4.1 O planejamento é a mãe de todas as Copas
4.1.1 A diferença entre o bom e o mau planejamento
Pillay e Bass (2008) escrevem, antes mesmo da Copa acontecer, sobre o potencial do Mundial de 2010 como catalisador de um processo de desenvolvimento. Os autores mencionam como desenvolvimento e renovação urbanas foram tidos pelo governo sul-africano como metas nacionais, e como o Mundial colaboraria para o crescimento de uma economia orientada em seis grandes centros urbanos18, contribuindo no processo de crescimento econômico e geração de empregos por todo o país. Por volta de 2006, “parecia que o evento apresentaria à África do Sul uma oportunidade única de acelerar o ímpeto de desenvolvimento em municipalidades e grandes cidades” (PILLAY; BASS, 2008, p. 331). Decisões sobre projetos urbanos pareciam estar sujeitos a uma orientação democrática, “com princípios de crescimento, equidade e sustentabilidade vistos como mutuamente apoiadores, senão vistos como necessários nos planos em si” (PILLAY; BASS, op.). A África do Sul parecia ciente e trabalhando com a hipótese de que a experiência de alguns países que haviam organizado Megaeventos anteriormente resultou em oposição de comunidades marginalizadas, que ficaram de fora do processo de enriquecimento gerado pelos eventos. Levando em consideração a bibliografia sobre o potencial dos Megaeventos em gerar desenvolvimento, Pillay e Bass (op.) argumentam que os organizadores consideraram dois elementos como vitais: (1) o evento deveria ter o potencial catalisador de melhorar as condições de vida dos historicamente desprivilegiados como objetivo; (2) redesenhar as cidades separadas pelo apartheid e criar novas ligações entre as pessoas deveria ser um esforço vital. Os autores também consideram que “o processo de debate, diálogo e reflexão por um lado, e o negócio então imediato de construção e aprimoramento de infraestrutura por outro, não eram processos mutuamente excludentes, e precisariam necessariamente informar um ao outro [sobre seus andamentos]” (p. 332). Se tudo ocorresse como deveria, garantem os autores, o planejamento traria benefício para todos os sul-africanos, beneficiando também o potencial das cidades para negócios, visto que a melhoria de condição na vida das pessoas traria benefícios sociais para as grandes cidades do país, que teriam sua
18Os “seis grandes centros urbanos” até 2011 eram: Cidade do Cabo, Joanesburgo, Pretória, Germiston, Durban e Port Elizabeth. Em 2011, East London e Bloemfontein foram incluídas na lista. (JOHN; MAHLANGU, 2011).
identidade, sua imagem e seu “status estético” realçados, suprindo a demanda do mundo globalizado por cidades “distintas” e “diferenciadas” (PILLAY; BASS, 2008, p. 330-332).
Em sua análise retrospectiva, os autores citam cinco diretrizes, que, caso seguidas com sucesso e tomadas seriamente como parte do planejamento, dariam motivos para pensar que a Copa do Mundo de 2010 seria uma oportunidade única para o desenvolvimento da África do Sul: (1) deveria-se criar, sob supervisão do Comitê Organizador Local, com colaboração do governo nacional e das cidades, uma estrutura nacional de desenvolvimento que estivesse em coesão com os objetivos anunciados durante a proposta de sediar o evento. As cidades teriam a liberdade de tomar decisões em mecânicas específicas de implementação de planos de desenvolvimento, desde que seguissem as condições do planejamento central; (2) se o fato de sediar o Mundial renovaria a expressão do já fundamentado conjunto de planos de renovação e regeneração das cidades, seria de máxima importância “que as cidades regulassem e revisassem suas séries de estratégias de desenvolvimento pré-existentes de forma alinhá-las com as diretrizes de desenvolvimento esboçadas na proposta de candidatura” (PILLAY; BASS, 2008, p. 333); (3) as cidades deveriam começar a cooperar, por mais difícil que pareça, entendendo que os benefícios potenciais do Megaevento seriam bens públicos nacionais; (4) o COL deveria ter mais cuidado e menos confiança nas suas relações com a Fifa, visto que a Fifa, como “dona” do evento, e buscando lucrar com ele, poderia afetar a agenda de desenvolvimento conforme ditasse a natureza da disposição dos negócios, das parcerias comerciais e de outras transações econômicas; (5) por fim, a opinião pública deveria ser levada em consideração, sendo medida e analisada com maior frequência, de forma que os organizadores e governantes soubessem em tempo real como a organização do Mundial estaria ou poderia estar impactando a vida das pessoas, sobretudo as mais marginalizadas (PILLAY; BASS, 2008, p. 333-334).
Essas diretrizes, salientam os autores, ficaram no mundo das ideias, desperdiçando a oportunidade única que estava nas mãos da África do Sul. O principal problema, para a infelicidade dos sul-africanos, foi a recusa das cidades-sede em trabalhar conforme o planejamento. Ao invés de se alinhar com planos de desenvolvimento, as cidades preferiram ter seus próprios planos, aspirando inserção internacional e competitividade global em filosofias neoliberais, orientadas para o mercado, que visavam colocar cidades como Joanesburgo entre as áreas metropolitanas mais competitivas do mundo, ao invés de resolver seus problemas sociais, que obviamente as distanciam desse objetivo. Dessa forma, ao invés de cooperar, as grandes metrópoles sul-africanas passaram a competir entre elas, tentando atrair para si benefícios que deveriam ser observados por todo o país, como a criação de empregos, o aprimoramento de serviços e infraestrutura e o desenvolvimento de uma identidade coletiva
(PILLAY; BASS, 2008, p. 333-334). A relação entre o governo e a Fifa também tolheu quaisquer chances de que o Mundial fosse aproveitado para gerar desenvolvimento:
De fato, a África do Sul praticamente se colocou de joelhos diante da Fifa nos anos de sua preparação, aceitando todas as exigências da entidade e ainda acatando que estrangeiros fossem estabelecidos em Johanesburgo para tocar o evento, numa humilhação e sinal de que a Fifa simplesmente não confiava que as coisas funcionariam na África do Sul se elas fossem deixadas apenas aos gerentes locais (CHADE, 2015, p. 238).
A expectativa de que o Mundial mudaria a vida de milhões de pessoas deu lugar a explicações vagas sobre o legado da Copa. Em uma medida tanto astuta quanto covarde, o então presidente Jacob Zuma teria declarado que “O maior legado dessa Copa é o orgulho nacional e isso não tem preço” (CHADE, op), justificando os gastos dos sul-africanos com a Copa meramente como um bem intangível, de difícil mensuração, cuja análise acadêmica, de tão inviável, se torna imprecisa, e de tão imprecisa, se torna irrelevante. A verdade é que, se as expectativas iniciais esperassem um retorno financeiro equivalente a 0,5% do PIB sul-africano, os cálculos do Conselho de Pesquisa de Ciências Humanas do país resultaram em gastos equivalentes a 6,4% do PIB em 2010. A Fifa, por exigência própria para ceder o evento à África do Sul, deixou de pagar US$ 15 milhões em impostos e seus executivos ainda foram beneficiados com mimos que totalizaram US$ 80 milhões. Ao final do evento, enquanto muitos dos cidadãos sul-africanos voltavam à dura realidade em que vivem, a Fifa acumulou, somente nesse mês de jogos, uma receita de US$ 3,2 bilhões (CHADE, 2015, p. 239).