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2. O SUDOESTE DO PARANÁ

2.1 DAS TROPAS AO CONTESTADO: O SUDOESTE VIRA PARANÁ

2.1.2 A disputa de limites entre Brasil e Argentina

Conforme Adelar Heinsfeld29, na medida em que ocorreram os processos de emancipa-ção das colônias na América do Sul, a definiemancipa-ção de limites passou a utilizar como princípio o

“uti possidetis”, isto é, o princípio que estabelecia que o dono era quem estivesse efetivamen-te ocupando uma região.

Na disputa dos territórios que envolviam o Oeste de Santa Catarina e o Sudoeste do Paraná os países passaram a utilizar argumentos baseados no princípio da ocupação da região, sem deixar de levar em consideração os tratados e definições de limites estabelecidos pelas metrópoles coloniais.

Os argentinos utilizaram em sua argumentação os diversos tratados e discutiam a loca-lização dos rios citados no Tratado de Santo Ildefonso. Enquanto o Brasil afirmava que os rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio eram os que atualmente são conhecidos por esses nomes, os ar-gentinos buscavam convencer os envolvidos que havia equívoco na localização dos rios, for-çando o deslocamento das fronteiras para o Leste e tomando como referências os rios Chape-có e Jangada. Outro rio que era considerado como um dos possíveis marcos divisórios era o rio Chopim, na bacia do Rio Iguaçu.

A necessidade de expansão dos territórios para a implantação de fazendas levou a bus-ca de novos bus-campos, em especial os bus-campos de Guarapuava, que eram território dos povos Kaingang. Em 1808, e Carta Régia, foi determinada a expulsão dos “bugres” e a ocupação econômica da área. A expedição comandada pelo Coronel Pinto Azevedo Portugal conseguiu submeter os índios e abrir caminho para a instalação de diversas fazendas (POLI, 1987).

O processo de ocupação desses campos passou por muitas dificuldades na relação com os Kaingang, que dificultavam a presença dos brancos em suas terras. Esse conflito foi par-cialmente superado com o aldeamento de parte desses índios, que já informavam da existência dos campos de Palmas, mais ao sul. Por ser considerado um refúgio, os Kaingang mantinham sigilo sobre a localização desses campos (WACHOWICZ, 1987, p. 13).

Como os espaços ocupados pelas fazendas de criação eram muito grandes, em pouco tempo os campos de Guarapuava já não conseguiam comportar o número de interessados em

29 HEINSFELD, Adelar, A questão de Plamas entre o Brasil e a Argentina e o início da colonização alemã no Baixo Vale do Rio do Peixe-SC, Joaçaba: UNOESC, 1996. Em sua pesquisa levanta toda a trajetória da dis-puta territorial entre o Brasil e a Argentina, especialmente a partir da imprensa e atos oficiais.

implantar suas criações e houve uma expansão para o sul em direção aos campos de Palmas.

Nos anos de 1836 e 1838 foram organizadas duas expedições de pecuaristas para implantação de suas fazendas.

Cada uma das expedições contava com uma associação organizada com a finalidade de encontrar e ocupar os campos de Palmas. As duas expedições representavam divergências no processo de ocupação. Na mediação entre os dois grupos apareceu a figura do cacique Vi-torino Condá, que passou a acampar na região próxima aos ocupantes. Para solucionar as di-vergências os ocupantes foram em busca dos campos do Erê, que eram conhecidos dos índios.

No trajeto para esses campos a expedição teve contato com o cacique Viri, que passou a con-viver pacificamente com os ocupantes das terras.

Os primeiros moradores se fixaram no Campo Erê no ano de 1858. Eram das famílias Lara, Machado e Joaquim Afonso. Os Lara permaneceram na região e os Machado dirigiram-se a São Pedro, território de Missiones, na Argentina (WACHOWICZ: 1987, p. 17)).

A localização da cidade de Palmas foi, durante vários anos, entre 1855 e 1870, consi-derada provisória por estar fora do roteiro do caminho de tropas que ligava esses campos à província do Rio Grande do Sul. Várias propostas de transferência da povoação para um local mais próximo do caminho das tropas foram feitas. No entanto, a conclusão foi a localização de Palmas em seu lugar de origem e a formação da localidade de Bela Vista, atual Clevelân-dia.

Uma das políticas adotadas pelo governo brasileiro foi a da ocupação dos territórios a partir de iniciativas oficiais visando o povoamento e a garantia de que os fundamentos do princípio “uti possidetis” fosse garantido ao Brasil.

Por essa razão, o Império Brasileiro criou, através do Decreto nº 2502, de 16 de no-vembro de 1859, mais duas colônias militares dentro da área em disputa com a Argentina.

Conforme Wiliam Weber30, o governo Argentino protestou contra o decreto brasileiro e o governo imperial resolveu não implantar de imediato as colônias militares para não provo-car atritos de maior monta.

