2.3 A VIGILÂNCIA DOS EXILADOS BRASILEIROS PELO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES
2.3.1 A “Diplomacia de Resultados” do Itamaraty
Nos primeiros meses da ditadura brasileira, o diplomata Manoel Pio Corrêa foi designado pelo general Castelo Branco para assumir o cargo de embaixador brasileiro no Uruguai, a fim de “melhorar as relações entre os dois países”, conforme se apreende do telegrama enviado da Embaixada brasileira em Montevidéu para o Itamaraty:
Acredito que a designação de um novo embaixador para o Rio de Janeiro, ontem aprovada pelo Senado traduza o desejo do governo uruguaio em desenvolver e ampliar as relações entre os dois países. O novo embaixador do Brasil Manoel Pio Correa Junior deverá chegar a Montevidéu no correr do próximo mês o que concorrerá para que os dois países voltem a ter representação diplomática normal em suas missões. Todos estes fatos desmentem amplamente os rumores infundados sobre as relações entre o Brasil e o Uruguai.292
A notícia enviada do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai para a Embaixada uruguaia no Rio de Janeiro corrobora essa intenção:
Hoy hora once y treinta presentó credenciales nuevo Embajador Manuel Pio Correa. Cambiaron impresiones favorables para estrechar vinculaciones ambos países.293
Antes disso, Pio Corrêa foi embaixador do Brasil na Cidade do México, mas, devido ao fato de esse país não ter reconhecido o governo golpista, foi chamado de volta ao Brasil.
Conforme Philip Agee, a base da CIA do Rio de Janeiro providenciou a sua nomeação para Montevidéu – que havia se tornado, no momento, “ponto em ebulição da diplomacia brasileira”294 –, devido à sua eficiência nas atividades operacionais exercidas anteriormente na Cidade do México. Ainda, segundo o ex-agente, a CIA decidiu envolver-se também nas operações contra os exilados brasileiros.
Juntamente com o coronel Câmara Senna,295 que foi para Montevidéu como adido militar, Pio Corrêa dedicou-se à neutralização da articulação entre os exilados, tendo como
292 Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Fundo: Embaixada brasileira em Montevidéu. Telegrama urgente enviado pela Embaixada brasileira em Montevidéu. n. 11.232. Montevidéu, 19 ago. 1964.
293 Ministerio de las Relaciones Exteriores de la República Oriental del Uruguay. Fondo Legaciones y Embajadas. Sección Brasil. Radiograma enviado pela Embaixada uruguaia no Rio de Janeiro. caja 157. Rio de Janeiro, 16 set. 1964.
294 AGEE, op. cit., p. 384.
295 O ex-agente da CIA, Philip Agee, declara que o adido militar Câmara Senna, o embaixador Manoel Pio Corrêa e o seu primeiro-secretário, Lyle Fontoura, seriam agentes dessa mesma companhia designados pela base do Rio de Janeiro para irem ao Uruguai. Cf. AGEE, op. cit., p. 384.
prioridades João Goulart e Leonel Brizola. A Embaixada uruguaia no Rio de Janeiro transmitiu para o seu Ministério a notícia publicada pelo jornal Correio da Manhã, a respeito da escolha da nomeação de Pio Corrêa:
La misión confiada al señor Pio Correa tendría por objeto ejercer una fuerte vigilancia en lo que se relaciona a los políticos exilados en el Uruguay, principalmente los señores Goulart y Brizola. Conforme dá cuenta en notas anteriores, el citado embajador es considerado un hombre integrado con los principios de la revolución y su tendencia a la extrema derecha sigue siendo recordada. Su presencia en nuestro país, de acuerdo al publicado por el citado diário, podria acabar “con lo que aún resta de las buenas relaciones entre ambos países, pués el señor Pio Correa tiene más condiciones para desempeñar una acción policial que diplomática”.296
Manoel Pio Corrêa, na sua autobiografia,297 relata que sua principal missão no Uruguai era impedir que os exilados exercessem atividades políticas, utilizando-se, para isso, de uma
“diplomacia de resultados”, através de cobranças e pressões sobre o governo uruguaio.
Primeiramente, arquitetou uma rede de contatos, que ia desde políticos, militares, juízes, delegados de polícia, até fazendeiros e comerciantes. A fim de obter auxílio das autoridades uruguaias, estabeleceu, entre outros, negociações a respeito de interesses entre os dois países, como a pavimentação de estradas que conduziam até a fronteira: Santa Vitória do Palmar-Chuí, Pelotas-Jaguarão, Bagé-Aceguá, Rosário-Santana do Livramento, Alegrete-Quaraí.
