AS CIENCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS E A DISCIPLINA SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO
3.2. A SOCIOLOGIA NO BRASIL
3.2.2. A disciplina durante a Reforma Francisco Campos
Em 1931, no início da Era Vargas, com o ministro da Educação Francisco Campos, o ensino de Sociologia é ampliado em nível nacional nas escolas de nível secundário, saindo dos marcos das Escolas Normais, ampliando a possibilidade de uma formação mais humanística para todos os estudantes.
Meucci (2000) descreve que nos anos 20 e 30 a Sociologia ressurge de tal maneira que: Ao analisarmos este percurso da disciplina no sistema de ensino brasileiro, verificamos que, após a permanência inexpressiva nos cursos médios no último decênio do século passado, sobrevivendo nos meios intelectuais por obra de homens notáveis que ofereciam cursos livres e publicavam ocasionalmente ensaios sociológicos, a sociologia ressurge triunfalmente nas décadas de 20 e 30, em cursos de formação de professores, nos preparatórios ao exame de admissão para o ensino superior, nas faculdades e universidades. É quando, de fato, após uma longa trajetória, a sociologia adquire um lugar institucional onde fora possível iniciar, de modo regular, a reprodução do conhecimento sociológico, especialmente na forma de manuais didáticos dedicados à difusão da nova disciplina entre os alunos. (MEUCCI, 2000:10)
Rêses (2004) justifica que a ampliação da inserção da disciplina realizada na Reforma Rocha Vaz deve-se ao fato de que essa reforma foi implanta em todo o território nacional e não mais circunscrita ao sistema de ensino do Distrito Federal, como foram as reformas anteriores. (RÊSES, 2004:8)
Giglio (1999) enfatiza que:
A reforma Francisco Campos, datada no ano de 1931, vem a reboque da revolução de 1930, ampliando o ensino de sociologia na escola secundária que agora estava dividida em ginasial, cinco anos, e complementar, dois anos. A disciplina de Sociologia constaria no segundo ano das três seções que compreendiam a parte complementar, enquanto que as de “Economia Política” e a “Estatística” estariam só no curso pré-jurídico. E foi essa mesma Reforma que exclui a “Instrução Moral e Cívica” como disciplina curricular.(GIGLIO, 1999:14)
Entre 1931 a 1941, para se ter o domínio do conhecimento sociológico, fora exigido nos
29 Carneiro Leão esteve à frente da Secretaria de Educação de Pernambuco, em 1929, no qual promoveu uma reforma
educacional, que inclui a disciplina Sociologia no curso normal. Santos, ainda complementa em nota de roda-pé que esse autor tinha como preocupação a formação de uma cultura sociológica já estava presente, em 1925, época, na qual, foi Diretor-Geral de Instrução Pública, no Distrito Federal, promovendo na ocasião uma reforma da educação primária com base em conhecimentos Sociológicos. Contribuiu com a disciplina, na publicação de vários livros e manuais dessa disciplina, e outros temas para Literatura e Educação. (Meucci, 2000:35)
exames de admissão aos cursos superiores. A Sociologia esteve presente entre as matérias obrigatórias dos cursos complementares, freqüentados pelos alunos, que deveriam durante dois anos, após o término do nível secundário, se dedicar ao preparo para o ingresso nas faculdades e universidades. (MEUCCI, 2000:54)
Alunos que prestariam vestibular para os cursos de Engenharia, Arquitetura, Química e Medicina tiveram ofertado no segundo ano do curso complementar, três horas semanais da disciplina Sociologia, estando de acordo com os programas vigentes dos cursos complementares.
De acordo com Meucci, para esses alunos fora dedicado um esforço de sistematização didática do conhecimento sociológico, muito notável. E para exemplificar sua afirmação ela descreve alguns dos inúmeros livros didáticos publicados no período.
