2 DEMOCRACIA DELIBERATIVA: A TEORIA DO DISCURSO EM JÜRGEN
2.4 A dinâmica linguística: discurso e direito como mecanismos de integração
O mundo da vida, por si só, é incapaz de absorver todos os dissensos conteudísticos
que ocorrem em uma sociedades complexas, marcadas pelo pluralismo
68. Com isso:
o fardo da integração social se transfere cada vez mais para realizações de entendimento de atores para os quais a facticidade (coação de sanções exteriores) e a validade (força ligadora de convicções racionalmente motivadas) são incompatíveis, ao menos fora dos domínios de ação regulados pela tradição e pelos costumes.69
Esse panorama pode levar tanto a uma ruptura da comunicação quanto ao retorno do
agir estratégico. Ao invés de valorar os fatos a partir de uma pretensão intersubjetiva comum,
há o risco dos atores optarem em interpretar os fatos por intermédio de experiências próprias,
deteriorando a comunicação perante a ausência de entendimento. Isto ocorre por conta do
percurso comunicativo, assim descrito por Neves:
Quando [...] as pretensões de validade sustentadas implicitamente em ações ou atos de fala são problematizadas na interação concreta e exige-se justificação do respectivo agente ou falante, entra-se no plano do discurso, no qual, [...] há intercâmbio de argumentos. Então as próprias pretensões de validade que foram problematizadas tornam-se o objeto ou tema da discussão e precisam ser fundamentadas. 70
A passagem do nível da ação para o nível do discurso ocorre no momento em que as
pretensões de validade são rejeitadas e se procede a deliberação sobre as premissas racionais
adotadas pelo ouvinte para tanto. Tendo em vista a amplitude do mundo da vida, os dissensos
podem persistir até mesmo no plano argumentativo, já que cada proponente pode adotar
premissas ou visões de mundo diferentes.
Com o fito de mediar tais dissensos, Habermas aponta o direito, cujo “papel [...] é
[...] buscar compatibilizar num só nível de normatização mundos da vida fortemente
pluralizados e profanizados, nos quais há uma nítida tensão entre a facticidade e a validade de
68
“Quanto maior for a complexidade da sociedade e quanto mais se ampliar a perspectiva restringida etnocentricamente, tanto maior será a pluralização de formas de vida e a individualização de histórias de vida, as quais inibem as zonas de sobreposição ou de convergência de convicções que se encontram na base do mundo da vida” (HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Volume I. Trad. de Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. p. 44)
69
Ibidem. p. 45
70
NEVES, Marcelo. Entre Hidra e Hércules: princípios e regras constitucionais como diferença paradoxal do sistema jurídico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014. p. 96
suas normas.”
71Na verdade, a dita tensão ocorre desde o âmbito linguístico, tendo em vista que os
fenômenos subjetivos são comparáveis aos objetos materiais quanto a sua objetividade. Ou
seja, os pensamentos são inalteráveis pela consciência – no sentido de força mental – da
mesma maneira que os objetos o são quando apreendidos pelo sujeito.
Ora: “pensamentos são objetivos, na medida em que apreendê-los não implica
reproduzir representações; mas eles não possuem realidade efetiva, na medida em que não
podemos ter deles percepções sensíveis”
72. É que as “condições de verdade” são destacadas
do contexto factual em que o proponente está situado, o que não quer dizer uma negativa
desta vinculação, pois a interpretação está condicionada às pretensões de validade, todavia, os
pensamentos são transcendentais e “verdadeiras para além do espaço, do tempo e da
consciência.”
73Partindo para além do conceito de Kant
74sobre o direito, Habermas identifica que a
legitimidade do direito decorre de um “processo legislativo racional” e que a validade social
depende da “fé dos membros da comunidade de direito na legitimidade”. Quando a norma
lança mão de sanções ou ameaças, tem-se uma “facticidade artificial” e sua legitimidade
depende da capacidade impositiva daquela.
75Aliás, as normas servem de baliza para o comportamento dos atores, na medida em
que “a regra constitui um empecilho fático na expectativa da imposição do mandamento
jurídico”, ficando claro para aquele que está orientado pelo sucesso próprio. Já quando a
intenção é o entendimento mútuo, a norma “amarra a “vontade livre” através de uma
pretensão de validade deontológica.”
76Por isso que as normas abrem dois caminhos linguísticos possíveis: objetivador, para
a primeira hipótese; ou performativo para a segunda. Como diz Habermas:
71
GÓES, Ricardo Tinoco de. Democracia Deliberativa e Jurisdição: a legitimidade da decisão judicial a partir e para além de J. Habermas. Curitiba: Juruá, 2013. p. 82 – 83.
