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1. DO MENORISMO AO RECONHECIMENTO DO SUJEITO DE DIREITOS

1.2. A dimensão “socioeducativa” das medidas socioeducativas

Segundo Sposato (2004) a medida socioeducativa é a resposta sancionatória do Estado quando o autor de um delito é adolescente; configura-se uma sanção jurídico-penal, que cumpre o papel de controle social, procurando atuar pontualmente e preventivamente para evitar a prática de novos atos infracionais; ao mesmo tempo assegurar que diminua a vulnerabilidade do próprio adolescente infrator no sistema tradicional de controle.

Neste sentido de controle e sanção, verifica-se que há uma forte tendência de muitas instituições na utilização das ‘disciplinas’ em sua prática cotidiana de intervenção junto à população. Para ilustrar esta afirmação, utiliza-se como parâmetro às medidas socioeducativas aplicadas ao adolescente autor de ato infracional, considerando-se que os resquícios da sociedade disciplinar (descrita por Michel Foucault) expandiram-se nas instituições e mantêm-se visíveis para assegurar a normatização e a regulação social.

À luz do pensamento foucaultiano, as medidas socioeducativas previstas no artigo 112 do Estatuto e aplicadas ao adolescente em decorrência de autoria de ato infracional são exemplos de mecanismos da sociedade disciplinar. Utilizando-se desta perspectiva de

através da vigilância e controle permanente do adolescente através das instituições e programas socioeducativos: na escola, na família, no programa... ou seja, demanda acompanhamento em todos os espaços institucionais onde o adolescente está inserido. Respectivamente, a medida socioeducativa de Prestação de Serviço à Comunidade, utiliza-se do corpo do adolescente como lócus do exercício da sanção normalizadora, uma vez que se atribui ao adolescente o trabalho como elemento de correção. Por outro lado, as medidas privativas de liberdade que são a Semiliberdade e a Internação, demandam confinamento e cerceamento da liberdade parcial ou total do adolescente para sua aplicação, reafirmando o exercício de um poder que se exerce sobre o adolescente com base em padrões de normalidade e anormalidade; um poder que é coercitivo e punitivo com aparente viés socioeducativo. Concomitantemente é um poder disciplinador por que é normalizador, pressupondo o enquadramento do adolescente à norma, compatibilizando-o a determinados padrões de conduta e comportamento legitimados socialmente. É um poder que é assegurado pelo exame, uma vez que se utiliza de ampla descrição e classificação da infração e das condutas individuais do adolescente; e assegura o controle através de sua conseqüente responsabilização.

As principais categorias que fundamentam esta interpretação à luz da perspectiva foucaultiana são a disciplina, o exame e a vigilância, as quais pretende-se explicar para justificar sua transposição à estrutura, gestão e aplicação das medidas socioeducativas.

A disciplina não se identifica com uma instituição ou aparelho específico, uma vez que ela é um tipo de poder, uma modalidade para exercê-lo, através de um conjunto de instrumentos, técnicas, procedimentos nivelados, descrita por Foucault (1987) como uma física ou uma “anatomia” ou tecnologia do poder.

A modalidade disciplinar permite conduzir os efeitos de poder até os elementos mais tênues e mais longínquos, fazendo diminuir seus inconvenientes. Segundo Foucault (1987, p. 181) “a disciplina fixa; ela imobiliza ou regulamenta os movimentos; resolve as confusões, as aglomerações compactas sobre as circulações incertas, as repartições calculadas”.

[...] disciplina ou poder disciplinar [...] é uma técnica, um dispositivo, um mecanismo, um instrumento de poder, são métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade. É o diagrama de um poder que não atua do exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da sociedade industrial, capitalista. (FOUCAULT, 1985, p. XVII)

O objetivo das disciplinas tanto do ponto de vista econômico quanto político é tornar o homem “útil e dócil”, uma vez que aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). Porém incorre- se no erro pensar que desempenham papel exclusivamente negativo sobre o indivíduo, pois segundo Foucault (1985, p. XX) “[...] o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importantes efeitos”. Deste processo de individualização17 decorre que o indivíduo é uma produção do poder e do saber, uma vez que ao mesmo tempo em que se exerce um poder, se produz um saber.

