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II. A IMPRENSA REPUBLICANA

2.1 A difusão das ideias republicanas em Angola

A origem dessas ideias em Angola, numa condensação do iluminismo e do liberalismo, mas também do socialismo romântico e, principalmente, do nacionalismo, estaria basicamente em três vertentes ou na combinação delas: na presença dos degredados políticos brasileiros e portugueses enviados para Angola desde muito cedo, na implantação da maçonaria e na difusão por vários meios, inclusive da imprensa europeia e brasileira, dos ideais libertários propostos por uma série de revoluções dos finais do século XVIII, como a norte-americana, a francesa e a de São Domingos, e do século XIX, como a portuguesa de 1820. O movimento independentista verificado no Brasil nesse período teve um grande impacto em Angola, devido aos vínculos comerciais, políticos e culturais que ligavam os dois territórios. Para lá foram deportados líderes da Inconfidência Mineira149 e da Revolução Pernambucana150. A presença desses degredados teria influenciado a

corrente surgida em Angola após a proclamação da independência do Brasil, em 1822, a defender a sua separação de Portugal e união ao Brasil.151 Em relatório de setembro de 1824, o governador e

capitão-general do reino de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco, dava conta das ideias subversivas dos demagogos, responsáveis pelas “comoções sediciosas” havidas em Luanda e

147 Margarido, Estudos sobre..., pp.332-333. 148 Idem, ibidem.

149 Conspiração para tornar a região das Minas Gerais, no Brasil, independente de Portugal, abortada em 1789.

150 Revolução sucedida na Província de Pernambuco, Brasil, em 1817, em que foi decretada, no curto período de três

meses em que os revolucionários mantiveram o poder, a independência de Portugal e a república.

Benguela, estando os habitantes de maior importância em oposição ao governo.152

“A independência do Brasil, proclamada em setembro de 1822, provocaria uma profunda agitação em Angola, de tal maneira se encontravam interligados os interesses de ambos os territórios e reduzido ao mínimo o papel de Portugal, o que levaria ao aparecimento de um 'partido brasileiro', defensor da união de uma Angola independente com o Brasil.”153 É bastante conhecido o

episódio em que dois dos três deputados eleitos para representar Angola nas cortes gerais portuguesas, em 1822, o conselheiro Eusébio de Queirós Coutinho e o capitão Fernando Martins do Amaral Gurgel, acabam por aderir à causa da independência do Brasil e conclamar Angola a fazer o mesmo, durante a sua passagem pelo Rio de Janeiro, quando viajavam para assumir os seus mandatos, em Lisboa.154

Os primeiros grupos de deportados brasileiros ligados à maçonaria teriam chegado bem antes, em 1744, mas o primeiro registo de loja maçónica é apontado por A. H. de Oliveira Marques por volta de 1843, com a fundação da loja Luz Africana. Ainda no século XIX, outras quatro lojas foram fundadas, em Luanda, Benguela e Moçâmedes, tendo em geral vida efémera, com a única exceção da Luz Africana nº 151, nesta última cidade, ativa entre 1881 e 1893.155 Maior dinamismo

no aparecimento de lojas e triângulos só seria observado na primeira década do século XX.156 “Com

efeito, durante a primeira metade do século XIX, a maçonaria exerceria uma importante influência em Angola, quer sob a forma de clubes e de lojas maçónicas, quer indiretamente, através de irmandades, como as confrarias de S. Pedro Gonçalves Telmo e de Nossa Senhora do Carmo, que, em Luanda, eram compostas por uma elevada percentagem de “filhos do país” e do Brasil – viabilizando a difusão e a discussão, entre os seus membros, das novas visões do mundo e da sociedade estribadas nas “Luzes” e nas conceções liberais dela decorrentes, através de livros e panfletos que circulavam de mão em mão.”157

Em Benguela, ofícios e cartas enviadas pelo governador do distrito, o tenente coronel Francisco Tavares de Almeida, para o governador da província, Adrião Acácio da Silveira Pinto, em 1950, mencionam a atividade conspirativa de três clubes – União, Jovem Loanda e Amizade Fraternal –

152 AHU, Angola, cx. 145, doc. 76, apud Pacheco, José da..., op.cit., p.88. 153 Guimarães, A Difusão..., op.cit., p.248.

154 Idem, ibidem, pp. 244-247.

155 A. H. de Oliveira Marques, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, vol. I, Editorial Delta, Lisboa, 1986, p.75.