Além disso, foi o responsável pela construção da ponte sobre o rio Quaraí, ligando a cidade brasileira de mesmo nome à cidade uruguaia de Artigas.
Antes de viajar para Montevidéu, Manoel Pio Corrêa estabeleceu diversos contatos com as forças armadas e policiais do Rio Grande do Sul. Foi recebido pelo governador Ildo Meneghetti, “eloqüente indicação da importância atribuída pelo Rio Grande do Sul à Embaixada do Brasil no Uruguai”,298 que lhe informou que a Polícia Civil e a Brigada Militar do estado agiriam conjuntamente com a Embaixada brasileira em Montevidéu, no referente à vigilância da fronteira e a possíveis atividades subversivas insufladas a partir do Uruguai. O inverso também ocorreria: o estado gaúcho e a sua colaboração com a Embaixada brasileira era primordial. Pio Corrêa também recebeu apoio do III Exército, sendo que a Primeira, Segunda e Terceira Divisões de Cavalaria, responsáveis pelo controle das fronteiras, manteriam ligação direta com o embaixador, mantendo-o constantemente informado do que
296 Ministerio de las Relaciones Exteriores de la República Oriental del Uruguay. Fondo Legaciones y Embajadas. Sección Brasil. Ofício enviado pela Embaixada uruguaia no Rio de Janeiro. caja 156/ carpeta 1/sección 1ª - 812/964-1ª-1/64. Rio de Janeiro, 14 jul. 1964.
297 CORRÊA, Manoel Pio. O mundo em que vivi. 3. ed. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1996. 2 v.
298 Ibid., p. 848.
estava ocorrendo no estado gaúcho.
No Uruguai, o novo embaixador foi fortemente apoiado pelo general Santiago Pomoli, seu amigo pessoal, que tratou de articular, no Exército uruguaio, uma corrente favorável aos objetivos designados ao embaixador, ou seja, a estrita vigilância das atividades dos exilados brasileiros. Manoel Pio Corrêa tratou, ainda, de estabelecer laços com o chefe da polícia de Montevidéu.
Pelo êxito da sua missão no Uruguai e pelo controle que exerceu sobre os exilados, recebeu a alcunha, por parte da esquerda brasileira, de “troglodita reacionário”, assim como severas críticas por parte da esquerda uruguaia, que percebia as ações do embaixador como uma ameaça à soberania do seu país.299 O embaixador encontrava-se, nas suas próprias palavras:
face a um governo pouco cooperativo e pressionado pela opinião pública e pela imprensa da Capital, cuja população – metade da população do país – era preponderantemente simpática aos asilados políticos brasileiros e hostil ao Governo revolucionário do Brasil – e a mim, representante deste Governo.300
Uma das ordens recebidas por Pio Corrêa do governo brasileiro enquanto embaixador era a obtenção do confinamento de Leonel Brizola em um local onde o ex-governador gaúcho ficasse em vigilância permanente, via decisão administrativa das autoridades uruguaias. Uma das denúncias realizadas foi a de que o embaixador teria condicionado a compra de trigo uruguaio à limitação da mobilidade de Leonel Brizola, pressionando economicamente o Uruguai, a fim de que este pendesse para o lado do governo brasileiro:
Ahora los gorilas brasileños amenazan a nuestro país a no adquirirnos el excedente triguero si previamente no se aceptan sus exigencias sobre los exilados. Y el tema del trigo, aunque parezca mentira, ha estado presente en las deliberaciones de la mayoría de los asilados brasileños.301
As páginas do Correio do Povo assim noticiavam as pressões exercidas pelo Itamaraty:
O Brasil não está satisfeito com a progressão dos acontecimentos ligados ao tratamento que o Uruguai vem dispensando aos asilados brasileiros. As autoridades governamentais estão cada vez mais descontentes pelo adiamento sistemático de uma solução para o problema que atenda aos apelos brasileiros. Categorizado
299 GUTIÉRREZ, Carlos Maria. Un pájaro que canta feo: no intervención. Marcha, Montevideo, 4 fev. 1965, p.
32.