Parafraseando Foucault (1985, p. 107) descreve-se que as principais características das disciplinas são: a inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório; o controle sobre o desenvolvimento de uma ação e não somente sobre o seu resultado; uma técnica de vigilância permanente dos indivíduos; um registro contínuo, um conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder focalizam os indivíduos em sua singularidade, sendo o exame seu instrumento fundamental.

Para Foucault (1985) o exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e utilizá-los ao máximo, tornando a individualidade um elemento pertinente para o exercício do poder. Considerando que o poder disciplinar se exerce através do olhar hierárquico e da sanção normalizadora, o exame representa a combinação de ambas as técnicas, uma vez que exerce um controle normalizante e uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir, por conseguinte liga um certo tipo de formação de saber a uma certa forma de exercício do poder. Através do mecanismo do exame o poder disciplinar se exerce tornando-se invisível, e por outro lado, impõe-se aos que se submetem um princípio de visibilidade obrigatória.

Acrescenta-se ainda que o exame insere a individualidade num campo documentário, possibilitando um amplo arquivo com detalhes e minúcias sobre os seres humanos, tornado-os ‘casos’ individualizados.

[...] o exame está no centro dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder [...] e objeto de saber [...] combinando vigilância

hierárquica e sanção normalizadora, realiza as grandes funções disciplinares de repartição e classificação, de extração máxima das forças e do tempo, de acumulação genética contínua, de composição ótima das aptidões [...] de fabricação da individualidade celular, orgânica, genética e combinatória. (FOUCAULT, 1987, p. 160)

Neste sentido, o exame torna possível a constituição do indivíduo como objeto descritível e analisável e mais além, possibilita a constituição de um sistema comparativo que permite a medida de fenômenos globais. Disto decorre o surgimento de amplo aparato institucional que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os “anormais” através do funcionamento dos dispositivos disciplinares.

Acrescenta-se ainda que para Foucault (1987) é através das disciplinas que manifesta- se o poder da norma, esta que representa um conjunto de graus de normalidade, característicos da filiação a um corpo social homogêneo, que intrinsecamente têm como principal função a classificação e a hierarquização social.

É importante fazer um contraponto com a sociedade contemporânea, que mantém traços característicos desta descrição da sociedade disciplinar e de controle, sobretudo no que se refere ao poder normalizador vigente no âmbito das instituições, aparentemente de proteção e de segurança.

[...] pela onipresença dos dispositivos de disciplina [...] este poder se tornou uma das funções mais importantes de nossa sociedade [...] há juízes da normalidade em toda parte. Estamos na sociedade do professor-juiz, do médico-juiz, do educador-juiz, do assistente social-juiz; todos fazem reinar a universalidade do normativo; e cada um no ponto em que se encontra aí submete o corpo, os gestos, os comportamentos, as condutas, as aptidões, os desempenhos. (FOUCAULT, 1987, p. 251)

Em evidência, esta comparação, reafirma que o poder disciplinar tem como função maior “adestrar”, “fabricar” indivíduos tomando-os ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Neste sentido, configura-se como um poder modesto, que funciona de maneira calculada e permanente tornando a vigilância um mecanismo imprescindível. Explica Foucault (1987) que o poder na vigilância hierarquizada das disciplinas funciona como uma máquina, agindo permanentemente de forma discreta e em silêncio. Um poder que é em aparência ainda menos “corporal” por ser mais sabiamente “físico”.

Estas técnicas de poder centradas ou articuladas sobre o corpo pressupõem a distribuição espacial dos indivíduos: sua separação, seu alinhamento, sua colocação em série,

tentando aumentar sua força pelos exercícios, adestrando-os. Foucault expõe a racionalidade econômica deste sistema de poder que opera da maneira o menos custosa possível, através da vigilância, da hierarquia, da inspeção, de relatórios, que configuram o dispositivo disciplinar.

Os estudos de Michel Foucault na obra Vigiar e Punir para além de descrever os métodos e meios coercitivos e punitivos adotados pela sociedade como forma de repressão a delinqüência e a criminalidade, sobretudo em referência ao nascimento da prisão, subsidiam análise acerca da formação e consolidação da sociedade disciplinar. Trata-se do resgate histórico que retrata a passagem da punição à vigilância como um momento estratégico em que se percebeu, segundo a economia do poder, ser mais eficaz e rentável, vigiar do que punir. Refere-se cronologicamente ao final do século XVIII e início do século XIX que corresponde segundo Foucault (1987, p. 161) “a formação [...] de um novo exercício do poder [...] em sua forma capilar de existir [...] e que [...] encontra o próprio grânulo dos indivíduos, atinge seus corpos [...] seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida cotidiana”.