Depois da Guerra do Paraguai a situação ficou mais favorável, especialmente quando a Argentina criou a província de Missiones, envolvendo toda a área em disputa. O Brasil passou a encaminhar a implantação das duas colônias militares. Francisco Clementino de San Tiago

30 WEBER, William, A Colônia Militar do Chopim,Curitiba: Imprensa oficial do Estado, 2006.

Dantas foi nomeado o responsável pela implantação da Colônia Militar do Chopim e José Bernardino Bormann, que mais tarde foi general e vice-presidente do Estado do Paraná, o res-ponsável pela implantação d Colônia Militar de Xapecó. (WEBER: 2006, p.55)

A colônia militar de Xapecó foi fundada em 14 de março de 1882 nas proximidades do Rio Chapecó, na localidade denominada de Xanxerê. Na época a área pertencia ao Paraná.

A colônia militar do Chopim foi criada em 27 de dezembro de 1882, na margem es-querda do Rio Iguaçu e na margem direita do Rio Chopim.

A expedição fluvial desceu o Rio Iguaçu em demanda da foz do rio Chopim, liderada pelo capitão San Tiago Dantas. Depois de percorrerem e explorarem as áreas próximas, abriram e ampliaram as

“picadas” para facilitar o acesso e definiram a localização do futuro núcleo militar.[...]A sede da Colônia localizava-se a 22 léguas (154 km) à noroeste da Vila do Senhor Bom Jesus dos Campos de Palmas, a 24 léguas (168 km) à sudoeste da cidade de Guarapuava, a 17 léguas (119 km) do povoado de Bella Vis-ta ou Boa VisVis-ta (atualmente Clevelândia) e à 7 léguas do então distrito de Mangueirinha (FREGNESE, 2006, p.195)

A distribuição das terras para os colonos que participaram da Colônia Militar era feita através da venda de lotes rústicos, de 242 hectares, que deveriam ser pagos juntamente com os equipamentos fornecidos. Ao receber os lotes, os agricultores recebiam um título provisório que se transformaria em definitivo na medida em que fosse integralizado todo o pagamento pela terra e pelos equipamentos. Foram distribuídos, entre 1895 e 1907, 84 títulos definitivos, de 424 hectares. A produção era diversificada, abrangendo desde a produção de grãos, como o milho e o feijão, e os produtos para consumo da própria colônia militar como cana-de-açúcar, arroz, mandioca, batata, fumo, alfafa, verduras, frutas. Era, ainda, produzida alguma varieda-de varieda-de farinhas e açúcar mascavo (FREGONESE, 2006, p. 197).

Na Colônia Militar de Xapecó foram distribuídos 255 títulos de propriedade para agri-cultores. A produção agrícola era muito pequena, destinando-se principalmente para o auto-consumo das famílias, e o sucesso econômico da Colônia se deu principalmente em função da erva-mate, que era abundante na região (POLI, 1987, p.21).

A Colônia Militar do Chopim foi mantida em funcionamento até o ano de 1909. Du-rante alguns anos o governo ainda acompanhou o processo de desenvolvimento da colônia.

Em 1915 foi nomeada uma comissão para titular as terras ainda não regularizadas pela colônia

militar (FREGONESE, 2006, p. 204).

O caminho de tropas aberto ainda durante o período colonial, como vimos acima, não influenciou de forma muito direta a ocupação e povoamento da região Sudoeste do Paraná.

No entanto, na medida em que Lages, e seu termo, passou a pertencer à província de Santa Catarina, em 1820, houve uma mudança substancial. Como até aquele momento Lages e seu termo pertenciam à província de São Paulo o transporte do gado vindo do Rio Grande do Sul transitava todo ele por terras da província não havia a incidência de impostos sobre esse trân-sito de tropas.

Por um alvará de 9 de Setembro de 1820 a vila de Lages e todo o seu termo foi desa-nexada a da Província de São Paulo e incorporada à Província de Santa Catarina. Em função dessa nova situação, as tropas passaram a pagar impostos pelo trânsito pelos campos de La-ges, agora de jurisdição catarinense.

Para evitar essa tributação, os paulistas passaram a estudar a possibilidade de abrir um novo caminho de tropas passando pelo Oeste de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná, através dos campos de Palmas e dos campos de Guarapuava.

Em 1846, a Província de São Paulo novamente vai tentar estabelecer uma comunicação entre Palmas e a Província do Rio Grande do Sul. Para abrir uma picada neste sentido, foi escolhido Francisco da Rocha Loures. Esta picada deveria passar forçosamente por terrenos controlados por índios hostis. Para tornar possível esse intento, Rocha Loures manteve contato com Condá. Ambos haviam se conhecido enquan-to meninos no aldeamenenquan-to do Atalaia, em Guarapuava. Esta amizade de infância fez com que Condá anuísse em acompanhá-lo no empreendimento (WACHOWICZ, 1987, p. 21).