300 CORRÊA, op. cit., p. 869.
301 ¿Se canjeará a Brizola por trigo a Brasil? El Popular, Montevideo, 30 dic. 1964, p. 1.
observador diplomático disse ontem que tal situação cria nas relações entre os dois países, que sempre foram muito boas, um mal estar capaz de impedir o surgimento de novas iniciativas econômicas entre o Brasil e o Uruguai.302
Pio Corrêa relata que solicitou ao governo brasileiro que este comprasse o excedente exportável da colheita de trigo referente ao ano de 1964, em torno de 150 mil toneladas. Para o embaixador, realizada essa transação comercial, a relação entre Brasil e Uruguai seria modificada, fazendo com que o governo uruguaio deixasse de ver com simpatia as atividades dos asilados políticos, passando a concordar com a ingerência brasileira no Uruguai. Dessa forma, o comentário realizado era de que o Brasil teria comprado a internação de Leonel Brizola por 50 milhões de dólares. Pio Corrêa nega esse poder de compra, mas afirma: “a compra do trigo não foi uma moeda de barganha; mas foi, sim, um trunfo considerável”.303
A permanência e as atividades de Brizola no exílio foram motivos de preocupação não só para a ditadura brasileira, mas também para os órgãos de inteligência norte-americanos.304 Philip Agee comenta que a base da CIA em Montevidéu precisava verificar constantemente os rumores que corriam, assim como as solicitações de relatórios especiais da polícia produzidos sobre os exilados, a fim de que os responsáveis da CIA por essa base os averiguassem conjuntamente com Pio Corrêa, seu secretário e o adido militar. Essas atividades da agência norte-americana estavam inseridas em um auxílio tácito à ditadura, visto que a CIA insistia permanentemente para que a base do Rio de Janeiro fosse auxiliada na sua operação de apoio aos militares.305
Junto com a problemática do confinamento de Leonel Brizola no Uruguai, havia a questão da solicitação de asilo político por Almino Afonso, ministro do Trabalho e da Previdência Social durante o governo João Goulart, e Max da Costa Santos, deputado federal na época, ambos tendo sido cassados pelo AI-1. A Embaixada brasileira pedia sua expulsão do Uruguai, alegando que eles teriam entrado ilegalmente no país, pois já haviam recebido asilo político nas Embaixadas do México e da Iugoslávia, afirmando ao Ministério das Relações Exteriores do Uruguai que “o governo brasileiro não toleraria a concessão do asilo aos impetrantes”.306 Essa situação conjunta, se não resolvida, poderia levar a uma intervenção militar por parte do Brasil, conforme o chefe da estação da CIA em Montevidéu teria
302 Decisão do Uruguai sobre os asilados não é satisfatória para o nosso país. Correio do Povo, Porto Alegre, 13 jan. 1965, p. 1.
303 CORRÊA, op. cit., p. 889.
304 Índio Vargas relata que os agentes do DOPS/RS, da Polícia Federal e da CIA que espionavam Brizola tratavam-se como se fossem pessoas da pequena comunidade, chegando a cumprimentar os exilados e “pombos-correio” que o acompanhavam. Cf. VARGAS, op. cit., p. 35.
305 AGEE, op. cit., p. 416.
306 CORRÊA, op. cit., p. 865.
notificado Agee.
Entretanto, a ditadura brasileira, em caso de Leonel Brizola deixar o Uruguai, evitando o confinamento, já havia planejado uma estratégia de prisão do exilado:
Si el ex-gobernador del Río Grande del Sur y cuñado del ex-presidente brasileño João Goulart, Leonel Brizola, renunciara a su asilo político en el Uruguay y partiera con destino a Europa para evitar su internación por el gobierno uruguayo, sería arrestado por las autoridades brasileñas cuando su avión hiciera escala en Río de Janeiro o cuando la nave – en caso de viajar por mar – entrara en aguas territoriales de Brasil. Así le revelaron fuentes allegadas al Palacio Itamaraty, asiento de la Cancillería brasileña.307
Almino Afonso e Max da Costa Santos acabaram expulsos do Uruguai, devido ao fato de terem solicitado asilo político em outras embaixadas, transferindo-se para Santiago do Chile. Já em fevereiro de 1965, o Conselho Nacional do Governo uruguaio votou pelo confinamento de Brizola;308 porém, este pôde escolher a cidade, desde que não fosse Montevidéu e que estivesse no mínimo a trezentos quilômetros de distância da fronteira brasileira. Brizola escolheu a cidade balneária de Atlântida, distante apenas trinta e cinco quilômetros da capital e trezentos e um quilômetros da fronteira. A vigilância sobre o ex-governador do Rio Grande do Sul continuou, inclusive pelas forças policiais uruguaias, até o ano de 1971.309
2.3.2 Os órgãos de informação e espionagem: o Centro de Informações do Exterior e a