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A DIMENSÃO PSICOSSOCIAL DO SUPERENDIVIDAMENTO

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CAPÍTULO III CRÉDITO AO CONSUMIDOR: DADOS HISTÓRICOS

3.6 A DIMENSÃO PSICOSSOCIAL DO SUPERENDIVIDAMENTO

A gestão desse novo risco representa um desafio regulatório que tem forçado vários Órgãos de defesa do consumidor, juntamente com Defensorias Públicas e Universidades, a adotar um conjunto de medidas de prevenção e de tratamento. Mas uma regulação eficaz não pode prescindir de uma avaliação aprofundada do problema.

A compreensão da dimensão psicossocial do superendividamento foi um dos principais objetivos do estudo desenvolvido por um Projeto de Extensão em Direito do Consumidor, do Centro Universitário Uni-Anhanguera, do qual fui coordenadora no ano de 2007, que é integrado por cinqüenta alunos da graduação do curso de Direito, que visou aprofundar a relação de interdependência entre a concessão de crédito e a insolvência das famílias.

A partir de entrevistas presenciais realizadas a um grupo de superendividados, em feiras-livres, shoppings, e universidades, foi possível obter um conjunto de informações significativas sobre estes indivíduos. Foi possível, por exemplo, ter uma noção dos valores, atitudes e comportamentos dominantes, bem como das soluções por eles adotadas para ultrapassar o impasse financeiro em que se encontram, as chamadas estratégias de enfrentamento. É uma síntese da análise destes dois aspectos que apresentaremos em seguida.

3.6.1 Valores, Atitudes e Comportamentos dos Superendividados – Pesquisa realizada com consumidores superendividados em Goiânia que comprova a necessidade de se adotar medidas para minorar os impactos psicológicos gerados por este status jurídico.

Os padrões de consumo dos superendividados goianienses, que foram inquiridos no segundo semestre de 2007 pelos acadêmicos do projeto de Extensão em Direito do Consumidor da Uni-Anhanguera, refletem em estilo de vida predominantemente urbano, onde uma enorme acessibilidade a diversos tipos de bens e serviços se combina com uma pressão social forte no sentido da sua aquisição. A proximidade e a proliferação dos locais de compra exercem um efeito de atração e sedução dos consumidores, funcionando como um incentivo à aquisição continuada e à produção de novas necessidades.

A um consumo consideravelmente intenso corresponde o recurso a múltiplas formas de financiamento. A gestão financeira apresenta-se mais elaborada porque também o são os meios de pagamento utilizados. Os cartões de crédito e débito e os cartões de loja coexistem com créditos pessoais, crédito habitação, crédito automóvel e crédito contraído junto a particulares. Aos créditos mais tradicionais, de menor risco e taxa de juros mais baixa, adicionam-se produtos financeiros mais modernos e arriscados e, por isso, também mais caros. E tanto são utilizados na compra de casas, como no pagamento de planos de saúde, da alimentação, dos serviços básicos, ou no financiamento de atividades de lazer. O multiendividamento marcava a vida financeira destes indivíduos, agora superendividados.

A primeira impressão, dominante no discurso de todos os entrevistados, é a da enorme confusão e falta de clareza discursiva, combinada com uma certa apatia na voz e nos movimentos, o choro freqüente e uma expressão de cansaço e desânimo. Quase todos procuravam justificar- se, evidenciando claramente sentimentos de culpa e vergonha. Esses sentimentos, porém, surgiam no meio de uma convicção mais ou menos

consolidada de que tinham o direito de ser ajudados porque nunca procuraram defraudar ninguém, nomeadamente os credores.

Igualmente notória é a sua enorme dificuldade em precisar datas (da contratação do crédito, por exemplo) e valores (número de créditos, montante das prestações mensais, número de meses em atraso e o respectivo montante). Tornava-se por vezes muito difícil compreender a sequência cronológica e a lógica causal entre os vários acontecimentos pessoais e os momentos econômico-financeiros, pois muitos superendividados eram incapazes de ter essa leitura estruturada. Tudo parecia vago, distante, intertemporal e de contornos imprecisos. Essa imprecisão discursiva dificultava a compreensão do histórico de endividamento destes indivíduos.

A generalidade dos superendividados mostrava, por isso, uma enorme fragilidade emocional e uma oscilação notável entre desalento e sentimento de fracasso, por um lado, e uma certa esperança de recuperação da normalidade e do controle, por outro.

Uma segunda constatação é a da culpa e da vergonha que sentem em relação aos filhos. Em regra, os superendividados concentram suas estratégias na preservação do bem-estar dos filhos.

Uma terceira observação é a de que a socialização é quase sempre afetada de forma grave pela situação de superendividamento. Os indivíduos superendividados sofrem habitualmente uma reconfiguração de suas relações sociais. Enquanto alguns manifestam a intenção de manter reservados os seus problemas financeiros, outros, porém, põem à prova as relações de amizade. Todo o discurso a propósito do papel dos amigos neste processo é manifestamente ambíguo e mesmo contraditório.

Por fim, merece destaque as atitudes manifestadas pelos superendividados quanto ao comportamento junto às instituições financeiras. A impressão que colhem das instituições financeiras é variável. Depende do tipo de abordagem utilizada e, sobretudo, da sensibilidade manifestada por elas quanto à situação concreta de cada um dos superendividados. Há os que se sentem pressionados, como acontece sempre que existe um contato persistente em casa, em horários tardios, de lazer ou de trabalho, ou então quando é feita a ameaça de que lhes vão ser retirados os bens. Outros superendividados possuem uma impressão positiva sobre o comportamento das entidades credoras, o que sucede quase sempre quando conseguem renegociar a sua dívida.

Esta oscilação de comportamento não pode persistir. Se o consumidor superendividado, bate às portas da instituição financeira e recebe acolhida, fica com a falsa sensação de solução de suas dívidas. Ocorre que, na verdade, o que houve foi um prolongamento da mesma, tornando o consumidor ainda mais endividado, gerando ainda mais transtornos financeiros e reflexamente, psicológicos, individuais e em sua família também. Estratégias de enfrentamento devem ser buscadas e com esta problemática, passamos a sugerir algumas medidas no capítulo IV.

CAPÍTULO IV

SUPERENDIVIDAMENTO E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO: ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO PARA LIDAR COM O

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