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1. A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL E O DESENVOLVIMENTO: CONCEITOS,

2.3. A difusão de políticas na cooperação sul-sul

Duas considerações foram tomadas no primeiro e no segundo capítulo. No primeiro, o debate girou em torno da pouca atenção dada pelos debates neo-neo à CID e ao papel do Sul nessas relações. Assim, os pesquisadores que desejam compreender com mais precisão a dinâmica da CID nesses países devem se debruçar sobre a literatura da ajuda externa. Entretanto, essas correntes concedem grande poder explicativo para o sistema internacional. Iara Costa Leite (2012) alerta para a exclusão do Sul nos debates teóricos do campo da cooperação internacional e atenta à necessidade de beber em outras literaturas – no caso dela, nos debates sociológicos sobre reciprocidade e cooperação – para conferir maior entendimento à CSS.

Nesse segundo capítulo, o debate tem girado em torno da difusão de políticas e sua importância na análise do impacto que determinadas políticas públicas provocaram no âmbito da CSS, o que incentivou uma onda de cópias, adaptações ou transferências de programas e projetos para variados países em desenvolvimento. Como tem sido evidenciado, apesar de não tratar diretamente de

correntes teóricas das relações internacionais, as razões pelas quais os Estados propagam as políticas de outros podem ser estritamente ligadas às interpretações da cooperação, a saber, as pressões coercivas, a busca de legitimidade no sistema internacional, a competição econômica e as análises cognitivas dos tomadores de decisões. De acordo com o IPEA (2010, p.16):

à medida que estas (políticas sociais) se ampliavam e se consolidavam internamente, o governo recebia crescentes pedidos para compartilhar suas experiências e boas práticas com países parceiros. A repercussão positiva dessas políticas, por sua vez, garantiu ao Brasil crescente reconhecimento internacional, consolidado, sobretudo, ao longo da primeira década do século XXI.

O ponto a ser debatido nessa seção repousa sobre a tentativa de elaborar um

framework em que se faça possível conciliar duas fases desse processo. No primeiro

estágio, observa-se como uma política adotada no Brasil pode gerar benefícios e possibilidades de contribuir para o desenvolvimento social e econômico de outros países no sistema internacional. Partindo do pressuposto de maior igualdade de condições políticas, culturais, jurídicas, econômicas e institucionais entre os países em desenvolvimento, a CSS possui mais sensibilidade para adequar as políticas públicas de um país à conjuntura de outros países. Assim, o primeiro estágio se concretiza como uma cooperação realizada entre o Estado que demanda a policy (País B) e o Brasil (País A), que nesse caso é o Estado detentor do conhecimento (ver Figura 1).

Figura 1 - Estágio 1 da cooperação internacional ao desenvolvimento: cooperação técnica bilateral. Fonte: Elaboração do Autor.

O segundo estágio compreende aquilo que denominamos de difusão. Ao passo que o século XXI tem demonstrado o aumento das vozes do Sul nos foros globais e na busca de melhorias no bem estar de suas populações, a CSS tem tomado fôlego crescente. Mawdsley (2012) ressalta a importância dos países do Sul

PAÍS A

PAÍS B ESTÁGIO 1 – Cooperação Técnica

– principalmente Índia, China e Brasil – como provedores de novas políticas públicas sociais e como reordenadores do atual sistema internacional de cooperação ao desenvolvimento. Diante dessa pró-atividade, países como o Brasil tem obtido maior visibilidade entre outros países em desenvolvimento através de suas condições de países não desenvolvidos, mas com capacidade de aplicar boas políticas. A difusão se caracteriza como o segundo estágio porque ela sucede o estágio de cooperação bilateral entre o interessado e o Brasil. Após a realização da cooperação, outros países passam a enxergar benfeitorias ou expectativas positivas sobre os resultados provenientes da cooperação, fato este que também os levam a buscar a cooperação.

Figura 2 – Estágio 2 da cooperação internacional para o desenvolvimento através da difusão de políticas. Fonte: Elaboração Própria.

Na figura 2, observa-se a cooperação entre o país A e o país B, no tempo n (retratado aqui como o tempo inicial), semelhante ao apresentado no estágio 1. Contudo, o estágio 2 demonstra como a cooperação realizada pelo país B exerce influência indireta sobre a tomada de decisões de outros países, representados pelos Países C e D. Por essa razão, estes países solicitam a cooperação bilateral

LEGENDA DAS SETAS

= Cooperação no tempo tn;

= Cooperação no tempo tn+1, realizada após a

ocorrência de uma cooperação no tempo tn;

= Cooperação no tempo tn+2, ou em um futuro

indefinido, como no tn+y;

= Efeito de contágio motivado pela troca de informações ou observações de policies adotadas nos países vizinhos. Esse efeito gera a busca das mesmas policies no país A.

Estágio 2 – Processo de difusão em meio à Cooperação

PAÍS A PAÍS B PAÍS D PAÍS C PAÍS E PAÍS X tn+1 tn tn+1 tn+y tn+2

não mais no tempo da relação A-B (tn), mas no tempo posterior a esse processo

(tn+1). Para tanto, como já discutido no decorrer deste segundo capítulo, a influência

exercida nos países C e D, podem ser decorrentes de pressões externas (Organismos Internacionais), pela busca de legitimidade no sistema internacional, pela competição econômica ou por questões cognitivas dos tomadores de decisão. O mesmo ocorre com o país E que se vê influenciado pelas políticas adotadas no país C e busca no tempo seguinte (tn+2) a cooperação com o país A.

Atenta-se que as setas verticais não demonstram apenas a influência da adoção de uma policy em outro país, mas toda uma cadeia de informações. Por exemplo, o país B induz comportamento dos países C e D, que influenciam os comportamentos dos países E e X e, assim por diante. Dessa forma, compreende-se o que Elkins e Simmons (2005,p.35) chamam de “processo de decision-making interdependente, porém descoordenado”, pois cada ato de cooperação é tomado bilateralmente, mas as constantes parcerias acabam por criar redes geridas por um processo de interdependência entre os países, podendo ser explicadas por diversas razões, tais como as pressões, a competição, a legitimidade ou o aprendizado.

Optou-se em adotar o tempo inicial como tn,em vez de t0,porque o foco do

trabalho não reside na implementação de um único tipo de política pública, a saber, uma inovação numa política de saúde ou educacional, mas no conjunto de políticas da CSS compartilhadas pelo Brasil. Logo, não há um t0, mas vários tempos iniciais

que são melhores abordados pelo valor indefinido de “n”.

Como foi demonstrado por Weyland (2005;2006) e Kahneman (2012), há um custo muito alto para os indivíduos buscarem todas as informações e estatísticas no ambiente de modo a tomar melhores decisões ou aquelas que parecem ser as mais racionais. Em vez disso, os indivíduos preferem observar ao redor quais são as novidades mais populares, o que representa a busca por atalhos nas suas soluções. Para esse trabalho, acredita-se em fato semelhante para explicar a CSS, pois diante das ideias sobre representatividade, disponibilidade e ancoragem, a difusão dos projetos por parte do governo brasileiro pode ganhar força explicativa em face da expansão concentrada de uns projetos em uma região e de outros projetos em outras regiões.