156 Entre 1901 e 1910 foram criadas dez lojas ou triângulos maçónicos em Angola, integrando maioritariamente

europeus e animando grémios e clubes de instrução e desporto (cf. Aida Freudenthal, “Angola”, O Império Africano

(1890-1930), Nova História da Expansão Portuguesa, vol. XI, Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques (dir.), p.

407).

entre os quais pelo menos os dois primeiros estariam vinculados à maçonaria. Deles fariam parte proprietários e comerciantes, quase todos “filhos do país”, conhecidos pela sua “lusofobia”, razão pela qual teriam sido exonerados pelo governador do distrito dos empregos públicos que ocupavam.158 Nessa primeira metade do século XIX, a maçonaria em Angola parece estar associada

a projetos separatistas em relação a Portugal, o que poderia ser explicado pela grande proximidade com o Brasil, recentemente independente, e, em sentido contrário, pelo distanciamento da metrópole. Uma situação que será alterada, como veremos, com a conquista de uma relativa estabilidade política após o fim das guerras liberais e o gradativo amadurecimento do projeto colonial português em África, a partir da segunda metade do século XIX.

Será justamente em meados desse século que a maçonaria em Portugal, contando já com um total de 80 lojas em funcionamento, começará a organizar o movimento que resultará na fundação do Partido Republicano Português, na década de 70. Entre os homens que constituem, em 1848, a Comissão Revolucionária de Lisboa, núcleo de propaganda de ideias republicanas, estão António Rodrigues Sampaio e José Estêvão de Magalhães, grão-mestres de grandes lojas maçónicas.159 Mas

será no último quartel do século XIX, com o Partido Republicano já legalizado, que o republicanismo abraçará a causa nacionalista centrada no direito histórico de Portugal em África, ameaçado pelas potências estrangeiras, particularmente a Inglaterra, capaz de reunir o consenso genérico de todos os partidos quando na oposição e das camadas populares urbanas de Lisboa e Porto.160

A influência do republicanismo português em Angola, e particularmente em Luanda, será comprovada pelos vários jornais existentes a assumir publicamente os seus ideais, a partir das décadas de 70 e, principalmente, de 80.161 Mas esse republicanismo, nas três últimas décadas do

século, nunca deixaria de lado a matriz independentista herdada do passado pelos “filhos do país”. Com variações de intensidade, clareza e contundência, provocadas muitas vezes pelas limitações impostas por uma censura a aumentar de grau até tornar impraticável a manifestação de ideias políticas contrárias às da metrópole, os jornais republicanos dos “filhos do país” – porque o mesmo não aconteceu com os dirigidos por portugueses - defenderam a independência do “país”. Como

158 Carlos Pacheco, José da Silva Maia Ferreira: novas achegas para a sua biografia, Luanda, União dos Escritores

Angolanos, 1992, pp.59-64.

159 A. M. Gonçalves, “Breve historial da Maçonaria em Portugal”, Review of Freemasonry, em http://www.freemasons-

freemasonry.com/arnaldoG.html#_edn1, a 5/1/2012.

160 Alexandre, “O império...”, op.cit., pp. 972-973.

161 A atividade de criação de lojas e triângulos em Angola também continuaria intensa até a ilegalização da maçonaria

veremos a seguir, na análise de alguns jornais republicanos editados em Luanda entre 1880 e 1910. Sobre os jornalistas que participaram dessa imprensa e a atividade que desenvolveram em prol das suas ideias e reivindicações, ao apoiar candidatos às eleições municipais e às cortes, organizar centros republicanos e movimentos associativos, inclusive lojas maçónicas, ainda pouco se sabe.162

Nos jornais para os quais escreveram deixaram suficientes elementos para conhecermos os seus pontos de vista, mas poucas pistas sobre as vidas que levaram.