Ressalta Foucault (1987) que se necessitou fazer da punição e da repressão das ilegalidades uma função regular, tornando-a mais eficaz e universal, inserindo-se profundamente no corpo social. Neste sentido, para além do foco restrito no delito, amplia-se esta dinâmica para a totalidade dos fenômenos sociais, concebendo-se os mecanismos de punição como tecnologias de poder que avançam por todo o tecido social como forma de controle e vigilância operando na consolidação da sociedade disciplinar. Neste contexto, surge a demanda pela ampliação de instituições que assegurassem o enquadramento dos indivíduos ao longo de sua existência, com a função de não mais punir as infrações dos indivíduos, mas sim corrigir seu comportamento e fixá-los em um aparelho de normalização; fato este que impulsionou o aparecimento de um vasto aparato institucional, uma rede infinitamente ramificada de coerções exercidas pela sociedade sobre si mesma.18

Neste sentido, a atuação profissional diante da questão do ato infracional, pauta-se em princípio, na vigilância e controle permanente, consequentemente demandando a ampliação e/ou consolidação de novos saberes decorrentes da necessidade de intervenção junto à questão do ato infracional. Cita-se dentre os principais, a Psicologia, a Pedagogia, o Serviço Social, o Juízo da Infância e Juventude, o Conselho Tutelar... Esta ampla rede de profissionais e instituições que intervém no sentido de reinserir (adequar, diria Foucault) o adolescente aos

padrões sociais admitidos como “normais” na sociedade contemporânea. Explica Foucault (1996) que esta ampla rede de aparatos institucionais coercitivos constitui uma verdadeira ortopedia social, uma forma de poder típica da sociedade disciplinar que anuncia a vigência do controle social e da vigilância.

Pretendendo aprofundar a interpretação crítica acerca da dimensão “socioeducativa” das medidas socioeducativas, destaca-se a argumentação de Passetti (1999, p. 372) que evidencia haver um impasse na atualização da linguagem pedagógica do ECA, onde substituiu-se as penas pelas medidas socioeducativas, porém manteve-se inalterado o princípio do encarceramento; diversificou-se a punição com a disseminação de idéias descriminalizadoras e despenalizadoras (semiliberdade e liberdade assistida), porém preservando as prisões para os ‘casos graves’. O fato é que as penas se transvertem em medida socioeducativa; a internação e o princípio socioeducativo convertem-se em confinamento.

Concomitantemente a alguns avanços com a introdução de medidas socioeducativas, denuncia Passetti (1995) que na prática o ECA é utilizado como meio para atualizar a mentalidade encarceradora, uma vez que mudaram-se os termos jurídicos com o intuito de alterar o discurso e suas práticas, porém, manteve-se sob novo verniz a mentalidade carcerária, sobretudo pela tendência a institucionalização dos adolescentes: a FEBEM assemelha-se à prisão e a abordagem sob a ótica da infração assemelha-se ao crime.

Para exemplificar a dificuldade de mudança de paradigma no atendimento socioeducativo cita-se pesquisa documental realizada por Sandrini (1997), analisando 30 sentenças judiciais da Comarca de Florianópolis relacionadas a processos de apuração de ato infracional. O objetivo da pesquisa foi analisar as concepções de educação e suas implicações no tratamento dispensado ao adolescente na atribuição de medida socioeducativa aplicada pelo juiz. Sandrini (1997) concluiu que o paradigma educativo do Estatuto, é representado por várias concepções de educação explicitadas pelos agentes do sistema socioeducativo, desde as mais repressivas, punitivas e assistenciais, até as mais democráticas e liberais, reafirmando que a simples promulgação de uma lei não assegura a mudança na forma de pensar de uma sociedade.

