Na década de 1970, o Sistema de Integração Empresa-Escola (SIE-E) era um projeto prioritário do Ministério da Educação e Cultura e fazia parte do Programa de Estratégias do Desenvolvimento Nacional. O SIE-E da Escola Técnica Federal realizava várias atividades com o objetivo de integrar e adaptar o aluno à situação
de trabalho. Dentre as suas atividades estavam a organização de um sistema de estágios junto as empresas, visitas técnicas, prestação de serviços, realização de pesquisas, entre outras atividades
Em 1976 o SIE-E da ETFPR realizou o Primeiro Ciclo de Estudos Técnicos com os alunos dos últimos períodos dos cursos técnicos. O evento visava orientar os alunos que não exerciam atividades correlatas ao curso que desenvolviam em relação ao mercado de trabalho e também apontar soluções para as falhas no currículo escolar.
Os trabalhos foram organizados em grupos de acordo com as especialidades técnicas e alunos puderam expor sua opinião sobre o técnico e sua formação e o técnico e a universidade.
Em relação a disciplina de Matemática os alunos do cursos de Eletrônica e Telecomunicações acreditavam que deveria ocorrer um maior aproximação com as matérias técnicas.
720 – A disciplina de Cálculo I, do currículo vigente, deverá ser ministrada por professor formado em Eletrônica. Isto resultará no aproveitamento da disciplina dentro das funções técnicas, observada a importância de cálculo integral e diferencial. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Os alunos do curso de Eletrotécnica demonstraram uma preocupação maior com a continuação dos estudos e com os conteúdos de Matemática exigidos no vestibular, que segundo eles são insuficientes.
Todo o aluno da Escola Técnica tem condições através dos conhecimentos que adquiriu durante o Curso, para fazer um bom vestibular ou pelo menos uma tentativa. O problema está surgindo após o sexto período de Matemática. Para o aluno que ingressar na faculdade, não é suficiente o conhecimento obtido na referida disciplina. Necessário se faz providenciar mais um período de Matemática, no 7oou 8o, devendo, nele, serem dados: início de cálculo integral e diferencial, matrizes e outros assuntos que favoreçam o aluno após seu ingresso na faculdade ou, ainda, quando fizer o vestibular. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Os alunos do curso de Decoração mostraram que o curso técnico, muitas vezes era procurado muito mais pela formação geral do que pela diplomação técnica.
c) – Alguns grupos acharam falhas no currículo de Cultura Geral. Para que isto não aconteça aos futuros alunos, deveriam ser feitas palestras,
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esclarecendo aos mesmos que o objetivo da escola é Formar Técnicos especializados nas devidas áreas. (DOC. 10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Os alunos do curso de Edificação apontaram para o não cumprimento dos objetivos, falhas nas disciplinas de Matemática e física, além da falta de material didático.
1.2 – Falta de cumprimento dos objetivos programados por parte dos professores.
[...] 1.5 – Aulas de Matemática e Física melhor ministradas e não tão superficiais.
[...] 1.13 – A falta de material didático para os alunos (apostilas) nas disciplinas teóricas. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Os alunos de Mecânica aproximam-se das conclusões do grupo de Eletrônica e Telecomunicações. Sugerem uma maior aprofundamento nos conteúdos e aproximação entre as disciplinas de cultura geral e específica.
1 – A Cultura Geral deve apresentar um desenvolvimento em paralelo com a Cultura Específica.
2 – A Cultura Geral e Específica deve ser acentuada para suprir a defasagem de base.
[...] 12 – Inserir maior conteúdo em Matemática e Física Específica; principalmente no 7oe 8operíodo. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Neste ciclo de estudos a maioria dos alunos demonstrava interesse em ingressar na Universidade. Os alunos de Eletrônica e Telecomunicações afirmavam que se houvesse interesse do individuo técnico em continuar os estudos na mesma área de interesse, o profissional formado apresentaria uma vantagem no mercado de trabalho por dominar além da teoria, a prática da profissão.
Desde que haja o interesse individual em continuar galgar os degraus de uma boa formação e habilitar-se profissionalmente, o estudante de nível médio, técnico, terá maiores vantagens sobre os demais alunos de nível secundário. Seus conhecimentos básicos lhe proporcionarão sempre um passo à frente dos colegas e maior facilidade de adaptar-se às normas restritas à ciências exatas.
Ressalta-se, também, (em relação aos colegas) seus conhecimentos práticos confrontados aos teóricos, entre outros benefícios. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Para os alunos de Eletrotécnica uma das razões para o ingresso do técnico na Universidade era a questão da autoridade perante uma equipe de trabalho. Devida à desvalorização das atividades práticas, acreditam que seria mais difícil para o técnico assumir posições de liderança.
Todo o Técnico ou quase todos, após conclusão específica, tencionam ingressar na faculdade. [...] Normalmente ele pensa que sem o Curso de
Engenharia, ver-se-á perdido, sem autoridade de comandar um grupo de indivíduos ou qualquer outro setor. [...] Podemos comparar os Estados Unidos em relação ao Brasil em termos de Técnicos e Engenheiro. Lá existem dez técnicos para cada engenheiro, ao passo que no Brasil temos 2 engenheiros para cada Técnico. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Para os alunos do curso de Decoração o ensino técnico oferecido pela escola era compensador profissionalmente e que as disciplinas de cultura geral eram insuficientes para enfrentar o vestibular.
1. – As disciplinas de Cultura Geral, ministradas pela Escola não oferecem condições ao aluno para enfrentar o vestibular.
2. – Se o nosso curso não fosse compensador teríamos abandonado a escola no sexto período com a finalidade de freqüentar ‘cursinho’ para ingressar na faculdade. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Os alunos de Mecânica acham que o curso superior não era essencial para o técnico, sendo considerado mais uma questão de ‘status’ profissional e social.
Vivendo numa cidade universitária, é evidente que a maioria, como estudantes bem esclarecidos, deseja ingressar em faculdade.
Daí o fato de, unanimemente, afirmarem a insuficiência das informações, aqui recebidas, e assim se tornar necessário o cursinho.
É de conhecimento geral que o curso superior, em nosso campo, não seja essencial para o técnico, mas trata-se da aquisição de melhor ‘status’, quer na indústria ou na sociedade. (DOC.10 - CICLO DE ESTUDOS, 1976)
Através do depoimento dos alunos dos cursos técnicos percebemos que a disciplina de Matemática apresentava problemas, pois não estava atendendo satisfatoriamente nem a finalidade de preparação para o vestibular e nem a de aproximação com as disciplinas de cultura técnica. O ingresso na Universidade em alguns casos parece ser mais uma questão de status da profissão do que a necessidade efetiva de formação técnico-científica.
4.5 A TRAJETÓRIA PROGRAMÁTICA DA MATEMÁTICA NOS CURSOS