Com efeito, de acordo o levantamento realizado, das cerca de duas dezenas de livros didáticos de sociologia publicados entre as décadas de 30 e 40, quase metade eram adotados para adoção nos cursos complementares. São eles: Sociologia, de Delgado de Carvalho, 1931; Sociologia geral, de Rodrigues Meréje, 1933; ensaio de sinthese sociológica, V. Miranda Reis, 1933; Sociologia experimental, de Delgado de Carvalho, 1933; Que é sociologia, de Rodrigues Meréje, 1935; Sociologia aplicada, de delgado de Carvalho, 1935; Sociologia (outros aspectos da filosofia universal: solução dos problemas sociais), de Manuel Carlos, 1938; Preciso de sociologia, de Paulo Augusto, 1938; Práticas de sociologia, de Delgado de Carvalho, 1939; Programa de sociologia, de Amaral Fontoura, 1940.(MEUCCI, 2000:55)
A autora nos chama atenção para o fato de que muitos dos livros de Sociologia, elaborados para os cursos complementares, eram também adotados para os cursos de Sociologia Geral nas Escolas Normais. E, que isso, nos mostra a expectativa com relação da contribuição da disciplina sociológica nos cursos de magistério e complementares, que eram, de certo modo, semelhantes. (MEUCCI, 2000:55)
Ela descreve que vários manuais eram o resultado da organização dos conteúdos dos cursos ministrados pelos próprios autores como, por exemplo, o manual de Iniciação à Sociologia de Alceu Amoroso Lima, que é síntese de suas aulas de Sociologia no Instituto Superior de Estudos Católicos. O mesmo ocorre nos manuais de Carneiro Leão, “Fundamentos de Sociologia” e de Gilberto Freyre, “Sociologia. Introdução aos seus princípios”, no qual resultam da compilação das aulas de Sociologia oferecidas pela Universidade do Distrito Federal.(MEUCCI, 2000:18)
Nesta década de 30, surgem as primeiras Instituições e Faculdades de Ciências Sociais no Brasil: em São Paulo, a Escola Livre de Sociologia e Política, em 1933; a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo, em 1934 e a Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em 1935, que depois foi reestruturada para a Universidade do Brasil, com a sua Faculdade Nacional de Filosofia, no ano de 1939.
Em busca da renovação do sistema de ensino secundário, ocorreram vários debates acerca da exclusão do curso de latim dos programas de ensino. Essa polêmica demonstra o esforço para a substituição de uma educação clássica por uma educação moderna. Assim Meucci, cita Azevedo (1981) para elucidar essa renovação do sistema. A rigor, os reformadores pretendiam, com a eliminação de disciplinas como a língua latina, fundar um novo programa em que o conhecimento oferecido fosse, de fato, aplicável às necessidades do mundo moderno. (AZEVEDO, 1981:226 apud MEUCCI, 2000:57)
Para compreender essa adequação do ensino à vida moderna, seria fundamental, estender aos alunos do ensino secundário o acesso ao conhecimento científico.
Para explicar a significação que fora atribuída ao conhecimento científico no processo da reforma do ensino secundário, Meucci (2000) destaca a seguinte passagem de Afrânio Peixoto (1937):
Sem física, não há nada. Sem química nada se compreende. As ciências naturais, a história da criação, elevam o homem a seu ideal e lhe dão razão e meio de vida. E porque não higiene, se tem de guardar e cuidar da saúde, patrimônio a zelar? Não são os médicos os que a devem saber senão todo mundo... E porque não Pedagogia, só reservada a professores, quando toda gente tem que ser pai e mãe, e é preceito básico de nossa cultura honrar e felicitar a família, criar e ensinar os filhos, desde o lar? A psicologia nos ensina a compreender os homens, a compreender e aproveitar as almas: não será mais aproveitável e compreensível, que a decorada lógica ou suntuária literatura? (PEIXOTO, 1937:22 apud MEUCCI, 2000:57)
Seria preciso que as tais noções de Física, Química, Medicina, Pedagogia e Psicologia abrangessem, de um modo mais geral, para que o homem de nível médio, pudesse compreender melhor. Para os educadores, tratava-se de um conjunto básico de conhecimentos capazes de desenvolver uma compreensão racional dos fenômenos da vida, permitindo, além de tudo, um bem- estar humano, devendo esse conhecimento científico, ser levado a um número cada vez maior de membros da sociedade, estendendo-se a novos domínios da vida.(MEUCCI, 2000:57)