Embora se registre uma inovação significativa a partir do ECA que é ter assegurado ao adolescente o devido processo legal como forma de suprimir a arbitrariedade do juiz, verifica- se ainda forte tendência discricionária. Embora o Estatuto indique a excepcionalidade da medida de internação, após examinadas e exauridas as possibilidades das outras medidas

encarceradora. Esta postura encontra respaldo num movimento mais amplo, uma vez que se assiste a disseminação e legitimidade da política de tolerância zero, de inspiração neoliberal norte-americana, esta que postula a ampliação da punição para comportamentos criminalizáveis que não são denunciados e redução à zero da diferença entre infrações denunciadas na polícia e as efetivamente julgadas, com rapidez pelo direito penal.

Ressalta Passetti (1999) que ao passo que diminuiu a prisão arbitrária, transformou-se o adolescente infrator em ‘réu’ a ser julgado nos ‘tribunais’ chamados Varas Especiais da Infância e Juventude, onde se condenado poderá receber medida socioeducativa de até 3 anos, reavaliada a cada 6 meses, podendo passar para a medida de semiliberdade e liberdade assistida, semelhante ao procedimento com o prisioneiro adulto. Aponta Passetti (1999, p. 370) “a severidade da medida, quando os 3 anos representam 10% do que se recomenda como máximo de penalização para adultos”.

Emerge diante desta revelação o desafio de reforma estatutária que suprima a internação, proposta pelos reformadores que desacreditam na prisão como corretivo de comportamentos ou educação para integração (abolicionistas), sobretudo por representar instrumental eficiente na economia do mundo do crime através dos encarcerados que se tornam massa disponível para o mercado ilegal, envolvendo gradativamente seus familiares. Para Passetti (1999, p. 373) a prisão para jovens e para adultos é uma forma de integração pelo avesso na sociedade capitalista, sobretudo pelo narcotráfico, considerado o terceiro ramo mais lucrativo da economia.

Para Passetti (1999, p. 372-375) a internação torna-se expressão do fracasso da intenção educativa, uma vez que constitui um sistema espelhado na prisão para adultos, revelando a nova face da crueldade com adolescentes pobres, para os quais tende a institucionalização pela internação ou internato. Concomitantemente, quanto mais se diversificam as penalizações ou se enrijecem as penas, maiores são os enriquecimentos legais (da indústria do controle); ilegais (o narcotráfico) e irrelevantes são os resultados para a contensão da violência. Aponta Passetti (1999, p. 375) que cresce a participação de crianças no tráfico de drogas; ressalta que a reincidência nas infrações são maiores entre os adolescentes uma vez internados e que os prisioneiros adultos em sua maioria já foram internados quando adolescentes.

Acrescenta ainda Passetti (1995) que a diferença do adolescente internado e o criminoso adulto encarcerado é a rubrica medida sócioeducativa e a existência do Conselho

mediante uma atuação condizente poderia contribuir para ampliar ações preventivas e suprimir, pela ação pedagógica, a instituição austera: internação/prisão.

O que Passetti (1995) põe em evidência, é o fato de que o Estatuto da Criança e do Adolescente que em tese propõe a intervenção pedagógica, ainda mantenha como medida socioeducativa formas de privação de liberdade, que é o caso da internação, quando é sabido o fracasso desta forma de responsabilização à revelia do tratamento com adultos através da prisão. E, diante do fracasso das medidas de privação de liberdade, o adolescente encarcerado como delinqüente inicia o trajeto que o qualifica a retornar à situação tal e qual quando dela foi subtraído para receber a medida socioeducativa. Neste sentido, evidencia Passetti (1995, p. 105) que “o ECA, por si só, é incapaz de alterar a lógica punitiva que transforma o juízo da infância e da adolescência numa mimese perfeita das varas criminais”.

Denuncia-se a fragilidade dos programas socioeducativos em sua meta de reinserção do adolescente autor de ato infracional ao convívio familiar e comunitário, pressupondo promover a ruptura com a prática ilícita. Há que se refletir sobre as formas de abordagem no âmbito destes programas institucionais, sobretudo no que se refere à insuficiência de acompanhamento interdisciplinar e inexistência de planejamento das atividades compatíveis ao projeto de vida do adolescente socioeducando em sua condição peculiar; além da irrisória aplicação de recursos materiais e financeiros na sua execução. Por outro lado, há uma preocupação excessiva com a responsabilização do adolescente, voltada para práticas coercitivas e vexatórias, muito mais que socioeducativas, além de haver uma forte tendência na aplicação de medidas privativas de liberdade em detrimento das medidas socioeducativas em meio aberto.