CAPÍTULO 3: NARRATIVAS EM UM TEMPO-ESPAÇO NÃO LINEAR
3.1 Autotextualidade: fragmentos refletidos
3.1.1 A dimensionalidade do abismo: mise en abyme
A ideia das narrativas em abismo foi descrita pelo escritor francês André Gide, no final do século XIX, para tratar das narrativas que contém outras narrativas dentro de si79.O conceito é oriundo
da heráldica e representa um escudo contendo em seu centro uma espécie de miniatura de si mesmo (Figura 27), de modo a indicar um processo de profundidade e infinito.
Na verdade a ocorrência deste tipo de narrativa não é incomum no campo artístico. A repetição de elementos e temáticas dentro das artes visuais, por exemplo, pode ser exemplificada pela obra de Diego Velázquez Las meninas (1656), em que a temática da pintura se repete praticamente de forma caleidoscópica (Figura 28), inclusive a presença do espelho e do seu reflexo que mostram ao espectador a figura do rei e da rainha que estão sendo, na cena representada, pintados pelo artista. Ocorre um círculo hipnótico de ída e vinda para dentro e fora da obra, por onde vamos caindo em abismo.
Um outro exemplo, este no campo da dramaturgia e também citado por Gide, é a peça de teatro Hamlet de William Shakespeare, escrita em algum momento entre 1599 e 1602 e apresentada pela
79. GIDE, André. Journal: tome I (1887- 1925), 1948.
Figura 27: Brazão do reino Unido, 1816 – 37. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Mise_ en_abyme#/media/File:Royal_Arms_ of_United_Kingdom_(1816-1837).svg. Acesso em: 12 Ago 2019.
primeira vez em 1609. Na tragédia de Shakespeare, o príncipe Hamlet com o intuito de provar que seu tio assassinou seu pai faz com que um grupo de atores encene a morte de seu pai. No sentido estrutural existe uma peça dentro da peça, configurando-se uma mise en abyme.
No ano de 1950, a crítica francesa Edmonde Vinel, conhecida como Claude-Edmonde Magny, retoma e trabalha a ideia de Gide no capítulo “The Mise En Abyme or the Cipher of Transcendence”, de seu livro The French Novel Since 191880 e desenvolve o conceito
de narrativa em abismo relacionando com a matemática, espelhos e precipícios. Magny cunha então o termo mise en abyme e é responsável por sua popularização81.
Magny partiu da ideia de Gide sobre as relações de similaridade e correspondência entre personagem e narrativa, partes e todo em uma obra de arte e reconcebeu a “transposição” como modos de espelhamento e reflexão. Assim, Magny segue sua afirmação de que estas relações são reflexivas, repetíveis indefinidamente e até repetidas infinitamente. Deste modo, sua leitura se move da semelhança da parte com o todo para a infinidade – e é dessa maneira que Magny adota a metáfora adormecida do “abismo”, criada por Gide ao ligar ao termo heráldico, e traz sua ideia de volta à vida como o abismo da repetição infinita através de metáforas espelhadas.
80. MAGNY, C-E. Histoire Du Roman Français Depuis 1918. Paris: Seuil, 1950
81. MAGNY apud SNOW, 2016, p. 33. Figura 28: Diego Velázquez, Las meninas, pintura, 1656. Fonte: https:// www.museodelprado.es/en/the-collection/art- work/las-meninas/9fdc7800-9ade-48b0-ab8b- edee94ea877f
O mais notório estudioso e pensador, até hoje, sobre mise en
abyme, ainda é Lucien Dällenbach, conhecido principalmente por
seu livro The Mirror in the Text82. Atribui-se a Dällenbach a extensão
das implicações de Magny, especialmente sua ideia espelhada de “referência ao passado” para “reflexão no sentido óptico”. Ele declara que Gide entende pelo que foi posteriormente definido como mise en
abyme como a repetição dentro de uma obra do objeto dessa obra no
nível dos personagens; já para Dällenbach o uso da expressão abrange qualquer singno tendo seu referente um aspecto pertinente e contínuo da narrativa83. Essa nova visão, de que mise en abyme é um “signo”,
tem grande importância porque coloca a mise en abyme de Magny nos interesses analíticos dos estudos de signos.
Dällenbach oferece uma extensão que se relaciona com a ideia de Gide; no entanto, a sua baseia-se menos na metáfora heráldica e mais na associação do espelho e ação supostamente reflexiva. Afirma que a mise en abyme é qualquer espelho interno refletindo a narrativa como um todo por duplicação simples, repetida ou ilusória84. Nesse sentido vejo a aproximação de meu trabalho com o
conceito de Dällenbach; em Video games, por exemplo, as imagens se compõem em níveis narrativos que dialogam entre si: a imagem dentro da televisão dialoga com a imagem fora da televisão. Os signos
82. Lucien Dällenbach, The Mirror in the
Text, 1989.
83. DÄLLENBACH & TOMARKEN, Reflexivity and Reading, 1980, p.436.
84. Lucien Dällenbach, The Mirror in the Text, 1989, p.52.
e o sistema simbólico presentes no nível mais “profundo” do abismo fazem referência à narrativa como um todo. A presença da minha imagem em ambos níveis das fotografias, assim como a caixa de joias, proporciona a reflexão especular.
Ainda assim, é verdade que Gide referenciou explicitamente os escudos heráldicos, embora nenhum exemplo na heráldica possa ser verificado historicamente por conter infinitos escudos convergentes, sobrepostos da mesma forma que os reflexos espelhados e que possam se acumular até um ponto final indiscernível85. Portanto, a
natureza visual do efeito estético, segundo o trabalho de Dällenbach, é proposta tanto para a literatura quanto para as artes visuais. Esse efeito infinito, no qual um conjunto em cascata de quadros em recuo converge para um ponto cego é claramente discernível em imagens. Nas artes verbais é apenas, na melhor das hipóteses, um ideal imaginado.
Em seu livro Narratology, Mieke Bal contextualiza a mise en
abyme em suas associações de espelhos francesas e, nessa tradição,
ela diz que é “comparável à regressão infinita”86. Bal também
reconhece que esse tipo de narrativa pode ser visual ou verbal, ou ambas. Como a mise en abyme de Bal se preocupa com o verbal e o visual, ela indica que o que é colocado na perspectiva da regressão
85. SNOW, Marcus. Into the Abyss: a study of the Mise en Abyme, 2016, p. 60.
86. BAL, MIeke. Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, 2009, p.62.
infinita não é a totalidade de uma imagem, mas apenas uma parte do texto, ou certo aspecto. Nesse sentido a repetição de alguns elementos acabam configurando a narrativa em abismo.
3.2 Quando o abismo aprofunda em si mesmo: