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4 A CABANA DO PAI TOMÁS E CAPITÃES DA AREIA: A COMPARAÇÃO COMO FENÔMENO DE INTEGRAÇÃO CULTURAL

4.2 VOZES EM PARALELO: A VISÃO DOS NARRADORES DIANTE DOS FATOS DENUNCIADOS

4.2.2 A distância temporal e cultural das obras

Situamos a nossa pesquisa em duas obras distantes temporal e culturalmente, analisamos comparando o contexto histórico-legal em que estas se desenvolveram, já que os seus autores pertenceram a épocas e a culturas diferentes, mas encontram-se, através de suas narrativas, num diálogo que ressalta características semelhantes no que diz respeito à injustiça social.

Compartilhamos do pensamento de Machado e Pageaux (2001, p.150) quando afirmam reconhecer a obra literária como um meio de simbolização do mundo, de comunicação e, sobretudo, como metáfora na cultura de uma sociedade. Nesse mesmo sentido, lançamos mão do pensamento de Llosa quando diz:

A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. [...]. O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do

tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura. (LLOSA, 2009).

A literatura vai além da posição geográfica, temporal e histórica e como representação simbólica dos conflitos, dos anseios e das conquistas humanas, assume uma função social. Através da pesquisa dos aspectos histórico-legais relacionados a cada obra, percebe-se que os autores literalizaram questões de ordem social e legal de épocas e de culturas diferentes. Explorando a temática da segregação social, por vias distintas - a divisão de raças e de classes - desenharam literariamente o assombro da injustiça social, traço inegavelmente comum entre as obras.

Vale referenciar, portanto, que a distância temporal e cultural das obras é um ponto considerado divergente entre elas. A Cabana do Pai Tomás, surge na segunda metade do século XIX (1852), período pré-Guerra Civil Americana, como uma resposta abolicionista à disposição legislativa de 1850 (Act Slave Fugitive), ato legal que obrigava os cidadãos americanos a denunciar os escravos fugitivos. A história se passa no Sul dos Estados Unidos e as personagens são usadas para acentuar como era a vida durante aquele período na cultura americana. Stowe, através da sua obra, motivou as pessoas a tomarem partido sobre a questão da escravidão. O tema é abordado sob o ponto de vista de uma cristã convicta, mas nem por isso, é suprimida a questão política e legal, bem como o papel da moralidade na sociedade da época. Isso se torna evidente para o público leitor no posfácio da obra, quando Stowe se posiciona não só como cristã, mas como cidadã consciente das aberrações sociais advindas do sistema escravagista e dos efeitos nefastos provocados por ele naquela sociedade:

Por muito tempo fugimos da responsabilidade da escravidão pelo fato de estarmos convencidos de que é um assunto difícil e, além disso, a que o progresso das luzes prontamente colocaria fim. Com maior consternação e admiração, porém, lemos a disposição legislativa de 1850, pela qual um povo cristão recomenda que se denuncie os escravos fugitivos como um dever obrigatório a todos os bons cidadãos. Homens honrados e bondosos, alguns moradores dos Estados livres do Norte tentam verificar até onde este dever pode ser conciliado com o espírito do Evangelho. Dissemos então: “Esta gente não sabe o que é a escravatura!”, e criamos o projeto para esboçar tudo o que ela possui de terrível, sob uma dramática forma. (STOWE, 2004, p. 367).

Capitães da Areia, por sua vez, surge na primeira metade do século XX

(1937), período conturbado na história política brasileira, às vésperas do surgimento do Estado Novo – instauração da ditadura Vargas. A história se passa no Nordeste brasileiro e as personagens são usadas para representar a camada social infanto-

juvenil, órfã, pobre e marginalizada, segregada pela sociedade, por um sistema capitalista opressor e excluída por uma legislação que atendia aos anseios de uma classe aristocrática dominante. O tema é abordado sob o ponto de vista de um escritor engajado, que busca extravasar seus ideais sociais e políticos, através das posições que seus personagens ocupam no universo sócio-cultural. As façanhas cotidianas nada sociáveis das personagens para sobreviverem em uma sociedade que os repelia, transforma-os em “meninos-heróis” e a saga de cada um deles transforma-se numa luta em favor da dignidade humana:

A revolução chama Pedro Bala. [...] Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres, Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: “Companheiros”. [...] Voz poderosa como nenhuma outra, Voz que chama Pedro que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. [...] Voz que traz para a canção da Bahia a canção da liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade. A revolução chama Pedro Bala. (AMADO, 2008, p. 267).

A Cabana do Pai Tomás simboliza a cultura e a história de um tempo mais

distante na sociedade americana. Esta obra, considerada grande clássico da literatura daquele país, motivou as pessoas a tomarem parte em uma questão sociopolítica de grande complexidade; Capitães da Areia, por sua vez, simboliza a sociedade, a cultura e a história de um tempo mais próximo na sociedade brasileira. É um grande clássico de nossa literatura que trouxe à tona reflexões sobre as estruturas sociais, o incentivo à luta e à resistência ao poder que subjuga, marginaliza e humilha.

As palavras do crítico comparatista norte-americano Remak (1961, p. 3), “[...] o estudo da literatura além dos confins de um país particular, é o estudo das relações entre a literatura, de um lado, e das outras áreas de conhecimento e da crença […]”, faz-nos ver como dois escritores de culturas e sociedades diferentes aproximam-se, ao demonstrarem preocupação com o ‘marginalizado’ e usarem suas obras como meio para reivindicar ‘direito’ para defendê-lo. É interessante ver como a “comparação de uma literatura com uma outra”. É ‘a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana’.