir temporalmente o ponto de chegada e o ponto de partida. O sentimento de eternidade é hipócrita, a eternidade se alimenta do tempo. O jato d‘água só permanece o mesmo pelo ímpeto continuado da água. A eternidade é o tempo do sonho, e o sonho reenvia à vigília, à qual ele toma de empréstimo todas as suas estruturas.

Se o ato de recordar é de suma importância, o de esquecer, nas tramas vergilianas é sumamente significativo, porque acaba transparecendo não somente o estado de espírito das personagens — algo que veremos pormenorizadamente mais

adiante —, mas metaforizando o espaço narrativo como um todo. O esquecimento com todo o seu quê de abandono e de vazio, de algo que serve para exilar de nós aquilo que nos é doloroso, cria ambientes ao redor de nós propícios para o seu exercício. Por outro lado, esse mesmo ambiente termina por se tornar um enorme palimpsesto da alma: da memória nada se apaga; e cada lembrança retorcida retorna constantemente em cada objeto ou paisagem por onde a alma se movimenta. Desta forma o esquecimento, em Vergílio Ferreira é também topológico ou tópico, como afirma Harald Weinrich, em seu ensaio sobre o esquecimento, que neste trecho que citamos a seguir, acaba por nos dar, involuntariamente, uma descrição do espaço narrativo vergiliano:

Em um ou outro sentido as metáforas do esquecimento se relacionam com as da memória. Quando, por exemplo, a memória é descrita como uma paisagem (―tópica‖) — expressa isso no campo imagístico predominante na mnemotécnica retórica -, e a metáfora do esquecimento ocupa nessa paisagem sobretudo os locais ermos, como os terrenos arenosos, nos quais é desmanchado pelo vento aquilo que deve ser esquecido. Por isso quase dá na mesma se

escrevemos algo na areia ou no vento. Nessa paisagem que talvez

tenha surgido de um lugar vazio onde as árvores foram derrubadas, talvez também se possa enterrar algo de tal modo que o capim cresça

sobre essa coisa. Então ela terá desaparecido do mundo?

(WEINRICH, 2001, p.21) (grifos originais)

E, de fato, nos romances, os narradores parecem estar neste compasso de espera por um desaparecimento, seja das coisas ou até do mundo mesmo, dado o ambiente hostil que começa a desabar como recordações desagradáveis, algo que não se consegue esquecer e que enche de trevas e de névoas. A sensação de que a natureza e seu estado começam a sugar as coisas em derredor lança todos no

locus terribilis ao qual nos referimos, que ratifica a colocação de Weinrich que diz

que os espaços de profundeza e de trevas são, por excelência, o topos do esquecimento:

O esquecimento que está escondido ou abrigado na profundeza, é, pois, escuro segundo sua natureza; é ―esquecimento trevoso‖ (Schiller), ―o esquecimento sombrio‖ (Victor Hugo). Mesmo em campo aberto e na luz do dia, o esquecimento é escurecido por nuvens (Píndaro) ou por névoa (Jorge Semprún). (WEINRICH, 2001, p.22)

Esta preocupação vergiliana em dar tanto destaque ao esquecimento também é reflexo de sua formação clássica (cuja incursão mais evidente no questionamento de temas relacionados aos temas greco-latinos pode ser conferida em Na tua face31) que opõe de certa forma — e podemos perceber pela ambiguidade e pelo desacerto dos narradores, principalmente o de Alegria breve — o Fim aguardado (típico da mitologia judaico-cristã), com toda sua retilinearidade e a ciclicidade grega (KERMODE, 1994,p.60) que nos dá a crença no retorno da Idade do Ouro.

Assim, desta maneira, podemos compreender, dentro da poética vergiliana uma tríade que envolve a memória, a expectativa e o esquecimento: numa primeira instância a memória alicerça a narrativa, lançando o personagem para a expectativa do que pode vir para depois, em um estado crítico, fazendo com que ele busque o esquecimento impossível, uma vez que ele acaba se afogando numa torrente de recordações incontroláveis e assim, sucessivamente, na repetição deste ciclo sem a possibilidade de um ponto final.