2. Bases do estudo
2.7 A dignidade da pessoa humana
Conceituar dignidade da pessoa humana é tratar de um objeto muito amplo, o que a lei não faz. Caberá aos operadores do direito, no caso concreto, identificar os requisitos mínimos para verificação de atendimento dessa condição.
A Constituição Federal, ao citar, no art. 1º., entre os fundamentos da República Federativa do Brasil (inciso III), a dignidade da pessoa humana, traz uma difícil tarefa de interpretação. Saber o seu conteúdo, sua extensão, é de grande importância para se poder interpretar outros dispositivos, especialmente os de natureza ambiental, sejam eles da própria Constituição, da legislação ordinária ou mesmo das normas administrativas.
O texto não faz qualquer indicação quanto ao seu significado, mas a Constituição, no seu todo, permite que se façam algumas reflexões e se chegue a algumas conclusões.
Para José Afonso da Silva168, dignidade da pessoa humana “é um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem, desde o direito à vida”.
Por ser fundamento (razão de ser) da República, é pressuposto dos demais dispositivos constitucionais, estando neles contido com expressões variadas, embora com a mesma significação. Pode-se constatar isso no quadro abaixo.
Constituição Federal
Título I – Dos princípios fundamentais
Art. 1º., III – fundamentos Art. 3º., IV - Objetivos fundamentais
Dignidade da pessoa humana Promoção do bem de todos
Título II
Dos direitos e garantias individuais Título VII Da ordem econômica e financeira Título VIII Da ordem social
Capítulo I Capítulo II Capítulo I Capítulo II Capítulo VI
Direitos e deveres individuais e coletivos Dos direitos sociais Dos princípios gerais da atividade econômica Da política urbana Do meio ambiente
Art. 5º., caput Art. 6º.,
caput
Art. 170,
caput
Art. 182, caput Art. 225, caput
Inviolabilidade do direito à vida. Educação, saúde, trabalho, moradia e lazer. Existência digna, conforme os ditames da justiça social. Objetivo: ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.
Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado: essencial à sadia qualidade de vida.
O art. 5º., do Capítulo I (Dos direitos e deveres individuais e coletivos), no Título II (Dos direitos e garantias fundamentais), assegura, em seu caput, a
inviolabilidade do direito à vida. Contudo, essa inviolabilidade não se refere apenas à manutenção da vida, mas também à sua qualidade.
A vida é um processo complexo. Tudo que nela interferir desfavoravelmente estará tornando-a debilitada e desagradável, estará contribuindo para sua deterioração e, inclusive, para sua durabilidade.
Então, condições adversas são afrontas à inviolabilidade do direito à vida, na medida em que a deterioram.
Também compondo o Título II (Dos direitos e garantias fundamentais), está o Capítulo II, que versa sobre os direitos sociais, assim entendidos, de acordo com o disposto no art. 6º., “a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.
Os arts. 225 e 170, VI, da Constituição Federal, devem ser interpretados conjuntamente com o art. 1º., III, do mesmo texto.
Analisando o Título VII (Da ordem econômica e financeira), depara-se, no seu Capítulo I (Dos princípios gerais da atividade econômica), logo em seu artigo iniciante, de nº 170, com a previsão no sentido de que a ordem econômica “tem por fim assegurar a todos existência digna” (grifo do autor deste trabalho), decorrência da previsão maior de respeito à dignidade da pessoa humana, como fundamento da República.
O art. 225 já foi analisado no item 2.3.1. Pode-se, com base nele, afirmar que a sadia qualidade de vida é elemento da dignidade da pessoa humana. Não se pode imaginar o reconhecimento desta sem que a primeira esteja presente.
Adotando essa idéia para efeito do desenvolvimento deste trabalho, considera-se que o direito à vida, garantido pela Constituição Federal, não se refere apenas à manutenção dos sinais vitais, mas também à qualidade do ambiente em que ela se desenvolve. Assim, qualquer condição desfavorável, que elimine a vida ou a degrade, estará ofendendo o direito constitucional consagrado no caput do art. 5º., da Constituição Federal. E para se aferir vida com dignidade (art. 1º., III, combinado com o art. 5º., caput, ambos da Constituição Federal) recorre-se ao art. 6º. que enuncia, segundo se entende, os seus requisitos: os direitos sociais.
Verifica-se, então, vida com dignidade quando seu titular é atendido relativamente ao seu direito à educação e à saúde; tem trabalho que possibilite a
melhoria de sua condição social (art. 7º., da Constituição Federal); tem moradia saudável, ou seja, que permita um mínimo de decência e que seja atendida por serviços (entre eles, a segurança) e equipamentos públicos, e permita que usufrua de lazer, bem- estar gerado por atividades culturais, esportivas ou recreativas; tem proteção à maternidade e à infância, tem assistência previdenciária e em geral. Tudo tendo como pressuposto o meio ambiente ecologicamente equilibrado, pois não se imagina o integral exercício de todos esses direitos em ambiente degradado.
A dignidade da pessoa humana deve ser entendida como característica do tratamento dispensado aos membros da comunidade para que, atendidos por serviços e equipamentos públicos essenciais, bem como respeito pelos direitos fundamentais, possam ter uma vida sadia.
Trata-se de conceito de difícil delimitação, que os operadores do Direito não conseguem precisar. Não é nada fácil conceituar dignidade da pessoa humana, cujo conteúdo tem indicações que variam no tempo e no espaço e é carregado de extensa subjetividade.
Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida169 leciona ser um conceito de conteúdo indeterminado, que deve ser avaliado caso a caso pelos operadores do Direito, inclusive pelos peritos.
Mas, para que não se possa ignorá-lo, a pretexto de imprecisão conceitual, é necessário que sejam apontados os direitos mínimos que devem ser atendidos para que o reconhecimento possa ocorrer.
Na verdade, esse fundamento constitucional deve ser considerado não para verificação de atendimento, mas como critério de interpretação dos demais dispositivos. Havendo conflitos entre direitos, a dignidade da pessoa humana será o critério que determinará a prevalência de um sobre o outro, ou seja, estabelecerá uma hierarquia entre eles no caso concreto.
Mas não se pode esquecer, por outro lado, de que existem outros direitos também assegurados às pessoas pela Constituição Federal, previstos no art. 5º., que concorrem com o disposto no art. 6º., o que nos faz concluir que esses direitos sociais devem ser atendidos pelo Estado. Exemplo disso é a propriedade particular que, afora a
169 A efetividade da proteção do meio ambiente e a participação do
Judiciário, Desafios do direito ambiental no século XXI, Sandra Akemi Shimada Kishi et al (orgs.), p. 439.
determinação de atendimento da sua função social, não está destinada à satisfação desses encargos.
Avaliar a dignidade da pessoa humana no plano abstrato é tarefa muito difícil e que permite longas divagações. Concretamente, a missão parece mais confortável e o tema flui com maior naturalidade.
É bom frisar, contudo, que, dentre os requisitos mínimos, serão tratados o meio ambiente e a sadia qualidade de vida, havendo outras faces, correspondentes a outros direitos, as quais não serão aqui abordadas.
Trata-se de princípio – o da dignidade da pessoa humana – invocado, normalmente, no Supremo Tribunal Federal, em processos criminais, sem maior projeção na área cível.