Esse novo caminho aberto, passando por regiões já ocupadas e regiões ainda desocu-padas, permitiu encurtar o caminho das tropas e a consolidação da ocupação do Oeste Catari-nense e Sudoeste do Paraná.

Em 1864, Manoel Marcondes de Sá, apoiado pelo cacique Condá e seus índios, conse-guiu abrir um caminho novo de acesso a Corrientes,, na Argentina, de onde puderam ser bus-cados muares para comercialização em São Paulo e Minas Gerais. Esse caminho já era conhe-cido dos índios e de algumas famílias de colonizadores que passaram por Campo Erê em bus-ca de novas terras na Argentina (POLI, 1987, p.12).

Outra estratégia de defesa do território em disputa adotada pelo governo brasileiro foi

a construção de uma estrada de ferro para garantir o processo de integração territorial.

A construção dessa estrada de ferro foi estabelecida pelo governo imperial pelo Decre-to nº 10.432, de 09 de novembro de 1889:

Concede privilégios, garantia de juros e terras devolutas, mediante autorização legislativa, para constru-ção, uso e gozo de uma estrada de ferro, que partindo das margens do Itararé, na província de São Pau-lo, vá terminar em Santa Maria da Bocca do Monte, na província do Rio Grande do Sul, com diversos ramaes (HEINSFELD, 1996, p. 103).

Os privilégios concedidos pelo governo brasileiro à empresa construtora começam pe-los juros pagos sobre o capital investido pela empresa construtora. Eram 6% (seis por cento) de juros a serem pagos durante 30 anos para a empresa construtora.

A maior vantagem recebida pela empresa construtora era a terra que, no Oeste de San-ta CaSan-tarina e no Paraná, esSan-tava ocupada por abundantes maSan-tas de pinheiros e outras madeiras de lei. A faixa de 30 quilômetros nos lados da ferrovia garantiu uma quantidade enorme de terras e a condição excepcional de exploração da madeira, como ocorreu na região em refe-rência. O decreto estabelecia um prazo de 50 anos para que a companhia construtora utilizasse as concessões recebidas.

A localização do traçado da ferrovia foi próxima das áreas contestadas para garantir a influência no processo de ocupação do território. Havia, também, o motivo estratégico e mili-tar em caso de conflito com a Argentina.

A construção dessa ferrovia, realizada somente depois da definição da questão de limi-tes, no Oeste de Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná, provocou consequências bastante significativas.

A maior delas foi provocada pela apropriação das terras concedidas à companhia cons-trutora e a expulsão dos caboclos de suas posses localizados nas concessões. Isso provocou o desencadeamento do conflito denominado de Guerra do Contestado.

Depois de muitas disputas e demorados processos de negociação os argentinos e os brasileiros resolveram, em comum acordo, estabelecer o presidente do Estados Unidos da América como mediador da questão de limites entre os dois países.

De forma sintética se pode afirmar que as duas partes apresentavam uma divergência básica na questão das fronteiras: a localização dos rios Peperi-guaçu e Santo Antônio.

Para os brasileiros os rios são os que atualmente são conhecidos por esses nomes e que haviam sido localizados a partir da definição do tratado de Santo Ildefonso.

Para os Argentinos, a localização dos rios precisava ser refeita, pois afirmavam que os rios indicados no tratado eram os que atualmente são conhecidos como Rio Chapecó e Rio Jangada. Havia outra possibilidade que afirmava que o afluente do Uruguai seria o Rio Cha-pecó e que o afluente do Iguaçu o Rio Chopim.

Na mediação feita pelo presidente dos Estados Unidos, no caso o presidente Cleve-land, o Brasil teve suas posições consideradas mais consistentes e o julgamento da questão lhe deu ganho da causa, passando todo o território em disputa a ser considerado brasileiro. A data da decisão foi 05 de fevereiro de 1895.

No ano de 1903 a Comissão Demarcatória dos limites entre o Brasil e a Argentina es-tava concluindo seus trabalho e o General Dionísio Cerqueira, que represenes-tava o Brasil na comissão, constatou a necessidade de criação de um núcleo urbano para dar suporte aos brasi-leiros residentes naquela região de fronteira, especialmente para que esses habitantes não fi-cassem dependentes da administração argentina. Em homenagem ao general que efetuou o processo de fixação das fronteiras a localidade passou a ser denominada de Dionísio Cerquei-ra (WACHOWICS, 1987, p. 58).

A criação dessa localidade cumpria, também, o papel de vigilância sobre a fronteira entre os dois países, tendo em conta que, a partir desta localidade, até a localidade de Santo Antônio, a fronteira era definida por marcos afixados pela Comissão Demarcatória. Essa po-voação estava localizada entre as nascentes dos rios Peperi-guaçu e Santo Antônio, que de-marcam de forma natural as fronteiras entre os dois países.