2 “O BRASIL MARCOU ENCONTRO NO PARANÁ”: O DISCURSO DA (RE)OCUPAÇÃO DO ESTADO E SUA CONSOLIDAÇÃO TERRITORIAL
2.2 A disputa de terras no oeste e sudoeste paranaenses
Disputa de terras, violência e exclusão de posseiros, migrações internas, exploração de terras pelas companhias estrangeiras – à semelhança do que ocorreu durante a (re)ocupação da região norte do Estado, os habitantes do oeste e do sudoeste paranaenses atravessaram momentos de tensões e conflitos, que marcaram a história regional.
Passado o Contestado e a conseqüente perda territorial do Paraná para Santa Catarina, havia muitos paranaenses descontentes. Em que pesem os esforços da
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intelectualidade da capital, em promover ações, visando estabelecer laços identitários entre a população e definir um único “Paraná”, as áreas interioranas constituíam-se em sertões desconhecidos e, na maior parte, desabitados.
Afora os caboclos e os fazendeiros, migrações de centenas de gaúchos alteraram o cenário do sudoeste, com o desenrolar da Revolução Federalista, em fins do século XIX. Perseguições transformaram o Paraná em lugar de refúgio. Mesmo após o término da revolta, assuntos políticos regionais fizeram com que o Estado continuasse a receber grupos oriundos do Rio Grande do Sul, contribuindo para um lento e progressivo aumento populacional.
Ruy Wachowicz, ao tratar da população dos Campos de Palmas, nas primeiras décadas do século XX, destaca que ela passou de três mil para seis mil habitantes.211 Peões, agregados, agricultores, foragidos da justiça, posseiros da área do Contestado, argentinos e paraguaios em busca de erva-mate, além dos gaúchos, evidenciavam a origem diversificada dos habitantes que se fixaram na região.
Dispersos, eles instalavam-se em pequenos núcleos que começavam a se desenvolver. Entretanto, certos reveses viriam desarticular esse processo. Um dos principais, foi a concessão de extensas áreas devolutas feita pelo governo estadual à empresa “Brazil Railway Co.” em pagamento pela construção da ferrovia São Paulo – Rio Grande, no trecho União da Vitória a Marcelino Ramos.
Assim como acontecia no norte do Estado, a simples posse foi a maneira encontrada pelas camadas mais pobres para obterem a terra para sua subsistência. Situação extremamente frágil diante das negociações firmadas entre grandes proprietários, empresários e o poder público. Nos anos de 1930 e 1940, contudo, as posses que formavam os terrenos em torno de Pato Branco passaram a ser vendidas para colonos vindos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.212 Paulatinamente, rareavam os terrenos desocupados.
A vinda dos neoparanaenses transformou o cenário do oeste e do sudoeste do Estado e acarretou mudanças de comportamento. O caboclo, de vida simples e humilde, não via com bons olhos a chegada dos migrantes, como os gaúchos, descendentes de europeus. A expressão “gringos” é um indicativo de como eles eram
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WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. Curitiba:
Lítero-Técnica, 1985, p.68.
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percebidos pelos caboclos, como alguém de fora, que não fazia parte daquela comunidade.
Assim como o norte, o oeste e o sudoeste do Paraná eram considerados territórios de natureza riquíssima, louvada pelos viajantes que os visitavam. Nestor Victor, que esteve de passagem pelo interior do Estado, em 1913, por exemplo, quando indagado sobre o sertão do oeste, dedicou-se a traçar um panorama sobre a região que encontrara, seu desenvolvimento e produção:
Só o município de Guarapuava tem uma área que se calcula em 60.000 quilômetros quadrados, ou a quarta parte do Estado. É bem maior que a área do Estado do Rio. Bastaria aquele município para formar uma belíssima província, dotada das mais variadas produções. Os que têm alguma notícia dessa parte do Paraná, ainda hoje remota, acreditam geralmente que Guarapuava e Palmas estão inteiramente na zona fria da nossa terra, e que por conseguinte só produzem o que é próprio de tal clima. (...) Diz o Major Domingos do Nascimento que as altitudes do planalto dos campos de Guarapuava e Palmas medeiam entre 1.300 e 199 metros. Por essa diferença de 1.000 metros, é fácil imaginar o extraordinário fenômeno das correntes d’água precipitando-se em largo curso e em direção vertiginosa de Oeste a buscar o rio Paraná, como se fossem ramificações de artérias tributárias de uma aorta gigantesca,
conforme a comparação daquele nosso valioso patrício.213
A descrição de Vítor prossegue, enumerando os grandes rios que fazem parte da região, dos quais se destacam o Paraná e o Iguaçu. É importante lembrar que a navegabilidade desses rios prestou grande auxílio na colonização do território e em seu progresso. As extensas áreas verdes, cobertas por perobas, imbuias, ipês, guajuviras, alecrins, figueiras, e uma infinidade de outras espécies são destacadas pelo escritor pela sua comercialização; a fartura da região transparece na abundância de peixes; o clima com temperaturas extremadas no inverno e no verão faria do Alto Paraná um excelente sanatório se o impaludismo não reinasse.
Fazemos nesse momento uma ressalva para chamar a atenção do leitor de que a obra “Terra do futuro” de Vítor foi produzida no calor dos acontecimentos que assinalaram o conflito do Contestado, a pedido do Presidente do Paraná, Afonso Camargo. Embora, esse fato indique uma escrita tendenciosa, preocupada em valorizar e fortalecer a área territorial do Paraná, há quem defenda que a publicação, em 1913, não tem o caráter de “obra de encomenda”, pois o autor procurou
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estabelecer um contraponto entre suas visões ufanistas e a de outros interlocutores mencionados no livro.214
Contudo, dos comentários deixados por Vítor, evidenciamos aquele que se refere às primeiras descrições das Cataratas do Guaíra ou Sete Quedas, feitas pelo capitão Nestor Borges, que a visitou em 1876, admirado pelo espetáculo do ímpeto e do volume das águas. Apreciar as cataratas custou-lhe uma viagem de mais de quarenta dias. Evitando atravessar o território inçado de índios e do terreno acidentado, ele partiu de Curitiba, navegando por rio, dia 4 de dezembro de 1875, para avistar as cataratas em 16 de janeiro do ano seguinte.