72
SEGATTO, Antonio Ianni. A tensão entre facticidade e validade. In: NOBRE, Marcos. TERRA, Ricardo. (Orgs.) Direito e Democracia: um guia de leitura de Habermas. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 40
73
Ibidem. p. 41
74
Habermas faz seu corte metodológico a partir dos postulados de Kant, para quem a tensão entre facticidade e validade é resolvida no âmbito da validade jurídica, com as normas sendo dotadas de coerção, cuja utilização somente é autorizada para desobstruir o exercício da liberdade. Ademais, a integração social é provida por uma lei geral de liberdade que serve de motivação racional para os destinatários do direito. (HABERMAS, Jürgen.
Direito e democracia: entre facticidade e validade. Volume I. Trad. de Flávio Beno Siebeneichler. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. p. 48 – 49)
75
Ibidem. p. 50
76
[...] para o que age estrategicamente, ela [a norma] se encontra no nível de fatos sociais que limitam externamente o seu espaço de opções; para o que age comunicativamente, porém, ela se situa no nível de expectativas obrigatórias de comportamento, em relação as quais se supõe um acordo racionalmente motivado entre parceiros jurídicos.77
Compete às “leis morais”
78dar lastro às garantias de liberdades iguais de cada
indivíduo, condicionado a legitimidade do direito e a integração social ao processo de
legislação em que “os participantes [...] saem do papel de sujeitos privados do direito e
assumem, através de seu papel de cidadãos, a perspectiva de membros de uma comunidade
jurídica”
79. Pois a “positividade do direito vem acompanhada da expectativa de que o
processo democrático da legislação fundamente a suposição de aceitabilidade racional das
normas estatuídas.”
80O direito estabiliza os dissensos
81e proporciona a integração por meio das normas
que substituem “as convicções através das sanções, na medida em que libera os motivos que
acompanham a obediência às regras, porém impõe respeito.”
82Os destinatários ficam
impedidos de questionar a validade das normas, apesar de poder impor mudanças no próprio
processo de validação.
Partindo disto, Habermas diverge da ideia de uma “autonomia sistêmica do direito”
pois Niklas Luhmann não se preocupa com a obtenção de consenso, mas sim em transformar
as expectativas normativas dos atores em “meras exigências subjetivas”. É que elas vão
constituir uma “imagem exterior de aceitação geral”, neutralizando – e absorvendo assim – os
dissensos.
83Daí que os sujeitos se veem obrigados a aceitar o consenso procedimental sem terem
participado, efetivamente, da deliberação que contribuiu para sua formação. Isso se deve ao
fato de Luhmann compreender que a argumentação, por si só, não é uma “força racionalmente
77
Ibidem. p. 51 – 52
78
Marcelo Neves acerca do pensamento habermasiano: “No âmbito da tensão entre “faticidade” e “validade”, a instrumentabilidade política do direito tem como contraponto a sua indisponibilidade moral. [...] o direito precisa ser legitimado por procedimentos racionais, moralmente justificáveis. Esse modelo pode ser concebido como um modelo de fundamentação. (NEVES, Marcelo. Entre Hidra e Hércules: princípios e regras constitucionais como diferença paradoxal do sistema jurídico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014. p. 114)
79
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Volume I. Trad. de Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. p. 52 -53
80
Ibidem. p. 54
81
Habermas identifica duas estratégias comunicativas para lidar com o dissenso. A primeira é a circunscrição do discurso em um plano inferior à abertura do agir comunicativo, no qual figuram as “certezas intuitivas inquestionáveis por si mesmas. Assim ocorre uma “frenagem da mobilização comunicativa” e o “silenciamento da crítica”. O segundo caminho é o da não-circunscrição ou liberação, que prolonga o discurso e depende do auxílio do direito para obter êxito na “domesticação dos dissensos”. (Ibidem. p. 58 - 59)
82
Ibidem. p. 59
83
motivadora”, servindo tão somente para criar, para o jurista, uma “ilusão de não decidir
aleatoriamente.”
84De outra banda, por adentrarem no código dos sistema jurídico, “conteúdos do
código da moral e do poder [...], o sistema jurídico não se encontra fechado.”
85Além disso, a
auto-referência, na apreciação de Habermas não evita que “interesses jurídicos”
insignificantes e “meras racionalização de interesses” penetrem a atividade jurisdicional.
86Com efeito, a “aceitação da ordem jurídica é distinta da aceitabilidade dos
argumentos sobre os quais ela apoia a sua pretensão de legitimidade.
87” Isto porque os
próprios cidadãos que participam da formação do direito, eis que “autorizam as regras
criadas” por meio da “formação livre de opinião e da vontade política”. Portanto:
O direito funciona como uma espécie de transformador, o qual impede, em primeiro lugar, que a rede geral da comunicação, socialmente integradora se rompa. Mensagens normativas só conseguem circular em toda a amplidão da sociedade através da linguagem do direito; sem a tradução para o código do direito, que é complexo, porém aberto tanto ao mundo da vida como ao sistema, estes não encontrariam eco nos universos de ação dirigidos por meio.88