4 A INTERPRETAÇÃO DIALÉTICO-MATERIALISTA DA
4.2 A DINÂMICA DAS VERTENTES, INTERFLÚVIOS E TALVEGUES
O observador atento das paisagens continentais logo divisará nelas três feições geomórficas que são substanciais para a interpretação do relevo: as vertentes, os interflúvios e os talvegues. Diversos processos atuam na definição dessas feições geomorfológicas e respondem pela dinâmica delas, como por exemplo, a litomassa, os processos tectônicos e as ações erosivas e deposicionais relacionadas às condições climáticas atuais e paleoclimáticas.
Na análise das paisagens, a interpretação das vertentes assume um papel relevante, haja vista que, na maioria das vezes, a degradação ambiental acontece em alguma encosta, conforme lembram ARAÚJO, ALMEIDA E GUERRA (2011).
Reconhece Dylik (1968) que a vertente é uma forma tridimensional que foi modelada pelos processos de desnudação atuantes no presente ou no passado, representando a conexão dinâmica entre o interflúvio e o fundo do vale.
A dinâmica de qualquer vertente verificada nas paisagens pode ser estudada como algo que recebe e perde matéria e energia. Perde matéria quando se alastram os processos erosivos e ganha matéria quando é recoberta por material coluvial advindo de áreas mais elevadas e que se acumula na média e baixa encostas. Perde energia potencial quando prolongadas fases erosivas vão reduzindo-a em inclinação e em altura com relação a um determinado nível de base local.
As vertentes são planos inclinados que enquadram um vale. Elas assumem as mais diversas feições, que denunciam, como efeito que são, a intervenção de diversas causas, englobadas nos grupos dos fatores tectônicos, erosivos e litológicos. As vertentes podem aparecer desnudas ou recobertas sobretudo por material de natureza coluvial, ou seja, material que foi retirado de uma determinada
área-fonte, mediante ação de processos erosivos, de transporte e de deposição, controlados fundamentalmente por uma lei geral, a Lei da Gravidade.
Aparentemente, “uma vertente está em repouso”. O pensamento metafísico assim o diria. Contudo, as vertentes, como matéria que são, movimentam-se. As formações superficiais, compostas fundamentalmente por elúvio e colúvio, deslocam-se, com menor ou maior velocidade, a partir da interferência da inclinação da encosta e de outros fatores, tais como: o conteúdo de água presente no manto de intemperismo, o tipo de material detrítico alterado física ou quimicamente, as características da fricção interna das formações superficiais e das relações entre os movimentos de massa com as formações superficiais e o substrato rochoso.
A matéria que atapeta as vertentes (regolito e solo) por elas desce, em face de uma imposição da gravidade terrestre. O modo como desce desempenha um papel nas mudanças qualitativas da vertente. A forma como se dá esse deslocamento da matéria é uma função de sua velocidade e de seu caráter mais ou menos coletivo. A reptação coletiva e a solifluxão exemplificam os movimentos coletivos lentos do regolito e do solo.
Os processos responsáveis pela elaboração das vertentes compreendem as forças atuantes, ou seja, os fatores climáticos, a tectônica, o nível de base, o escoamento superficial, as formações superficiais e as rochas. A litologia oferece uma resistência ao deslocamento em massa do manto de intemperismo, estabelecendo-se uma luta de contrários.
Em áreas submetidas ao neotectonismo4, a inclinação das vertentes sofre alterações quantitativas, a partir da ação tectônica, que redundam em mudanças qualitativas nos processos de erosão. O manto de intemperismo das vertentes poderá ser deslocado para o fundo do vale, a partir de uma complexa interação dialética entre forças diversas. A luta de contrários entre as forças que agem nesse manto de alteração da rocha provoca a esculturação a esculturação da vertente, conforme poderá ser visto na Figura 4.
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“Necessário lembrar que ainda existe certa controvérsia com relação à idade a partir da qual os fenômenos estruturais podem ser tidos como neotectônicos. Há autores, por exemplo, que os consideram como sendo aqueles que se verificaram do Cretáceo ao Holoceno. Há outros, como Y. hasuí que preferem a utilização do termo “tectônica ressurgente”, ao se referirem à reativação de falhamentos pré-cambrianos acontecidos, no Brasil, durante o Cenozóico” (JATOBÁ, 2002)
Figura 4 - A luta de contrários entre as forças que agem na esculturação de uma vertente
Fonte: elaborado por Lucivânio Jatobá (2017)
De início, nota-se a conexão dialética entre fatos de natureza tão distinta, ou seja, a rocha (litomassa), o tectonismo, os processos erosivos e deposicionais, e as condições climáticas atuais e/ou pretéritas. Impossível entender a formação de interflúvios e talvegues sem uma abordagem dessa conexão entre os fenômenos.
Interflúvio é definido como uma área que separa correntes fluviais e /ou talvegues.
Denomina-se talvegue à linha que une os pontos mais baixos de um vale; assim, o leito de um rio, quando não se encontra elevado acima do fundo do vale, segue o talvegue; o leito de um ued segue o talvegue. Chama-se interflúvio a tudo o que não é talvegue, ou seja, toda a extensão do terreno entre dois talvegues. (Derruau, 1966, p. 61)
O interflúvio é a área preferencial de ação da erosão areolar, que se encontra por demais submetida às condições climáticas e à gravidade terrestre. Possui duas vertentes, no mínimo. Os talvegues correspondem a um espaço onde se dá a intersecção de vertentes que configuram um vale, sendo, assim, o local de maior profundidade. Nesse local podem se instalar as águas de rios e riachos que passaram a funcionar como nível de base local, que controlará a dinâmica geomorfológica da área adjacente. A conexão dialética estabelecida será entre processos erosivos (e deposicionais) no talvegue, o nível de base local e a erosão das vertentes.
É no talvegue que se verifica mais intensamente a erosão linear que responde pela dissecação da paisagem e se encontra dialeticamente relacionada com as condições climáticas ambientais, cobertura vegetal das vertentes e material rochoso do fundo do vale.