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O quarto capítulo da tese trata da recepção do pensamento kierkegaardiano por Martin Heidegger e por Ludwig Wittgenstein. A escolha por esses dois pensadores em específico tem uma função dupla: primeiramente, porque ambos admitem75 (embora Heidegger faça isso em menor escala) a ampla influência do pensamento de Kierkegaard em seus escritos, e, em segundo lugar, por causa do impacto que o pensamento dos dois autores mencionados teve na concepção filosófica e pós-filosófica do século XX, argumento que por si só já evidencia a influência de Kierkegaard sobre a estruturação dessa maneira de pensar no século subsequente ao que ele escreveu suas obras.

A partir do entendimento que Kierkegaard influenciou esses dois pensadores uma questão de originalidade, ou de avanço filosófico, por assim dizer, pode ser empreendida. Pode-se questionar até que ponto Wittgenstein (com o Tractatus Logicus-Philosophicus de 1921) e Heidegger (com Ser e Tempo, de 1927) absorveram o pensamento de Kierkegaard, dando-lhe seguimento ou apenas remodelando o eixo central das suas ideias. Esse é um questionamento de grande valia, e em grande monta inovador, quando se coloca que o mote existencial kierkegaardiano da “verdade como subjetividade” pode ser encontrado, ainda que escamoteado ou repaginado, nas duas grandes obras filosóficas do século XX. Dessa forma, a busca pela originalidade (ou pela remodelagem, dependendo da ótica em que a questão for observada) de Wittgenstein e de Heidegger atende, de maneira última, a uma busca pelas estruturas (ou pela transformação delas) da filosofia contemporânea.

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Segundo James Conant (1995, p. 304), Wittgenstein expressava grande interesse pela obra de Kierkegaard, daí haver uma prova direta da influência deste sobre aquele, algo que não ocorre expressiva e cabalmente entre Kierkegaard e Heidegger, haja vista que não há relatos diretos do interesse, a não ser por verificações indiretas através de citações em notas de rodapé em Ser e Tempo.

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Para compreender melhor o plano metodológico utilizado na confecção desse capítulo há de se explicar que ele será dividido em três subseções. A primeira delas tem como objetivo básico indicar qual o segmento filosófico de Kierkegaard que serve como parâmetro de recepção para Wittgenstein e para Heidegger. Assim, essa seção será dedicada a perscrutar o Post-Scriptum de Kierkegaard, mais especificamente a segunda parte que trata da questão da verdade como subjetividade. Essa seção servirá como introdução e solidificação do pensamento kierkegaardiano na obra em relevo, dando a sustentação necessária para que o tema possa ser aprofundado e interconectado com as outras duas seções posteriores. Seguindo uma ordem cronológica de publicação, a segunda seção será dedicada ao estudo das premissas kierkegaardianas constantes no Tractatus (1921) de Wittgenstein. Nessa seção será analisado o modo como Wittgenstein trata a linguagem e o mundo, sempre tendo como norte os elementos de verdade e subjetividade advindos de Kierkegaard. Dessa maneira, os temas mais relevantes nessa análise conjunta serão, seguindo o compasso evolutivo da própria obra mencionada, a linguagem, a ética e a mística, e como tais elementos são elucidados comparativamente com as raízes kierkegaardianas expostas na seção precedente.

Ainda ao se falar da segunda seção desse quarto capítulo, é necessário apontar que será utilizada a denominada “leitura resoluta”76

do que se convencionou chamar de “Novo Wittgenstein”77

. Nessa perspectiva hermenêutica, visa-se estudar Wittgenstein sob a premissa que ele anseia abandonar de modo derradeiro a concepção de filosofia como uma gestora dos postulados sobre o mundo de acordo com uma discussão doutrinária previamente estabelecida pela ciência. Tal leitura

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Os principais pesquisadores dessa vertente do pensamento de Wittgenstein são Cora Diamond (1995) e James Conant (1995), ambos desenvolvem uma perspectiva internalista do pensamento do mencionado filósofo de forma bastante similar (e no caso de Conant até mesmo comparativa) com as ideias kierkegaardianas. Daí advém a escolha dessa vertente interpretativa para o trabalho em andamento.

77 A denominação de “Novo Wittgenstein” (ou New Wittgenstein, no original) é a perspectiva

interpretativa que entende o seu pensamento ao tentar evitar a assunção de um entendimento positivo de um programa metafísico em seus textos, advogando uma forma de "terapia" em seus escritos filosóficos (CRARY, READ, 2000, p. 1). Assim, Wittgenstein aspirava não avançar em teorias metafísicas e sim ajudar no trabalho de se livrar de confusões e mal entendidos cometidos ao se filosofar.

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resoluta tende a mostrar a confusão e o desentendimento ínsito ao esforço de se tentar apreender ou capturar qualquer "essência" do real que esteja a parte das características lógicas do discurso, como se isso fosse externo àquilo que está sendo falado. Tal empreendimento tem como finalidade precípua dispersar a totalidade da ilusão filosófica construída na exterioridade do mundo. A leitura resoluta é uma das vertentes interpretativas de Wittgenstein e a que mais se adequa aos propósitos do trabalho em andamento, principalmente por dar o enfoque na linguagem e na lógica como pressupostos inerentes à “subjetividade”, algo que vai ao encontro do pensamento de Kierkegaard, tal como será mais bem escrutinado na seção 4.1.0 adiante.

A terceira seção terá como pano de fundo a recepção de Heidegger acerca da verdade como subjetividade em sua obra mais relevante da primeira fase do seu pensamento (Ser e Tempo). Ainda que Heidegger rejeite os termos “sujeito” e “objeto” para tratar do tema em relevo (algo que o distingue tanto de Kierkegaard quanto de Wittgenstein, os quais se valem de tais termos), o sentido que a verdade assume no seu tratamento se encontra bastante próxima da busca da interioridade colocada como elemento central por Kierkegaard. Nessa seção será levantada com mais veemência ainda a questão da mera remodelagem heideggeriana ao pensamento de Kierkegaard, levando-se em conta a simples menção em nota de rodapé feita em Ser e Tempo, um dos elementos de maior repercussão e inovação do conteúdo tratado na tese em desenvolvimento.

Por derradeiro, far-se-á uma breve interconexão entre os três autores abordados, tentando-se prover uma abordagem que agregue a noção comum a todos eles, dando um indicativo de como a linguagem, a verdade e subjetividade estão conectadas à centralidade do pensamento kierkegaardiano espraiado nas obras de Wittgenstein e de Heidegger. Essa remarcação final do pensamento dos três autores colocados em paralelo tem o escopo de demonstrar que há uma continuidade nos principais aspectos filosóficos postos em relevo, tal como eles se remodelam com as diferentes conceituações e terminologias atualizadas em cada época histórica.

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