Outro relato da penosa aventura que consistia em viajar pela região foi deixado pelo Major José Muricy. Ao sair de Guarapuava rumo à então Colônia Militar de Foz do Iguaçu, Muricy ressalta a travessia e os muitos percalços enfrentados: o solo muito acidentado, a mata fechada, que formava um túnel, sem que pudesse ver a luz do sol.215
Nos escritos aqui apresentados, e especialmente o de Nestor Vítor, fica perceptível a opção do autor, em celebrar um discurso ufanista, sobrepujando as tensões e conflitos existentes nessa área tão bela e próspera, como ele próprio afirma. Podemos considerar, nesse sentido, que se tratam dos “silêncios” a que se refere Tomazi, quando analisa o discurso produzido para a região norte. Havia o interesse, principalmente, do Estado, em produzir uma literatura que fomentasse o apagamento de uma memória negativa sobre a história do Paraná. Não obstante esse fato, analisando o trabalho dos historiadores a respeito do processo de ocupação e de colonização do oeste e sudoeste paranaense, é possível reconhecer esses momentos traumáticos que em muito se assemelham à ocupação das demais áreas da região. Wachowicz, por exemplo, alude às tensões estabelecidas no sudoeste durante a sua (re)ocupação. Sobre essa questão, também existem diversos registros de colonos que comentam a dificuldade em se fazer contato com os caboclos: “Em Mariópolis, por ocasião da colonização da Fazenda São Francisco de Sales, foi constatada uma população de aproximadamente 40 famílias de caboclos. Os colonizadores encontravam sinais de sua presença pelo mato, mas os caboclos fugiam sempre que os
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Ibid, p.15.
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mesmos se aproximavam”.216 As relações tornavam-se amistosas somente após as primeiras negociações de terras, quando os sertanejos adquiriam suas propriedades.
Apesar das demonstrações de cordialidade, há registros da violência que paralelamente acontecia no sudoeste, entre esses dois grupos. Tanto que muitos gaúchos que tentaram se estabelecer no local, nos anos de 1930, voltaram para suas cidades de origem, após tomarem consciência do banditismo que ali imperava. De fato, andar armado era comum. Discussões, assassinatos em bailes e em outros locais servem para exemplificar o estado de violência que se instaurou na região. Situações como essas fizeram com que se firmasse um acordo tácito entre a população que passou a tolerar certos crimes, desde que as famílias fossem respeitadas.217
Esse acordo teria sido transgredido pelas companhias particulares, como a “Brazil Railway Co.,” que atuou na região do Contestado e, com isso, colaborou para a insatisfação dos moradores da região, extravasada no conflito que assinalou a perda territorial paranaense. No sudoeste, jagunços das companhias colonizadoras tiveram o mesmo procedimento. Na opinião de Wachowicz, o levante dos posseiros e a conseqüente expulsão das imobiliárias, em 1957, cometeram as mesmas faltas.218
No oeste do Estado, a (re)ocupação esteve a cargo da Industrial Madeireira e Colonizadora Rio Paraná S. A. – MARIPÁ. A companhia gaúcha adquirira, em 1946, as terras da empresa anglo-argentina “Maderas del Alto Paraná”, sediada em Buenos Aires. A extensão da área compreendia a Fazenda Britânia, um amplo território que media trinta e seis quilômetros de norte a sul, e setenta e dois quilômetros de oeste a leste, do Estado, e localizava-se no vale do rio Paraná.219
A colonização via MARIPÁ foi realizada por meio da pequena propriedade e da policultura, favorecendo o surgimento de cidades, como Toledo, sede da empresa, e Marechal Cândido Rondon. Posteriormente, Cascavel viria a ser o centro e principal núcleo urbano da região.
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WACHOWICZ. Paraná, sudoeste..., op. cit., p.107.
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Nas frentes pioneiras paranaenses e na região do Contestado, desenvolveu-se entre os caboclos uma ideologia de tolerância para certos crimes como aqueles ocorridos nos bailes e nas rixas. WACHOWICZ. Paraná, sudoeste..., op. cit., p.110.
218
Ibid, p.111.
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Com a instalação de escritórios e de uma serraria próximos ao arroio Toledo, foram demarcados os lotes, e começaram a ser abertas as picadas e as estradas. A ausência de recursos impediu, inicialmente, que se formassem grandes propriedades.
Em 1951, foi intensa a procura de terras por colonos gaúchos e catarinenses. Nesse ano, todos os lotes demarcados estavam vendidos ou em processo de venda. O receio de atrair aventureiros fez com que a companhia não efetuasse grande divulgação em torno do empreendimento. Ao invés disso, optou por empregar sitiantes e comerciantes que se encontravam em Toledo para que recrutassem novos colonos. Sete anos mais tarde, a empresa colonizadora havia comercializado mais da metade das terras e adquirido outras porções.
Uma outra condição inusitada novamente poria em questão os limites estaduais, nessa parte do Paraná. Desta feita, o governo federal, durante as décadas de 1930 e 1940, passou a requerer uma área das cobiçadas terras localizadas na região oeste, com o fim de criar o “Território Federal do Iguaçu”.