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3 OS SUJEITOS PESQUISADOS E ALGUMAS DE SUAS NARRATIVAS SOBRE A QUESTÃO DE GÊNERO

3.3 RELAÇÕES DE GÊNERO ENTRE OS SUJEITOS DE UM MESMO CURSO: A PALAVRA DISPUTADA NOS ESPAÇOSTEMPOS DAS

3.3.1 A disputa pela palavra na turma de Edificações

No início desta pesquisa, Joy havia me falado de sua turma de Edificações, em que havia muitas meninas e os debates eram profícuos. Turma muito opinativa e

desejosa de falar na língua-alvo, qualquer tema polêmico ou não poderia render um caloroso debate entre as alunas.

O que eu fui percebendo, com o tempo, eram as relações de gênero nesses debates. Quanto mais o debate provocava o desejo de falar e mais concorrida era a palavra, maior dificuldade as meninas tinham para se fazer ouvidas. Eram onze meninas e nove meninos. Nem todas as meninas e nem todos os meninos ficavam ansiosos por falar, mas era perceptível que, mesmo estando em um ambiente mais feminino, a voz masculina conquistava maior atenção dxs ouvintxs. Se houvesse uma menina e um menino tentando falar simultaneamente, quase sempre a atenção das demais pessoas se voltava para o menino, o que colaborava para silenciar a voz feminina concorrente. Era frequente o levantar de braços femininos, estendendo a mão, gesto que solicitava a intervenção da professora para emprestar-lhes a palavra.

Os meninos, geralmente, não faziam gestos com essas solicitações; eles simplesmente falavam, sem quaisquer autorizações prévias da professora para isso. Às vezes, eles também tinham suas vozes abafadas quando a turma já estava enredada em conversas paralelas, quando poucas pessoas estavam prestando atenção no debate proposto. Mas, quando uma voz se sobrepunha às demais – resultado de uma disputa sem mediações da professora –, tal conquista era geralmente masculina. Eram movimentos sutis, mas frequentes.

Situações semelhantes ocorreram durante a roda de conversas com o grupo de Edificações. Uma das meninas da Tribo do Cuidado de si e dx Outrx contava sobre sua motivação para cursar Edificações, mas não fora muito ouvida pelxs colegas, que conversavam simultaneamente. Mas, quando outros dois meninos resolveram opinar, o grupo silenciou para ouvi-los:

“Eu nunca pensaria em fazer Mecânica. Primeiro, porque eu já tenho associado na cabeça que isso é uma coisa para homem. E que não tem muita menina. Eu vim para Edificações porque eu pensei ‘ah, lá deve ter muita menina... Eu vou fazer muita amiga e tal... Então, eu vou para lá!’”, ela disse.

Enquanto a menina falava, houve diversas conversas paralelas. A voz da menina era, aos poucos, abafada pelas várias vozes dxs colegas. Outro colega opinou sobre a questão do preconceito, ao que xs colegas prestaram atenção:

“Isso também interfere no mercado de trabalho. Porque na Mecânica você vai ter um preconceito para com a menina, com certeza. Você é uma menina mecânica... E se tiver um cara mecânico. Com a mesma graduação... Difícil escolher a menina”, ele declarou.

Outro aluno, então, disse com sarcasmo para a menina que havia se pronunciado anteriormente:

“Mas olha que mente, véi! Escolher Edificações porque... Tipo, vão ter meninas!”, ele disse entre gargalhadas.

A aluna que fora motivo de deboche tentou se defender, assim como suas amigas da Tribo também tentaram. O menino pouco se importou. Era difícil escutar o que elas falavam; ninguém (além delas mesmas) parecia prestar atenção. A turma parou para ouvir os rapazes e não dispensou atenção àquelas moças. Outra aluna, Lígia49 (que não fazia parte da Tribo), concordou com o último menino e resolveu continuar a zombaria:

“Você estava pensando no curso, no que você ia aprender? É o que você vai aprender ou é porque ‘Ai, isso é curso de menina...’?”, ela falou com voz semelhante à de uma criança, provavelmente na tentativa de infantilizar a colega.

Lígia falou em vão, porque ela também não foi muito ouvida pelo grupo.

Havia alguns movimentos interessantes na relação da menina Lígia com a sua turma. Destaco, aqui, o movimento dxs colegas para silenciar essa aluna. Falante e desejosa de se fazer ouvida, ela era uma menina que criava várias táticas para reexistir e resistir naqueles espaçostempos. De estatura baixa, corpo magro e traços físicos ditos delicados, ela criava estéticas diferentes das outras meninas: parte do cabelo solta, a outra parte trançada; piercings; jeito de andar fora dos padrões ditos

49

Nome fictício escolhido pela pesquisadora para falar de uma aluna que participou indiretamente da pesquisa. Lígia não pôde gravar conversas porque alegou ter se esquecido de trazer a autorização assinada por sua responsável.

femininos. Ela não parecia pertencer a nenhum grupo de amizades específico. Lígia migrava de um canto ao outro do laboratório. Por mais que ela quisesse falar, ela costumava pedir autorização das demais para isso, exceto nos debates muito calorosos, quando ela disputava a palavra junto com toda a turma e sua voz se perdia na sobreposição de falas. Suas atitudes espontâneas eram reprimidas pelxs colegas de ambos os sexos, que costumavam mandá-la calar a boca em inglês (“shut up, Lígia!”).

Certo dia, quando ela estava falando, há algum tempo, na apresentação de seu seminário sobre países, um de seus colegas do grupo incomodou-se com o tempo de sua fala e fez um gesto para ela, com a mão, solicitando que a menina parasse de falar. Lígia percebeu o gesto do colega e pediu:

“Let me talk about this painting”. [TSP: Deixe-me falar sobre esta pintura.]

Ao que o menino autorizou com um aceno de cabeça e verbalizou isso com um “ok”.

Mais adiante, uma colega estava explicando sobre a receita culinária de uma comida típica do país que o grupo estava apresentando. Lígia queria falar outra vez e interrompeu a colega:

“May I say something?” [TSP: Posso falar uma coisa?]

A colega fez um gesto para que Lígia aguardasse sua vez de falar. Quando Lígia finalmente conseguiu dizer o que gostaria, o mesmo rapaz que antes havia controlado o seu tempo de fala, repreendeu-a:

“Ok, Lígia?”

Lígia parou de falar. Ela se sentou à minha frente e eu fiz, então, um elogio à sua apresentação, ao que ela retrucou:

“Eu falei muito” – e perguntou às colegas: “Mas vocês entenderam o que eu falei? Tinha muita coisa que eu queria falar que eles não deixaram. Vocês entenderam o que eu disse?”

Lígia se levantou enquanto falava, e andou de um lado ao outro do miniauditório. Um menino ironizou:

“Eu só entendi o nome do país”, disse rindo.

3.3.2. As maneiras de (não) dizer e de tomar a palavra: os usos das